Há exatos vinte anos era publicado um livro, no Brasil, que conheceu um imenso sucesso no mundo e por aqui também: em todas as casas onde havia livros, lá se encontrava um exemplar dele.Tratava-se do romance “O Turista Acidental”, da escritora norte-americana Anne Tyler, levado às telas no ano seguinte, com o mesmo nome e com igual êxito (recebeu dois prêmios Oscar, além de oito outras indicações). Confesso que achei a trama bastante aborrecida, dessas feitas para “fazer chorar”. Mas, pelo menos, era ainda literatura feita para adultos, muito acima, portanto, dos best-sellers de hoje, que investem na infantilização dos leitores.
Porém, o livro tinha uma idéia boa, em princípio. Seu protagonista, como alguns devem se lembrar, era um escritor de guias turísticos para pessoas que detestavam viajar e, acima de tudo, mudar seus hábitos. Ou seja, ele indicava hotéis, restaurantes, lojas e ambientes vários pelo mundo nos quais um norte-americano médio poderia sentir-se como se estivesse em casa: o mesmo aspecto em tudo, os mesmos sabores, etc. Durante muito tempo, considerei tal prática o mais rematado exemplo da caipirice e imbecilidade daqueles nossos “irmãos do Norte”. Mas então não havia ainda, propriamente falando, a globalização, ou mal a enxergávamos. Hoje, por mais que se invistam em “diferenciais” turísticos, a estrutura, no fundo, é absolutamente idêntica em toda parte. Aeroportos, saguões de hotéis, shoppings centers, muitos restaurantes e seus cardápios, parecem todos uns cópias dos outros, e sem uma matriz claramente discernível. E o público tem embarcado nestas canoas sem dó nem compreensão. Sei de gente, aliás, que a primeira coisa que faz quando chega a uma cidade desconhecida é procurar, no horizonte, o grande M amarelo da conhecida cadeia multinacional de lanchonetes. Em suma, não bastasse a nossa natural jequice, agora também copiamos outras estrangeiras.
Digo isso porque, recentemente, observei coisas espantosas numa viagem de gente que, embora desconhecendo a cidade, aferrava-se aos seus hábitos mais elementares. Querem exemplos? Vamos a eles.
O quê dizer de uma pessoa que, na sala onde era servido o café-da-manhã do hotel, diante de toda aquela fartura conhecida e frente a iguarias locais, típicas, resume sua escolha ao café com leite de todo dia, pão com manteiga e uma fatia de presunto? Frugalidade? Falta de apetite pela manhã? Mas como, se a mesma pessoa se empanturrou com três xícaras de café e seis — isto mesmo, seis, dei-me ao trabalho de contar — pães amanteigados e com o indefectível apresuntado? Agora imagine dezenas delas fazendo a mesmo coisa, o que também constatei: é ou não é o fim da picada?
E daqueles que, mal chegam, só querem saber onde fica o shopping center mais próximo? E, depois de conhecê-lo, que saber se há outros e não descansa até visitá-los, um a um. Dane-se a cidade, sua história, suas paisagens, suas peculiaridades. O que importa é a mesmice, o conhecido: a mudança, para os brocoiós, é um pesadelo. Conheço gente que viaja a outros países e não perde a oportunidade de ir a um cinema. Mas o que vêem? Alguma produção local, que dificilmente passaria por aqui? Nada! Vão assistir algum arrasa-quarteirão com algumas semanas de antecedência da sua estréia “nacional”... Numa viagem a uma cidade de praia, por exemplo, famosa pela qualidade de seus peixes e pelo preço baixo de seus pratos, vi pessoas felicíssimas por terem encontrado “um restaurantezinho legal, que faz um comercial com bife e batatas fritas baratinho”...
O que dizer de tais criaturas, que rodam o mundo e não parecem querer sair de seus próprios quartos? Que engole a primeira coisa que lhe impingem goela abaixo, e sem reclamar? Que, por fim, até acostumam-se com isso, que o anseiam acima de todas as outras coisas? Podemos chamá-las de humanos? Ou será que não estão mais para gado de engorda? Resta ainda especular quem é que lucra com esta ceva...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de dezembro de 2007].
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