O ex-governador paulista Geraldo Alckmin, postulante à Presidência da República, posa de exemplar pai de família e amantíssimo marido.
Que é um bom pai, parece não haver dúvidas, veja-se o fato de que não impôs restrições a que um filho seu namorasse uma assessora, funcionária do Palácio dos Bandeirantes, nem descuidou da segurança de ambos, pois, como é sabido, um sargento da briosa Polícia Militar do Estado de São Paulo chegou a perecer, pelas mãos de bandidos, na defesa do jovem casal. Da mesma maneira, é inegável que cuida bem de sua prole, posto que encaminhou muito bem aquele filho, auxiliando-o a criar uma empresa importadora de “remédios” em sociedade com a filha de um médico. O fato deste último indicar o negócio da filha — que também é do filho do ex-governador, lembre-se — como um lugar para a compra dos ditos “medicamentos” prescritos aos seus pacientes — dentre eles, que coisa curiosa, o ex-governador Geraldo Alckmin — deve ser uma mera coincidência, coisa que não deve preocupar nenhum órgão fiscalizador. Igual coincidência ter destinado um bom dinheiro com publicidade do Estado na revista publicada pelo referido médico. Idem, quanto ao convênio firmado entre a Secretaria de Saúde e certa instituição, ao que parece, dirigida pelo já citado clínico. Excesso de coincidências? Pura coincidência!
Já quanto ao seu amor desmedido pela mulher, este parece exagerado, posado demais. É verdade que a grande imprensa, e aquela que vive de mexericos, a toda hora mostra o par se derramando em declarações amorosas, olhares significativos, abraços, mãos dadas, etc. Há fotografias do casal, estampadas em primeiras páginas de jornais, que mais parecem destinadas a estamparem matérias de coisas como Caras ou Contigo. No andar dessa carruagem, é capaz ainda de vermos o casal nas capas de Boa Forma, Cláudia, Nova e outras mais. Lisonjeadoras como são certas editoras, não duvidem da possibilidade de a ex-primeira dama acabar como capa da revista Capricho...
Mas alguma coisa parece não estar bem na relação deles. Pois como é que o ex-governador não notou os quatrocentos novos vestidos da mulher? Não estou falando de quatro vestidos, o que já seria estranho. Nem de quarenta, que seria um absurdo. Mas de quatrocentos! Isto é mais do que um escândalo! Quanta insensibilidade do ex-governador!
Faço aos leitores a seguinte pergunta, especialmente àqueles casados, noivos ou namorados firmes: existe a possibilidade, por mais remota que seja, de ignorar uma nova roupa vestida por sua mulher, noiva ou namorada? Não perceber a mudança da cor do esmalte já é ofensa grave. Não notar a mudança no corte do cabelo, então, é motivo de briga séria. Então o que dizer de não reparar num vestido novo? Não tem perdão. Se amamos, de fato, a pessoa, é impossível que um nova peça de roupa passe desapercebida. Podemos até não gostar, mas ao menos por educação, elogiamos. Agora, não dar a mínima? É desamor, na certa.
Outro argumento que prova nossa teoria se refere ao número. E novamente invoco a opinião dos leitores. Imagine que sua mulher apareça com um vestido novo, você nota, comenta e a coisa morre por aí. No dia seguinte, eis que ela surge com outra roupa, novíssima. E a coisa se repete ao longo da semana. Se ela é independente do ponto de vista financeiro, tudo bem, gaste como quiser. Mas até por bom-senso você diria a ela, com jeito, algo mais ou menos assim: “meu bem, quantas roupas... não está gastando muito não?”— ou não diria? Agora, se ela não for independente, vive de mesada que você concede, e ainda assim, seu dia-a-dia é um perpétuo desfile de modas, tudo muda de figura. A primeira coisa seria botar um freio na coisa porque, afinal, seu dinheiro não dá em árvore. A segunda, seria perguntar como é que ela está pagando por todo aquele guarda-roupa, já que na conta-conjunta do casal não tem caído nada além do comum. Cartão de crédito? Cheque especial?
Mas eis que ela responde, com o maior ar de candura: “não estou pagando nada: Simplesmente ganhei”. Diante de tal afirmação, cada marido que responda de acordo com sua consciência...
Só que o mesmo não pode ser dito quanto a Geraldo Alckmin. Pois ele não é um marido qualquer, que pode assistir mansamente ao aumento do guarda-roupa de sua consorte. Pois o mesmo que se esperava da mulher de César na Roma antiga — que não bastaria ser honesta, mas também parecer honesta —, espera-se dos homens públicos e de suas famílias. Além do mais, decoro e modéstia não fazem mal a ninguém.
Triste episódio este, em que o ex-governador só enxergou os quatrocentos vestidos novos depois que todo mundo viu, e olha para o problema todo como se ele não passasse de um erro de sua mulher. Muito feio isto, sr. ex-governador: primeiro cometeu a grosseria de não notar as roupas da mãe de seus filhos e depois ainda põe a culpa toda nos ombros dela. Não fica nada bem deixar a própria mulher fazer meio que o papel de uma Imelda Marcos tupiniquim — saem as centenas de sapatos da ex-primeira-dama filipina, entram as centenas de vestidos da ex-primeira-dama pindense. Não parece coisa de um homem que se apregoa bem-educado e marido amantíssimo.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de abril de 2006].
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