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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

São João del Rei à vol d’oiseau

São João del Rei, que visito pela quarta vez (mas, desta, com calma), é uma cidade com aspectos muito curiosos. Como eles gostam de dizer por aqui, este é o lugar onde o “barroco encontra o moderno”, e coisas que tais. De fato, da janela do hotel onde me hospedo, vejo, quase alinhados, uma ponte de pedras de 1797, um casarão colonial do mesmo período. Este, ladeado por um prédio dos anos 1920 e outro dos 1930. À esquerda do primeiro, um outro dos anos 1950, e, logo por detrás dele, as torres – neoclássicas, pombalinas – da Matriz do Pilar. A um quarteirão de onde estou, há um sobrado colonial dos mais típicos que há, com balcões de ferro e hastes de lampiões de intrincados arabescos: e quase defronte a ele, um moderno mini-shopping center. É de espantar. Acho que, em termos brasileiros, somente no Rio de Janeiro se vai de um extremo ao outro tão rapidamente: penso na Praça XV de novembro, com o Arco do Teles, o chafariz de Mestre Valentim e o Paço dos Governadores (todos do século XVIII), a Estação das Barcas (do XIX para o XX) e as torres modernas de escritórios (anos 1970 ou 80).
Mas a população tem seus traços pitorescos também. Há quase todo instante se encontra uma freira, se topa com um soldado (aliás, foi aqui que avistei pela primeira vez uma soldada, que não a Maria Quitéria dos livros escolares), ou se cruza com um grupo de estudantes – estes, aliás, muito mais evidentes atualmente em São João del Rei do que em Ouro Preto. Todavia, os de cá parecem menos boêmios... Minha mulher e eu nos aboletamos num café (na verdade uma chopperia, que também serve café, e que meteu a bebida da rubiácea no seu nome) por volta das seis da tarde. Estivéssemos em Mariana ou Ouro Preto (ou nas cercanias da Esalq, em Piracicaba, ou da Unicamp, em Barão Geraldo), e teríamos como vizinhos de mesa pelo menos uma dezena de estudantes. Aqui o que víamos eram dúzias de jovens com trajes de ginástica, deixando uma academia ou rumo a elas. E, dado curioso, todas as moças, rigorosamente todas, usando compridas meias brancas sobre as calças, como, pelo que me lembro, parece que foi moda em São Paulo há uns dez anos atrás. Quando elas passam por algum prédio colonial dão, por instantes, a impressão de vislumbrarmos trajes dos homens do século dezoito, usando meias de seda até os joelhos. Já quando atingem outra construção mais moderna, nosso equívoco, nossa breve ilusão se desfaz: o anacronismo do acessório, como acabamos percebendo, é de uma década, e não de dois séculos...
Nos primeiros dias chamou-se a atenção também um certo culto à memória de Tancredo Neves (1910-1985) quase com ares de adoração ou veneração de santo. A toda hora parece que nos deparamos com uma avenida ou Praça, Casa de Saúde ou Escola, que levam o seu nome ou homenageiam sua mulher, Dª. Risoleta. Há uma praça onde uma estátua de Tiradentes olha diretamente para outra de Tancredo, posta em frente. E no Memorial Tancredo Neves, com seu busto no átrio, encontra-se outra estátua sua, sentada num banco na calçada, para que os turistas tirem fotografias ao seu lado (e pelo grau de luzimento do bronze do braço, percebe-se que muitos sentam-se junto a ele: o nariz também brilha de dourado, mas não me perguntem o porquê). Fiquei pensando nisto alguns dias, nesta Tancredolatria dos sanjoanenses, até que refleti melhor, lembrando que, afinal, não só o homem era natural daqui, como foi deputado estadual, federal, governador, ministro de Estado, Primeiro-ministro e Presidente da República (eleito). Tinha, portanto, uma senhora trajetória política. Bem diferente de certos senhores de São Paulo, que com bem menos cargos políticos, com histórias de vida bem mais provincianas, paroquiais quase, andam dando nome a tudo que é logradouro público do Estado, só faltando cemitério e sanitário público. Mas, talvez, seja só uma questão de tempo...
Fiz meu mea culpa: felizes os sanjoanenses por terem de quem se orgulhar!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de setembro de 2011].

domingo, 29 de agosto de 2010

Violência policial francesa?

Um casal de amigos viajou, recentemente, para um “lugar paradisíaco”, o tipo de destino turístico que me causa arrepios. Pelos motivos lógicos, aliás: pois, como no Paraíso, não tem água encanada, luz elétrica, vivalma, e há toda sorte de animais – sobretudo insetos, que superam em número todas as demais classes de seres vivos não vegetais – que nos lembram, minuto a minuto, de sua existência e de sua maioria numérica sobre nós. Depois, lembremos: no Paraíso tinha ao menos uma serpente: nos lugares paradisíacos, geralmente, são várias; neles não há soro antiofídico nem médico, nem um sequer, para tratar de uma insolação, machucado causado por queda de cachoeira, ou coisa que tais.
Pois bem, contou-me o dito casal que, ao chegarem de ônibus na cidade mais próxima do destino, rumaram para uma praça onde os turistas que buscavam o tal lugar paradisíaco eram recebidos por alguns jipes que os deixariam no novo e terrenal Éden. Além do já mencionados marido e mulher, já bem passados dos trinta anos, estavam mais dois casais, um na casa dos vinte e poucos anos, outro mal chegado àquela década, como revelavam suas roupas espalhafatosas, seus cabelos com dreadlocks: para quem não sabe, são aqueles cachos copiados dos rastafaris. Pois bem, estavam ali, todos, esperando a condução, quando uma patrulha policial militar aborda todo o grupo, formado à revelia de seus membros. Meus amigos foram então informados, muito gentilmente, que suas bagagens seriam inspecionadas, “que quem não deve não teme”, e que era ordem do comando, etc., etc. O mesmo se deu com o outro casal dos vinte e poucos anos, ou melhor, quase o mesmo: a polidez fora francamente diminuída, no caso deles. Quando chegou a vez dos jovens de dreadlocks, então, todo o verniz de educação, ou correto procedimento policial, pareceu evaporar por completo. Foram maltratados, abertamente tratados como suspeitos, sob uma chusma de palavras que não posso reproduzir neste espaço. Chegou-se ao cúmulo de um agente homem tentar revistar a moça e de outro, frente, à justa indignação do parceiro daquela, sacar de sua arma para intimidá-lo. Só não houve um desastre porque o outro casal – não o dos meus amigos – eram advogados, identificaram-se enquanto tais e impediram que tudo desandasse. Os policiais engoliram sua fúria, revistaram as malas dos jovens e foram embora.
O grupo então rumou para o tão almejado destino e se divertiram por alguns dias. O casal mais jovem, entretanto, partiu mais cedo. Quando meus amigos e os outros retornaram à cidade, souberam do destino dos outros, pelas páginas do semanário local: presos por posses de drogas.
Meus amigos e o outro casal então refletiram: visto que nada foi encontrado na bagagem dos jovens quando da primeira vistoria; visto que o grupo não se avistou com ninguém desde então; visto que certas drogas não brotam naturalmente no mato e precisam de processamento químico; visto ainda que foram presos justamente ao voltarem: era lógico que foram vítimas de uma armação. E os advogados procuraram o jovem casal na delegacia local. E os encontraram, bastante machucados.
Tudo isto se deu num estado de nossa República Federativa que investe somas consideráveis em propaganda que decante suas belezas naturais e a simpatia de seu povo.
Saltemos para esta semana, e para o noticiário. Nele, vimos que um vídeo gravado por um amador, no qual estava registrado um flagrante de violência policial ocorrido na França, contra imigrantes, teria chocado os habitantes daquele país e de outros lugares do mundo. Talvez os belgas, os holandeses, os islandeses, os escandinavos em geral e os canadenses tenham, de fato, considerado o episódio violentíssimo. Para quem, entretanto, não vive naqueles países, versões ricas do paraíso terrestre, até que achou o comportamento dos policiais franceses bastante polido. Pois estamos tão acostumados com a violência em nosso próprio quintal que até já se disse alhures: “pobre só vai pra frente quando o cacetete acerta a nuca”.
O que mais causou espécie, entretanto, foi o comportamento de certos conterrâneos achando o que ocorreu na França “violentíssimo”, “inominável”. Não defendo, evidentemente, o que ali se deu, mas se olharmos para o nosso terreiro, temos exemplos muitíssimos mais violentos, de fato chocantes e indesculpáveis. Vi, por exemplo, no mês passado, oito policiais militares, de arma em punho, em Belo Horizonte – capital de um estado governado por um partido que odeia mendigos – desalojarem três miseráveis sem-tetos de uma marquise e atirarem seus míseros pertences – mas seus únicos bens e, por isso, seus tesouros – no Córrego Arrudas, sem possibilidade de recuperação. E a simples visão das margens cimentadas daquele córrego revela ser aquela uma prática comum, dada a quantidade de roupas e colchões – decerto ganhos nas Campanhas do Agasalho, para as quais todos doamos – apodrecendo ali.
Violência policial francesa? Olhem para seus pés, ó pavões...

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 7 de agosto de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Alguns roteiros e um destino

Um amigo português, há pouco tempo, descreveu-me o seguinte plano de viagem e o justificou. Dizia ele que, depois de visitar boa parte dos sítios históricos de seu país, gostaria de empreender uma visita ao Brasil, mas não em busca das principais construções históricas de nossa pátria tropical, que ele já conhecia, e, sim, precisamente, de um roteiro diferente: um roteiro literário, que abrangesse não só as casas dos grandes vultos de nossa literatura — e, convenhamos, por mais de trezentos anos, da literatura dele também — bem como, se possível, os cenários e as paisagens descritas por nossos maiores autores.
No primeiro instante senti-me, como era de se esperar, extremamente envaidecido. Como se ouvisse rufar aos meus ouvidos aquele velho — e patético — chavão, outrora repetido em nosso país, em timbre triunfante, acerca de tudo e acerca de nada, que dizia que “a Europa irá se curvar ante ao Brasil” ... etc., etc., etc. Mas depois, acordando do breve e injustificável letargo ufanista, considerei nossas condições e passei a ponderar com o amigo.
Em primeiro lugar, adverti, aqui não é como a Inglaterra, que não só tem um “roteiro literário” para Londres, visitando as casas de Charles Dickens, W. M. Thackeray e Conan Doyle, bem como os cenários em que seus vários personagens, como David Copperfield, o Sr. Pickwyck, Betty Sharp e Sherlock Holmes percorreram, com direito a placas afixadas às ruas onde “viveram”. Igualmente não temos um roteiro como o do Distrito dos Lagos, visitando as moradias dos poetas românticos Wordsworth, Coleridge, e Southey — autor também de um dos primeiros (ótimo aliás) compêndios da História do Brasil —, ou do polígrafo Thomas de Quincey, ou do grande crítico e filósofo da arte John Ruskin, autor das imortais “Pedras de Veneza”, dentre outros talentos que viveram na região.
Longe estamos de Paris, que anuncia a cada canto a morada deste ou daquele poeta, escritor ou filósofo, com direito a placas de indicação plantadas em plena rua e outras comemorativas nos lugares que, de uma maneira ou outra, figuraram em suas obras. O turista quer conhecer a casa de Victor Hugo, Verlaine, Rimbaud, Gide ? É simples, basta seguir a placa: e por esta indicação, conhece quase todas as moradias dos escritores franceses, os cenários por onde passaram e os quais descreveram. Paris, neste tipo de roteiro, é tão rica que se dá ao luxo de indicar até mesmo as moradias de escritores das mais diversas nacionalidades que ali habitaram, desde o russo Turgeuniev ao nicaragüense Rubén Darío, passando pelos americanos Gertrude Stein, Hemingway e Scott Fitzgerald
Da mesma maneira, não possuímos a variedade de roteiros que, por exemplo, o distrito de Concord, Massachussets, Estados Unidos, se dá ao luxo não só de apresentar, como apresentá-los aos montes, quer seja enfocando as construções coloniais, ou os campos de batalha da Guerra da Independência, e ainda, principalmente, as casas de moradia e as paisagens descritas por Henry David Thoreau, Louisa May Alcott, Ralph Waldo Emerson, Nathaniel Hawthorne e Margaret Fuller, que valem não só por uma verdadeira aula de literatura americana de meados do século XIX, como pelo fato destes autores serem os fundamentos da literatura norte-americana moderna.
Nem mesmo, senti-me obrigado a reconhecer, temos as indicações como as que Portugal pontuou em seu mapa, as vastas indicações à casa de Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, ou a de Guerra Junqueiro naquele rincão cujo nome é tão belo quanto uma poesia épica: Freixo de Espada-à-Cinta. Ou como as da casa de José Régio, em Portalegre.
Nem temos indicações em nossas cidades, da moradia dos grandes vultos das letras e das artes pátrias. A casa de Mário de Andrade, em São Paulo, só meia dúzia de pessoas a conhecem. A casa onde viveu Guilherme de Almeida, que até já foi museu, menos gente ainda. E no Rio de Janeiro e Recife, a coisa não é muito melhor. Não só faltam indicações, quando faltam mesmo as próprias casas, devoradas pela voragem das grandes cidades e seu apetite por arranha-céus.
A solução, ponderei com o amigo, é Ouro Preto: lá estão ainda de pé não só as casas onde viveram os poetas árcades Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, como também a moradia a do tribuno conservador Bernardo Pereira de Vasconcelos, do escritor romântico Bernardo Guimarães, do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens e do parnasiano Augusto de Lima.
Mas meu amigo riu, gostosamente, e disse, brincalhão: “Ouro Preto não vale, Pedro. Para você, a solução, sempre passará por Ouro Preto...”.
E depois, dizem que ninguém sabe do destino alheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2005].

Um caso exemplar de egoísmo e maldade

O episódio foi visto pelo Brasil inteiro e por parte do mundo também. Um pequeno grupo de pessoas, filmado por um cinegrafista, passeia às margens da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, até que alguém vê um saco de lixo boiando nas águas da lagoa. Um desses sacos comuns, de plástico preto, para os quais não vemos outra função que não a de recolher detritos e outras coisas sem serventia. Entretanto, eis que se ouve um som vagamente humano vindo daquela embalagem — as pessoas disseram, mais tarde, que pensaram se tratar de um miado, já que é comum a prática, horrenda, aliás, de afogar filhotes de gatos. Então, movidos pela compaixão frente àquela cruel sentença de morte que não se daria sequer a um animal, resgatam o saco, trazem-no à terra, rasgam-no, e revelam o seu conteúdo: uma criança, uma menina recém-nascida.
Nenhum argumento pode se utilizado na defesa da mãe que seja aceito pela Moral e pela Justiça — compreendendo-se por Moral aqueles modos e valores que nos diferenciam dos animais, e que, dentre outros aspectos, nos conferem a faculdade de identificarmos o que é certo e errado naturalmente, ainda que a hipocrisia e o oportunismo, bem como os maus costumes atuais, procurem nos afastar tão amiúde de tais princípios; e, por Justiça, não o simples ordenamento jurídico e suas práticas processuais, porque estas acolhem, por definição da lei, os argumentos da defesa, por mais incríveis que possam parecer, mas, sim, aquela noção maior, íntegra e universal que nos diz o que é verdadeiramente justo, o que pode ser perdoado e o que deve ser execrado para a formação, exemplo, ou castigo de todos.
Pois a morte da menina foi planejada. Não foi, obviamente, um caso de privação de sentidos próprio ao estado puerperal — aquela demência passageira que pode acometer certas mulheres logo após o parto, a ponto de matar o próprio filho. Foi, isto sim, premeditada. A ocultação da gravidez já foi uma prova do quanto a mãe repudiava a criança. Por fim, eis que a criminosa retira a filha do hospital dando todas as indicações de que dela cuidaria — lembremos das roupinhas e dos sapatos cor-de-rosa da pobre vítima salva da morte. E, no entanto, entrega-a a um fim muito mais do que cruel.
Não cabe diante do caso, nem para uma mentalidade desvairada, estabelecer um paralelo entre o funesto episódio ocorrido em Belo Horizonte e, digamos, o que se sucedeu ao patriarca Moisés, deixado à beira do Rio Nilo num cesto por sua mãe, Joquebede, para colocá-lo a salvo da vontade do faraó, que ordenara o morticínio dos filhos homens dos hebreus, que deveriam ser lançados às águas daquele rio (Ex. 1.22). Tampouco com Medéia, a personagem da mitologia grega que envenenou os filhos para vingar-se do amante, Jasão, que a abandonara e à prole. Um correlação possível, certamente, seria o daqueles infanticídios, tão comuns no Extremo Oriente, que ainda ocorrem, para a vergonha da Humanidade, mas cujo exemplo máximo dava-se na China, até meados do século XX: os pais, descontentes por terem filhas — visto que a mão-de-obra feminina sempre foi injustamente desvalorizada e, portanto, julgada não rentável, bem como pela necessidade de se constituir um dote para casá-las, privando os pais de tempo e dinheiro — simplesmente atiravam aquelas crianças às águas dos rios e à morte.
De fato, a correspondência entre o que se fazia na China e o que aconteceu com a pobre menina salva da lagoa da Pampulha é quase completa — sem falar nos inúmeros outros casos de violências contra crianças descobertos pelo país afora, que a grande imprensa, ave carniceira sem plumas, não investigou, mas, simplesmente, explorou: os índices de audiência (IBOPE, etc.) que o digam. Pois todas estas aberrações contra o instinto maternal nada mais são do que a prova definitiva de um imenso egoísmo. Trata-se da velha e falsa alegação de que uma vida seria sacrificada (a da mãe) se um outra vida (a da criança) viesse à luz. O mesmo argumento torpe, e frágil, que alguns levantam para defender o aborto. Pois a eventual pobreza, as dificuldades que envolvem a criação de um filho, o preconceito da sociedade diante de certos casos, a “imaturidade” ou os “empecilhos a uma carreira” não são desculpa, nem atenuantes, do assassinato frio de um inocente, de um indefeso.
A menina de Belo Horizonte foi salva, sem dúvida, graças a um milagre. Outras centenas de crianças talvez estejam sendo mortas neste exato momento. Por incapacidade de Deus de coibir tais horrores? Não. Pois o que pode Ele quando o egoísmo e a maldade mais profunda se instauram nos corações e nas vontades humanas?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de fevereiro de 2006].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Meio-dia no cemitério

O título da crônica desta semana sugere uma paródia às histórias ou filmes de terror. Porém não se trata disso. Está mais para um apólogo moral, ainda que com ares de anedota. E, o que é mais curioso, inteiramente verídico. Mas vamos à história.
Tudo aconteceu no último domingo, nas idas e vindas de uma pesquisa que eu realizava, numa gélida e escura sacristia de uma igreja de Ouro Preto, debruçado sobre um missal de 1798, fazia já umas duas horas. Para desentorpecer um pouco as pernas e aquecer-me um pouco ao sol, saí para o adro, acendi um cigarro e pus-me a pensar na vida. Mas antes de que qualquer idéia me viesse à mente, eis que um conhecido, professor universitário de Goiás, de quem não tinha notícias havia certo tempo, surge, como se do nada, à minha frente. A conversa correu lindamente, ele contando-me suas descobertas, e eu alguns modestos achados, a ponto de quase ter me esquecido do que tinha ido fazer ali. Despedimo-nos e retornei aos meus afazeres. Mas quando retorno à sacristia, dou com a cara na porta. Bato nela. Nada. Espio pelas vidraças e vejo apenas o missal sobre o arcaz, com minha lupa e meu caderno de notas ao lado. Nenhum sinal do Presidente da Irmandade, meu anfitrião. Quando já pensava em ir procurá-lo em sua casa, vi seu vulto acenando-me do cemitério, contíguo à igreja. E fui até ele.
Encontrei-o conversando com um velho paroquiano, que conhecia de vista, tratando de assuntos pontuais da confraria, assuntos que, absolutamente não me diziam respeito, mas dos quais não declinei de participar: é, de fato, uma espécie de honraria, para alguém de fora, ser admitido em tais palestras. E enquanto discorríamos sobre uma nova reforma do cemitério, aproximou-se de nós o coveiro da irmandade, trazendo numa das mãos um saco plástico, de cujo conteúdo, no mesmo instante, intuí a natureza: não havia dúvida de que se tratava de uma ossada. Entre a estranheza e o decoro, por educação e piedade, contemplamos, todos, aquele macabro invólucro. Mas o velho paroquiano não se conteve e perguntou ao coveiro:
– Ô, Félix, quem é que está aí?
– É o Seu Cesário.
– O Cesário? Nossa... E como é que ele está?
– Até que está bem. Quer ver?
E, sem a menor desfaçatez, nem qualquer incentivo de nossa parte, o Félix, o coveiro, enfiou a mão dentro do saco, meteu um dedo na cavidade que envolvera o olho esquerdo do falecido, como se a mesma fosse uma espécie de alça, e expôs o crânio descarnado do falecido seu Cesário perante nós, sob o pleno sol do meio-dia.
Não sou pessoa de assustar-me à toa, de enojar-me com facilidade, ou de surpreender-me por bobagens. Mas, confesso, a visão de uma ossada não é, nem de longe, algo agradável, ou curioso: há uma infinita distância entre os corpos de uma aula de anatomia e a coisa real, recém-tirada de uma cova. Dizer que é algo meramente desagradável é muito pouco. E, homens, e cristãos, como éramos todos ali, não se podem dar à leviandade de se recusar a enfrentar uma semelhante visão. Ainda que com desconforto.
Assim, aceitando com toda a dignidade que de nós era esperada, no momento, aquela situação, eis que o Félix nos surpreendeu, mais uma vez, com seus comentários:
– Olhem só, ele está muito bem, não é verdade? E vocês não imaginam o quanto. O osso da bacia, depois de alguns anos, geralmente é encontrado quebrado. Mas vejam como o dele está inteirinho – e enfia novamente a mão no saco plástico e exibe para nós os ossos do quadril do Seu Cesário.
Para nós, porém, foi a gota-d’água. Fizemos o sinal-da-cruz e despedimo-nos do coveiro.
Ao deixarmos o cemitério, o velho paroquiano nos confidenciou algo que, no fundo, todos sentíramos:
– Não deixa de ser engraçado. Somos pessoas de fé. E, ao mesmo tempo, vivemos na era da ciência. Tive a curiosidade de ver o que restou de um velho amigo, achando que olharia seus ossos como olharia para uma ossada de um animal ou para uma espécie de manequim. Mas a humanidade, a humanidade reside ainda em cada centímetro daqueles restos.
De minha parte, tão constrangido estava quanto o homem, acrescentei, sem notar um certo grau de impiedade em minhas palavras, frente a uma pessoa idosa:
– Uma humanidade que é tênue, e eterna como nós sabemos. O que nós vimos, e o que nos dói, é o que todo mundo sabe há séculos: um vislumbre do nosso verdadeiro futuro.
– Do rei ao mendigo. Do jovem ao velho. O meu futuro, o de vocês e o daquele menino ali, empinando seu papagaio, e o de seus netos e dos netos de seus netos – respondeu ele.
E nos separamos: ele rumo à sua casa. Eu, para minhas pesquisas.
Tudo do que tratei nesta crônica não traz, essencialmente, algo de novo. Registro tais fatos porque se deram, literalmente, como ocorreram e para além de qualquer imaginação. Foi tão verdadeiro quanto a moralidade que este episódio encerra e exemplifica. Como, também, tão perturbador, em sua absoluta simplicidade.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de julho de 2008].

Um novo exílio da Sagrada Família

O cenário onde se desenrolaram os fatos narrados na presente crônica é quase idêntico ao da semana passada [19 de julho de 2008]. Os motivos que me levaram até lá foram, também, os mesmos. E idêntica era minha mesa de trabalho. Novamente, eis que me encontrava numa sacristia de capela, pesquisando velhos livros e documentos ainda mais antigos, dispostos sobre uma imensa cômoda de jacarandá, quando os fatos vieram ao meu encontro. Devo dizer, entretanto, que, nessa ocasião, a luz era bem melhor, o frio muito menos intenso, mas, por sua vez, meu anfitrião, o zelador, era muito mais loquaz. Foi difícil conciliar minhas pesquisas com a vontade de conversar que o homem tinha, interrompendo-me a todo instante. Compreendi, naquele lugar, porque muitas pessoas preferem o silêncio dos arquivos à busca de documentos em seus locais de origem. Mas, ainda assim, não justifico tal escolha. É no convívio com os velhos guardiões de papéis e igrejas que se descobre o melhor, seja das pesquisas, seja da vida.
Estava, então, como dizia, consultando antigos documentos de uma irmandade quando, fui interrompido, mais uma vez, pelo zelador. Ele arrumava um grande armário quase às minhas costas, retirando toda sorte de objetos e dispondo-os sobre toda e qualquer superfície elevada e plana da sacristia. E já sem ter onde depô-los, passou a acumulá-los sobre a minha mesa de trabalho. Por todo o cômodo viam-se velhos castiçais, santinhos impressos, cadernos de contas, folhas e folhas de papel, incontáveis velas, de todos os tamanhos, descorados paramentos litúrgicos, equilibrados sobre mesas, cadeiras, baús. Mas, sobre a cômoda, e quase à minha frente, quis o homem deixar uma grande imagem de gesso da Sagrada Família.
Dizer que uma imagem é feia, sobretudo uma imagem sacra, pode parecer pouco caridoso. E, sobretudo, bastante ímpio. Isto é verdade quando aplicamos tal juízo ao tema representado. Entretanto, nada nos proíbe de considerá-la feia em razão de sua execução, do resultado final da obra ante aos nossos olhos. A Igreja, aliás, recomenda que as imagens conservem sempre uma relação, não necessariamente de beleza, mas de decoro, de conveniência, entre a peça e o assunto que a motivou. Mas nada disso se encontrava ali. A imagem era tremendamente feia, quase ridícula, enorme, e, ao mesmo tempo, desproporcionada. O São José lembrava um macaco. Nossa Senhora parecia sofrer de algum grave distúrbio nos olhos e o Menino Jesus de sérias dificuldades de locomoção.
Assombrado frente a possibilidade de que tão medonha peça pudesse vir a ser exibida num dos belíssimos altares barrocos da capela, não me contive e indaguei do zelador sobre a origem e o destino que pensava dar àquele objeto. E contou-me, então, o seguinte.
Havia certo tempo, celebrara-se, ali, um casamento e a imagem fora um presente aos noivos. Como estes partiram no mesmo dia, carregados de bagagem, alegaram não poder levar a peça na ocasião, pediram que fosse guardada na capela e que a retirariam tão logo voltassem. A questão é que, de fato, eles retornaram à cidade, mas nunca mais apareceram para resgatar a imagem. E assim ela dormitava, esquecida, fazia meses, ali. O zelador, um tanto bisonhamente, acreditava que seus donos a levariam para casa, mais dia menos dia. Da minha parte, olhando bem para ela, conclui que, involuntariamente, a capela acabara de ganhar mais uma peça para o seu acervo...
E, então, dei-me conta da terrível ironia de toda aquela situação. Um casal, no início da vida, ganha uma imagem que representa uma família num recomeço de vida. Aceita-o? Não. Dão as costas aos recém-chegados do exílio, remetendo-os a uma nova errância, desta vez, do armário para a cômoda de uma sacristia, e vice-versa. Vá lá que a peça seja tremendamente feia. Ainda, assim, acho que merecia um melhor acolhimento: não se põe porta afora quem acabou de chegar...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de Julho de 2008].

Os Pequenos Hércules mineiros

Hércules, como todos devem se lembrar, foi o mais célebre herói da mitologia greco-romana. Conhecido no mundo grego como Heracles, sua fama é milenar e seus variados feitos influenciaram outros tantos atribuídos a dezenas de outros heróis e criaturas míticas das mais diversas culturas, desde lendários guerreiros indianos, ao bem conhecido, e histórico, Alexandre, o Grande (356 a.C. – 323 a.C). Especialistas notam ecos das aventuras de Hércules nas façanhas do bretão Rei Artur. E houve mesmo quem vislumbrasse correlações entre o semi-deus helênico e certos episódios da vida de Cristo, conforme os interpretou a tradição popular ao longo de séculos. Aliás, a etimologia, grega, de seu nome se confunde com a das próprias palavras herói, semideus sagrado, santo e divino.
De Hércules, o que mais se lembra são os “doze trabalhos”, perigosíssimos, que realizou a mando de seu primo, Euristeu, rei de Micenas e de Tirinto. Mas como pouquíssima gente, de fato, recorda quais eram aqueles trabalhos, segue aqui um rápido lembrete: o herói deu um fim ao Leão da Neméia (1º. trabalho) e à Hidra de Lerna (2º. trabalho); alcançou, na corrida, a veloz corça de chifre de ouro e pés de bronze (3º. trabalho); capturou o javali de Erimanto (4º. trabalho); limpou os estábulos do rei Augias (5º. trabalho), sendo preciso desviar dois rios para isto; no lago Estínfalo, matou um bando de aves gigantescas, com cabeças e bicos de ferro (6º. trabalho); venceu um poderoso touro lançado pelo deus dos mares, Posídon, contra a ilha de Creta (7º. trabalho); castigou o cruel Diomedes (8º. trabalho), filho do deus Ares (ou Marte); venceu as lendárias guerreiras amazonas, apossando-se do cinturão mágico de sua rainha, Hipólita (9º. trabalho); matou o gigante Gerião, um monstro de três corpos, seis braços e seis asas, e tomou-lhe os bois que eram guardados por um cão de duas cabeças e por um dragão de sete frontes (10º. trabalho); colheu os pomos de ouro do Jardim das Hespérides, depois de buscá-lo por todo o mundo, enfrentar um dragão de cem cabeças e sustentar o céu nos ombros (11º. Trabalho); e, por fim, desceu ao palácio de Hades, rei dos infernos, e de lá trouxe vivo o Cérbero, feroz cão de três cabeças que vigiava a entrada daquele reino subterrâneo e sombrio (12º. Trabalho).
Exageros e alegorias à parte, que são muitas, sempre tive especial predileção por um episódio da vida daquele herói transcorrido ainda em sua infância, que conheço desde menino, contado por meu pai. Segundo a mitologia, Hércules, ainda bebê, estrangulara com as próprias mãos duas serpentes postas em seu berço por inveja, e ciúme, da deusa Hera, que o pretendia castigar por ser filho de Zeus, marido da deusa, e de uma mortal. Intrigas adulterinas à parte, para mim, tal aventura, o triunfo do menino sobre as serpes, sempre foi o máximo!
Pois bem, eis que nos últimos dias, duas notícias relativas a fatos ocorridos em Minas Gerais surpreenderam-me por seus relevos, pode-se dizer, mitológicos.
No dia 22 de julho, um menino de 11 anos, morador de Sabará, livrou-se de um ataque de um cão, da infame raça dos pit bulls, atracando-se com a fera e a repelindo graças às mordidas que aquele inocente desferiu no corpo da besta. Como se ensina, ou se ensinava, nas redações do jornais, um cão mordendo um homem não é notícia, mas um homem mordendo um cão merece uma primeira página.Quando se trata, então, de uma criança a realizar tal proeza, contra um animal de nome Titã, não há como não pensar senão em termos épicos!
Depois, houve o caso de um bebê de nove meses, da cidade mineira de Pedro Leopoldo, que mordeu uma cobra coral, por ela foi picado, em represália, e, ainda assim, foi capaz de sobreviver ao veneno.
Ora, convenhamos: tais episódios são ou não são mitológicos, em sua essência, aparência e repercussão? Beiram à lenda e, no entanto, são absolutamente reais. Ocorreram, de fato. Estão registrados. Onde se vê esta sorte de coisas? Onde crianças alçam-se quais novos Hércules? Onde as lendas parecem renascer a cada dia? E depois me perguntam por que eu gosto tanto de Minas Gerais...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de agosto de 2008].

Ouro Preto enlutada

Na última terça-feira, Ouro Preto foi abalada por um forte baque espiritual e sentimental: morria o Padre José Feliciano da Costa Simões, o Padre Simões, pároco da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, uma das mais antigas da cidade. Mas este episódio pouco parece ter a dizer para quem não conheceu aquele homem e aquela terra. Pois sua importância, ali, foi muito maior do que se possa imaginar, tanto para os habitantes locais quanto ao nosso país.
Mais do que um sacerdote de uma veneranda igreja, ele era um profundo conhecedor e defensor da história e do patrimônio artístico ouropretano, esta verdadeira jóia colonial que deslumbra nossos olhos até hoje.
Contava-se, por exemplo, uma história incrível a respeito dele. Dizia-se que, na década de 60, o Padre teria recuperado dezoito peças de arte sacra roubadas das igrejas históricas, por meios mais próprios de um romance detetivesco, não faltando, sequer, o uso de um disfarce: um insólito bigode postiço, capa e chapéu preto. Ria-se muito disto, mas o fato é que ele logrou seu intento.
À testa daquela paróquia havia mais de trinta anos, graças as seus esforços todas as igrejas sob sua jurisdição mantiveram-se a salvo das intervenções desastrosas, dos modismos, da demagogia, das bizarrices midiáticas que alguns chamam de renovação... E o mesmo se aplica à cidade: era um incansável crítico das reformas oportunistas, da descaracterização do ambiente, dos maus usos e abusos que nela queriam praticar.
De gênio forte, não era uma unanimidade local, pelo contrário: era tão admirado quanto detestado, mas mesmo quem o detestava o respeitava. Era, naturalmente, uma autoridade. Uma referência. Dizia-se mesmo que, em Ouro Preto, sua palavra tinha mais peso que a do Arcebispo de Mariana. Brincava-se, aliás, que era D. Luciano Mendes (1930-2006) quem beijava a mão do Padre Simões, e não o contrário. De fato, inúmeras historias corriam ao seu respeito.
De minha parte flagrei dois curiosíssimos feitos seus, ocorridos em diferentes missas, e, justamente, durante os sermões. No primeiro, ao reconhecer alguns viajantes franceses assistindo à cerimônia, proferiu todo o resto de sua prédica alternando entre aquele idioma, falado com fluência por ele, e nossa língua. Noutro, assisti a uma longa, barroca, refinada e graciosa digressão sua, numa sonolenta missa matutina, justificando, então, um gesto seu durante a consagração. Disse ele que, antes que o censurassem pela ligeira alteração de seu gestual, como uma tentativa de “inventar uma moda” ou “chamar a atenção”, se daquela maneira procedia era devido a uma pequena dor nas costas. Para logo em seguida relembrar as diferentes formas como muitos outros prelados locais erguiam o cálice na celebração. Brilhante! Quase hilário. E, no entanto, solene.
Era, de fato, um homem barroco: culto, corajoso, igualmente moderno e tradicional, quando tais qualidades eram necessárias. E, claro, um tanto quanto teatral. Foi-o até em seu último cortejo. Seu corpo foi conduzido pelas ruas da cidade pelo mesmo trajeto percorrido, há quase três séculos, pela procissão do Triunfo Eucarístico, talvez a maior cerimônia barroca ocorrida no Brasil. Em seu último cortejo, recebeu todas as pompas que lhe eram devidas e que seriam gratas ao seu temperamento: as janelas e sacadas cobertas por panos roxos e negros, o triste dobrar dos sinos de todas as igrejas, moças vestidas de anjos acompanhando seu corpo, Dragões da Inconfidência servindo-lhe de escolta. Até a natureza homenageou-o: a neblina encobriu a cidade, na véspera; a chuva caiu durante o dia todo, cessando apenas na hora da saída de sua fúnebre procissão. Se o céu local chorou por ele, estancou suas lágrimas, para não embaraçar a última cerimônia do Padre Simões.
Mas minhas palavras não dão conta para descrever o homem em toda a sua estatura. Assim, farei uso de algumas palavras suas que, creio, revelam seu vulto. Numa missa de uma Semana Santa de muitos anos atrás, ele argumentou, gravemente, que todos os homens são pecadores. Ele mesmo o era, acrescentou. E, brandamente, disse: “Assim, não posso dizer que não pequem, mas que procurem não pecar”. Se isto não demonstra grandeza, humanidade e compreensão, não sei o que possa demonstrar, nem o que devemos chamar de compreensão, humanidade e grandeza.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de janeiro de 2009].

Minas Gerais, manjar da Pátria

Minas Gerais é uma região do país que, qual uma ótima e tradicional refeição, se aproveita aos bocados. Ela não se circunscreve à prática dos pratos-feitos. Nem o prazer de conhecê-la se resume ao rápido deguste de suas iguarias. E, evidentemente, a lógica dos rodízios não funciona nas Alterosas. Conhecer as Minas é saboreá-las aos poucos, sem pressa, sem gula – por mais que sintamos vontade de abocanhá-las de uma só vez, tal sedutora ao nosso paladar elas nos parecem.
Sua doçura, apreciada por quem vem de fora, é bastante conhecida. Seu calor, sentido, apreciado por quem nela nasce, e por quem a conhece, confirma-se como uma inequívoca sensação. Sua acidez, notada em seus comentários quanto aos desmandos do mundo, do Mundo, da Pátria e toda a terra e gente, ainda que apetitosa ao paladar, talvez seja um pouco ingrata aos estômagos mais acomodados às branduras de uma refeição convencional. Assim como o forte apimentado com que são temperadas as conversas locais. Todavia, estes últimos condimentos somente são deitados no repasto, público, quotidiano, que a boa gente da terra compartilha ente si. Ou com o qual recepciona um pequeno grupo de gourmets apreciadores de tais experiências. Afinal, os manjares são para poucos: não são da mesma natureza que as comilanças grotescas que se deitam garganta abaixo dos pantagruéis de turno: o mais reles mexidão, a mais tosca ermida, são capazes de saber mais ao paladar que a mais opulenta macarronada, que a mais macarrônica catedral no estilo gótico-bizantino...
Mas, aproveitando estas metáforas gastronômicas, as Minas Gerais, às vezes, são capazes de nos trazerem um certo gosto amargo à boca. Não falo dos dissabores que sentimos diante de tais ou quais mazelas sociais que vemos nos noticiários: estas são verificáveis em todos rincões do país. Nem do amargor que sentimos frente a determinadas situações políticas, ou diante de certos nomes que ocupam posições de escol independentemente de quaisquer atributos mínimos que os habilitassem para tal. No imenso pote de fel em que é cozida a realidade nacional, a bílis-amarela, — que empesteia nossas instituições — não é produzida somente entre as margens do Rio Doce e do Rio Grande, pelo contrário.
Um sabor um pouco azedo, muitas vezes, também é sentido ao se provar certos gostos que a terra dos Inconfidentes acha que, por bem, deveria oferecer ao resto do país. Qual picles excessivamente curtidos, ou pimentas excepcionalmente fortes, ambos, quais cunhas metidas em nossas bocas, quais cardos enfiados em nossos narizes, ofendem nossas sensibilidades, afetam nosso paladar, olfato, visão, tato e audição. Pois a contrário do que diz o vulgo, a perda de um sentido, causado por outro, não implica a valorização dos demais, e, sim, o colapso do sistema. Como dizia um amigo meu: “peça um acarajé ‘bem quente’ — duvido que pense em qualquer outra dor, ou sensação no corpo, enquanto durar o efeito do mesmo. E, no final, vai até sentir saudades de outros pratos bem apimentados”...Pode ser que isto funcione para alguns, mas, creio, quem tem língua, teme aqueles quem querem feri-la, amortecê-la, silenciá-la.
Como dizíamos, Minas Gerais é um manjar da Pátria. Dá a ela mais prazeres sensoriais do que toma. E é sempre constante no gosto do público. O que não quer dizer que seu paladar tenha de ser insosso, pelo contrário. Nem, por outro lado, demasiadamente apimentado, ou amargo, ou ácido. Seu sabor pode ser apreciável por todos, sem que se carregue as mãos nos condimentos. Em todo caso, considero muito melhor o cheiro do pão-de-queijo do sul de Minas, conquanto um pouco rançoso, do que o da rude, inculta e áspera mortadela da Moóca.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de janeiro de 2009].

Entre a salvação e a ruína

Atendendo ao pedido de alguns amigos e leitores que não puderam ler um artigo que publiquei no jornal Folha de S. Paulo, na coluna Tendências/Debates de 27 de março passado [2009], transcrevo-o abaixo:

“NOS MEUS dias de estudante em Mariana, MG, um amigo me dizia, em tom de brincadeira e crítica, que aquela era a única cidade que ele conhecera onde o patrimônio histórico não só era "tombado, como também escorado". O objeto de seu comentário era um antigo sobrado que agonizava em plena praça Cláudio Manoel, defronte à Sé de Mariana, durante anos mal sustentado por escoras de madeira, numa eterna iminência de queda.
Hoje, o prédio encontra-se restaurado, mas vários outros não tiveram a mesma sorte: foram ao chão, por descuido de seus proprietários e dos poderes públicos. E tal se deu na rua Direita, um dos "cartões-postais" da cidade.
Se isso foi possível na turística primeira capital de Minas Gerais, com suas imponentes igrejas, da Sé, de São Francisco, de São Pedro dos Clérigos e de Nossa Senhora do Carmo – cujo interior, riquíssimo, foi praticamente todo devorado pelo fogo, em 1999-, imagine o que poderia ocorrer em distritos afastados da sede do município.
Pois não é preciso mais imaginar: já está acontecendo, em Santa Rita Durão, distante pouco mais de 20 km de Mariana. Berço do poeta árcade – autor do épico "Caramuru" – cujo nome, em 1895, substituiria o de Inficionado, denominação primeira do lugar, esse distrito marianense possui dois preciosos templos do século dezoito que estão se desfazendo ante os olhos da população. A matriz de Nossa Senhora de Nazaré, cuja construção teve início em 1729 e que foi tombada em 1945, passa por uma restauração que já completou o décimo aniversário sem que melhora alguma possa ser vista.
As infiltrações de água danificam suas paredes, o entablamento, o piso e, principalmente, a pintura do forro, de João Batista de Figueiredo, datada de 1778 e que se encontra quase completamente destruída. Além disso, a falta de vigilância permitiu que parte de sua decoração de talha fosse arrancada dali. E dizem que nem sequer o foi na calada da noite... Já a capela de Nossa Senhora do Rosário, uma joia do rococó, igualmente tombada em 1945 e que tem excelentes pinturas nos forros da capela-mor e da nave – estas, pelo menos, restauradas em 2000 –, apresenta um avançado estágio de deterioração estrutural. Suas paredes de taipa pendem para o lado e nelas se observam grandes e profundas rachaduras. Tal inclinação permitiu que o reboco, em muitas partes externas, ruísse de seus suportes e provocou o deslocamento dos retábulos colaterais.
A situação ainda é mais grave quando se recorda que num deles, o colateral esquerdo, existe uma obra atribuída a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que está seriamente ameaçada. Ou seja, nem o Aleijadinho está a salvo em Santa Rita Durão, Mariana. Ao descaso dos órgãos públicos, que não investigam tais fatos ou não tomam as medidas cabíveis para saná-los, soma-se o pouco caso dos interesses privados. Em visita recente (janeiro de 2009), fomos informados pelos moradores que, em razão da queda de uma ponte em março de 2008, os caminhões das mineradoras que exploram a região têm desviado seus trajetos costumeiros e acabam por passar perto da capela, comprometendo ainda mais suas fundações.
Como se vê, trata-se menos de um caso de esquecimento e mais de verdadeira omissão. Que se compreende, mas não se justifica, pelo fato de o distrito não se situar nas rotas turísticas principais, por ser distante da sede e pelo número pouco elevado de habitantes – ou por serem eles pouco influentes do ponto de vista político. Por outro lado, são várias e bem conhecidas as autoridades que poderiam dar um basta a essa vexaminosa situação: a Arquidiocese de Mariana, proprietária dos prédios, o governo municipal, o estadual e o federal, quer diretamente, quer por meio de seus institutos de preservação do patrimônio ou de incentivo ao turismo.
A iniciativa privada também deveria fazer algo por eles, seja pelo seu potencial de atração de visitantes, seja como marketing social – moeda tão apreciada hoje em dia por entidades que, muitas vezes, parecem sofrer de uma consciência um pouco pesada. Em tempos de tão cantada e decantada crise econômica, pedir recursos para a proteção do patrimônio deve soar a alguns ouvidos como um verdadeiro absurdo. Mas relíquias do nosso passado, diferentemente de lucros e investimentos, não podem ser refeitas a cada novo ano fiscal. São obras únicas e insubstituíveis.
Registramos aqui a denúncia e cobramos céleres providências por parte dos responsáveis. É salvarmos os templos ou incluí-los numa outra modalidade turística ou arqueológica: a visitação e o estudo das ruínas do século XVIII mineiro.”

Foi este o texto que naquele jornal publiquei. Espero que achem interessante.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de abril de 2009].

Uma campanha positiva

O texto da semana passada [4 de abril de 2009] foi uma reprodução de um artigo meu publicado no jornal Folha de S. Paulo em 27 de março último, na seção Tendências/Debates. Reproduzi-o a pedido de alguns amigos e leitores que, sabendo da publicação, não conseguiram lê-la a tempo.
Ele foi resultado de uma visita de campo a um distrito de Mariana, MG, realizada por mim e por colegas do curso de especialização em Cultura e Arte Barroca da Universidade Federal de Ouro Preto. Lá constatamos o iminente risco de queda de algumas igrejas históricas, patrimônios artísticos nacionais ameaçados de ruína. Indignados, tomamos as providências possíveis: escrevemos uma carta denunciando os fatos e a enviamos às autoridades competentes.
O barulho que criamos rendeu bons frutos. A Folha de S. Paulo se interessou pelo caso, concedeu espaço para o meu artigo, e ainda fez uma longa matéria, publicada em 6 de abril, tratando do descaso dedicado a alguns velhos templos mineiros, matéria a qual, remotamente, assessorei. E tanto o artigo quanto a reportagem tornaram mais evidente ao público aquela situação, repercutindo favoravelmente pela causa. Soube, aliás, por uma amiga que mora em S. Paulo, que a tevê interna do metrô exibia, nos vagões, a todo momento, uma chamada sobre a situação e remetendo à matéria do jornal.
É claro que este é só um trecho do caminho a ser percorrido. Muito mais há que ser feito. Mas, pelo menos, demos o primeiro passo.
O escandaloso em toda esta situação a respeito do patrimônio é que o seu abandono só se agrava. Em meu artigo, alertei para o fato de que os templos em questão encontravam-se em ruínas iminentes porque, também, distantes do centro da cidade, da turística Mariana. Pois é, para minha surpresa, eis que na semana seguinte surge a notícia de que a Igreja de São Francisco de Assis, no coração daquela cidade e um dos seus principais cartões-postais, foi interditada, sob risco de desabar! É inacreditável. E, o mais absurdo é que, segundo a reportagem, tal medida foi levada a cabo depois de vários meses, pelo fato das autoridades e funcionários do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), “não encontrarem os responsáveis pela administração do prédio”. Ora vejam! Dizia um amigo meu que, na sua opinião, todos os ficais do IPHAN ou eram cegos ou doentes dos olhos: tudo se passava na frente deles que, aparentemente, nada viam. Deveríamos, então, acrescentar que, além de cegos, são também surdos: bastaria perguntar a qualquer transeunte da cidade que aquele, prontamente, daria a resposta, quando não acompanharia o fiscal até a própria casa de um dos responsáveis. Agora fica fácil entender porque o patrimônio histórico nacional sofre tanto. Quem deveria vigiar, não vigia corretamente.
Nossa parte, ao menos, estamos fazendo. E o leitor deveria, também, se manifestar sempre que diante de um fato desses. Ou fazemos o que nos cabe, ou num futuro bem próximo não teremos nem sombra do nosso passado. Corremos o risco de que as próximas gerações pensem que nosso país foi construído anteontem...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de abril de 2009].

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Trabalho sem fim

Depois da metade de um dia de pesquisa na Biblioteca dos Bispos de Mariana, num ambiente escuro, cercado por raridades, julguei que merecia uma pequena pausa. Deixei o prédio e fui esticar as pernas, num banco da praça fronteira.
Por sorte, àquela hora da tarde, a temperatura abrandara um pouco, o sol se escondera atrás das nuvens e um vento bastante ameno passara a soprar. E vi que a ideia de aproveitar aquele ambiente sombreado não fora só minha. Por toda a praça viam-se pessoas, refesteladas, nos bancos. Chamaram minha atenção três senhoras, em pontos distantes uns dos outros, com vassouras apoiadas nos encostos de madeira. Eram, evidentemente, varredoras de rua, que aproveitavam um breve descanso.
O tempo foi passando e aquela ligeira pausa se seguia, aparentemente sem fim. Até que todas, ao mesmo tempo, se levantaram, varreram algumas folhas – poucas, e nada do lixo que as circundava – e recolheram-nas com uma pá. Poucas folhas foram para uma lixeira, já transbordante e, claro, a maior parte delas voltou para o chão. As mulheres pareceram não se importar. Tanto que voltaram, logo em seguida, placidamente, aos seus bancos. Novo descanso.
Não fiquei ali para ver por quanto tempo mais repetiriam aquela rotina. Afinal, tinha meus afazeres. De volta à biblioteca, entre a consulta de um livro e outro, eu aproveitava para dar uma espiada pela janela. E a toda vez as via sentadas, mas agora mais próximas, e conversando.
Perto do fim da tarde, finalmente atingiram o canto da praça mais próximo do prédio onde me encontrava. Não precisava mais acompanhá-las com o canto dos olhos. Agora, o ruído da varrição me informaria de seu ritmo de trabalho. E os ouvidos confirmaram aquilo que tinha visto. Varriam muito pouco e, logo em seguida, paravam. E conversavam, conversavam, conversavam...
Para mim, já bastava daquilo. Atirei-me aos livros, e me esqueci delas, de seu trabalho duplamente leve, fingido e um tanto inútil.
Ao fim do dia, saí e passei por elas. A praça continuava coberta de folhas e de um pouco de lixo, em idêntica forma a que a vira horas antes. Mas, naquele instante, um vento súbito, razoavelmente forte, soprou por entre as árvores, desfolhando-as com rigor. O calçamento, então, cobriu-se quase completamente. E ouvi de uma das varredoras, que contemplava a mesma cena e seus resultados, a seguinte frase, lançada às outras:
– Que coisa! Todo um dia de trabalho perdido...
Um dia de trabalho perdido! Pensei na tarefa inútil e sem fim que é varrer folhas. Inútil e infinito porque elas sempre, e sempre, continuarão a cair. Mas dia após dia, lá estão as mulheres, que são pagas para isto, a varrer e a fingir que varrem, ignorando o lixo, enchendo transbordantes cestos que devolvem ao calçamento as folhas que deveriam conter. Pensei, mais brandamente, que talvez fosse pelas varredoras saberem da inutilidade daquele trabalho, que as levava a simular algum esforço. Pode ser. Em todo caso, ainda que finjam por conhecerem aquela faina infinita, tal fingimento não desvia um palmo de um fato inquestionável: há algo, naquela atividade constante e sem frutos, de vagamente infernal...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 03 de outubro de 2009.]

Nenhum idílio resiste a um escrutínio

Passei uma semana na Pousada do Caraça, local que abrigou, outrora, um importante internato para rapazes, e que foi uma importante referência histórica e cultural não só para Minas Gerais, como para todo o país.
Movi-me até lá por dever de ofício: recolher informações para o meu trabalho sobre livros antigos que trazem estampas que possam ter influenciado a pintura mineira colonial. E ainda que não seja um apaixonado pela dita exuberância natural de qualquer paisagem – prefiro uma capela, ainda que em ruínas, à mais celebrada das cachoeiras, e restos de arruamentos a qualquer mata – ainda assim não pude deixar de reconhecer uma certa beleza intrínseca, e pitoresca, que se observa por todo o parque.
Isolado entre morros, imerso numa ampla reserva natural particular, ali se encontram plantas e animais que em poucas partes se vê. Confesso que tive ciência de algumas espécies, pela primeira vez, ali. O lobo guará, símbolo do parque, do colégio e da pousada, e que quase todas as noites apresenta-se aos olhos dos visitantes, em pleno adro da capela de Nossa Senhora dos Homens, foi só um deles que vi, mal contados três ou quatro passos de mim.
Tudo é muito lindo, tudo é muito maravilhoso, e, como algumas placas dispostas ao redor nos fazem questão de recordar, “estamos no Paraíso”. Pode ser. Porque, como acreditamos, no Paraíso terrestre, nalgum lugar entre o rio Tigre e o Eufrates, existia uma serpente. Já a versão mineira do Éden, entre o córrego do Caraça e seus afluentes, não conta exclusivamente com uma áspide, mas, sim, com toda uma legião, ou melhor, uma multidão delas: jararacas e urutus, quase que a nos lembrar, minuto a minuto, que elas são as donas do local, e não nós, pacatos humanos, por vezes cristãos...
Ali soube também, graças a um grupo de herpetólogos — estudiosos de cobras, sapos, rãs, e outros répteis — que o parque tem uma altíssima concentração de serpentes. Informação que pode ser muito interessante aos pesquisadores, mas que, para mim, vale mais do que um alerta para que me ponha longe delas.
Outra coisa que parece passar despercebida nestes “santuários naturais” é a constante violência da natureza: o idílio se desmancha a olhos vistos. Assim, observamos, a toda hora, pacíficas aves atacando ninhos de outras pacíficas aves, e o mesmo se dá com mamíferos, insetos, répteis, anfíbios, etc. E o cheiro final desta comilança mútua não é dos melhores. Afinal, mortandade alguma pode cheirar bem.
E como ela pode ser vista nestes refúgios! Serpentes se devorando, japús atacando tizius, fugindo de jacus e saracuras, temendo as razzias de gaviões. Esquilos fartando-se de insetos, insetos nos incomodando, e sapos, e lagartos, etc., etc., etc.
Nos esquecidos livros que leio, pesquiso, fotografo, não raro os encontro meio que roídos de bichos. E seus odores, por vezes, não são dos melhores. Todavia eles têm mais vida, e menos morte, do que, digamos, dezesseis metros quadrados de natureza, a céu aberto, embalados pela brisa, e não metidos, como os outros, em prateleiras.
De modo que, me desculpem, mas prefiro os pacíficos livros à voracidade da dita natureza. Antes um Paraíso ideal do que um natural. O primeiro pode até não existir, o que nos dá esperanças de que, talvez, exista, mas numa outra parte do mundo, da galáxia, do universo, sabemos lá onde. Quanto ao segundo Paraíso, como assim o chamam, ou o veem alguns, certamente ele não existe. E quem duvide, que assista aos curiosíssimos espetáculos que a natureza a toda hora nos prodigaliza, os repastos de todos alimentando-se de todos, o odor de putrefação que se exala de todas as matas.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de setembro de 2009.]

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Bela Senhora do Deserto

A cidade de Santana do Deserto, em Minas Gerais, nada tem de deserto e pouco tem de cidade. Ela localiza-se no chuvoso vale do Paraíba mineiro, foi grande produtora de café no século XIX e hoje vive da criação de gado e do turismo rural. Ouvi dizer que tem alguns belos casarões de fazenda e uma igreja matriz antiga. Mas ela e seus menos de quatro mil moradores mal estão no mapa. Mineiros, diz a tradição, estão em toda parte. Mas não tenho notícias de ninguém que tenha se avistado com um morador de lá, ainda que transplantado. Eu, pessoalmente, não conheço ninguém de lá. Ou melhor, conheço sim. Aliás, trata-se de sua moradora mais importante: ninguém menos do que a imagem de Nossa Senhora Santana do Deserto, a padroeira do lugar.
Quis o destino que eu a visse sendo restaurada no consistório da matriz do Pilar em Ouro Preto em julho passado. Pelas hábeis mãos de duas amigas restauradoras, a velha e feia pintura foi retirada, as antigas e belas cores vieram à luz e os seus douramentos, poucos, foram reavivados. Tudo para a festa da padroeira, no dia 26 de julho. Mas não só para aquele único dia. A imagem, antes de voltar para o trono do altar mor, percorreria, como é tradição por lá, todos os bairros rurais do município, acompanhada de círios, orações, banda de música e comemorações. Só então voltaria ao seu lugar de direito, na data exata da celebração.
E com que expectativa a aguardavam! Segundo me contaram, dia sim, dia não, alguém da paróquia telefonava para Ouro Preto, para saber do andamento do restauro. O próprio pároco, em duas ocasiões, se abalara até ali, com o fim de apressar os trabalhos e resgatar a padroeira. Mas como tal não era obra que se faz de maneira açodada, teve que engolir seus sacerdotais brios de dono da imagem, e voltar de mãos abanando.
Ainda que seja muito má educação criticar a aparência de uma senhora, e muito pior ainda de uma dama tão ilustre, devo dizer que a Santana do Deserto não é propriamente uma bela imagem. Seu executor não foi muito hábil. Os traços são demasiado rudes, os ângulos e as arestas muito agudos. Em suma, de uma maneira geral, não louvaríamos suas qualidades estéticas.
Por outro lado, se a intenção do artista anônimo era acentuar as dores e os sofrimentos de uma mulher idosa, a tarefa foi realizada com muito acerto. Parecemos ver a mãe de Maria, do alto de seus muitos anos, ensinando as Escrituras à Filha que, atenta, se prepara para sua dolorosa vida. Dor, contenção, mistério e graça, inegavelmente, irradiam das duas Senhoras, de uma já tão velha, de outra ainda uma criança. Desde o nascimento humilde, a perseguição aos primogênitos e a fuga para o Egito, toda a Paixão do Senhor já parece prefigurada em seus rostos, em seus olhos, em seus gestos.
Em suma, é bela, porque é sofrida. É elegante porque é sábia. É grandiosa porque é humilde. É um paradoxo porque é verdadeira.
Desculpe, Senhora Santana do Deserto, por não ter percebido, de imediato, sua beleza tão rara. Mil desculpas.

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de agosto de 2009]

domingo, 26 de julho de 2009

Festival ou funeral?

O Festival de Inverno de Ouro Preto foi, por décadas, um dos eventos culturais de maior importância no país. Para ele vinham artistas e público das mais diversas partes do Brasil e do exterior. Algumas apresentações, peças e oficinas tornaram-se lendárias, e o número de inscritos para muitas atividades superava em muito o de vagas. Este quadro durou, seguramente, até alguns poucos anos atrás, quando a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que cuidava do festival, desentendeu-se sabe lá com quem e montou um outro evento em Diamantina. De lá para cá, a decadência mostrou-se visível, ainda que não acentuada. E, neste ano, a situação revelou-se traumática. Poucos espetáculos, muitos artistas desconhecidos, oficinas entre passáveis e sofríveis e um sensível esvaziamento de espectadores e participantes.
O motivo, alegado, para a edição deste ano ter sido muito abaixo de passável, foi, segundo os organizadores, a crise mundial. Poucas empresas teriam encampado o patrocínio e dado menos dinheiro que o esperado. Vá lá que isto seja verdade. Todavia nada justifica o fato de que a programação completa somente foi divulgada no exato primeiro dia do festival. Assim, nem quem quisesse vir poderia estar por aqui. Faltou-se apenas culpar a gripe H1N1, a outra vilã da vez, pelo pouco comparecimento de público e artistas...
Está bem, não sejamos tão duros. Se faltou dinheiro, poderiam caprichar nos cuidados gerais, certo? Na valorização dos artistas regionais, etc. Pois é, isto também não ocorreu.
O som era péssimo, a ponto dos próprios técnicos queixarem, bem como da acústica do local e do palco. Em suma, ou tinha-se barulho, ou uma chiadeira miserável. Num espetáculo de dança, por sinal, o som foi interrompido durante toda uma cena!
Os sanitários químicos eram insuficientes, mesmo com a reduzida audiência – e neste ponto, até que foi bom: não quero nem imaginar o resultado de uma multidão tendo a seu dispor apenas doze cabines.
Quanto aos artistas locais e regionais, que são muitos, não tiveram o destaque que mereciam. Nem mesmo quando eram as estrelas da noite. Ou apresentavam-se longe do palco principal, em horários inexequíveis, ou tinham ordem de deixar o palco logo depois do espetáculo, sem bisar uma vez sequer. E, à meia-noite, pouco mais ou pouco menos, encerrava-se completamente o espetáculo, quando, pela tradição, o evento estendia-se madrugada a fora.
Os únicos pontos positivos a serem destacados foram três. Em primeiro lugar, a mudança do palco principal, da combalida Praça Tiradentes para a nova Praça da UFOP, junto ao centro de convenções, no Pilar. Uma boa medida para preservar os monumentos do centro da invasão de uma massa saltitante, gritante e dançante. O segundo ponto foi a ótima apresentação daquele estupendo grupo teatral que é o Galpão, adaptando de maneira circense a história de Till Eulenspiegel, uma mistura de Pedro Malasartes e Macunaíma alemão. Ótimos, como sempre, e brindando a cidade com uma encenação que recém estreou em Belo Horizonte. E, por fim, a apresentação daquele jovem mestre do violão que é Yamandú Costa. Perfeito, simpático, brilhante.
No mais, foi tudo muito fraco e triste. O ácido bom humor ouropretano sequer poupou, em represália, o nome do festival. Era comum ouvir as pessoas perguntarem umas às outras o que estavam achando do “Funeral de Inverno”.
Esperemos que fique só na blague, pois o Festival, quando bem feito, é ótimo. Mas o clima geral era de melancolia. Fim de festa. Quase velório. O que é uma pena...

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de julho de 2009]

Gringos

Há alguns dias, um antigo professor meu, que se tornou um grande amigo, convidou-me a acompanhá-lo numa visita a algumas igrejas de Ouro Preto. Ele estava recebendo um grupo de universitários norte-americanos em visita ao Brasil, estudantes de português que quiseram testar seus conhecimentos da nossa língua in loco. E, ao mesmo tempo, conhecer um pouco do país. O grupo era capitaneado pelo professor deles, que organizara a viagem segundo um método bastante incomum para nós. Geralmente, nestes casos, os alunos são hospedados num único lugar, pousada, hotel ou albergue, e sua interação com os habitantes locais acaba bastante reduzida. Talvez prevendo tal possibilidade, o que ele propôs era algo diferente: dividiu-os em duplas e cada uma delas deveria se hospedar numa república estudantil diferente. E, mais do que isto, deveria atuar de alguma maneira na cidade. Como, nestes dias, está ocorrendo o Festival de Inverno, não foi difícil arrumarem algo para fazer, e se inscreveram como monitores nalgumas das atividades propostas pela organização do festival. Resumindo: a redoma que geralmente é posta sobre os estudantes em viagem, isolando-os do resto do mundo, foi estilhaçada. Vê-se, portanto, o quão arrojada foi a aposta.
Naquela tarde de caminhadas e visitas, o professor norte-americano confidenciou-nos que sua boa intenção não se cobrira dos êxitos que imaginara. Se, por um lado, a fluência em nossa língua melhorara, e o contato com a população local tornara-se efetivo, a familiaridade com a mesma, digamos, assim, tornara-se excessiva: alguns namoricos começaram a surgir, as bebedeiras noturnas ficaram a cada dia mais comuns, e o cronograma das atividades se ressentia disto: não se galga uma ladeira com facilidade e rapidez quando o corpo padece dos excessos de uma noitada. E a atenção e a concentração vão para o espaço. Em suma, o tiro não saiu pela culatra, mas a expulsão do cartucho feriu o atirador...
Sua principal queixa era ante ao fato de que o que deveria ser uma viagem de estudos estava se convertendo numa espécie de Spring Break Vacation (“férias de primavera”, em tradução livre), aquela semana ou duas em que os estudantes norte-americanos vão ao México ou ao Caribe atrás de festas, noitadas, bebidas, drogas e sexo, como muitos filmes mostram. O mesmo que nossos estudantes secundaristas fazem em Porto Seguro, BA, na “semana do saco cheio”. Ou melhor, são os nossos que os copiam, com os mesmos resultados. Mas com uma grande diferença. Lá, são universitários, maiores de idade, livres para fazerem o que bem entendem. Aqui, secundaristas e menores de idade, deixados livres por seus pais, mas não pela lei, que, todavia, nada faz para coibir excessos. E, depois, os norte-americanos é que são hipócritas...
Voltando ao grupo em visita, chamaram-me a atenção dois fatos. Em primeiro lugar, a extrema variedade étnica e cultural dos seus componentes. Dos quatorze rapazes e moças, somente dois eram gringos legítimos. Os demais eram negros, mulatos, hispânicos, ítalo-americanos. E havia até mesmo um rapaz de marcadas características árabes, além de um pouco de sotaque. Em suma, o registro de uma diversidade que raramente vemos por aqui, em nossas universidades. E eles é que são racistas!
Em segundo lugar, impressionou-me o aspecto quase infantil de todos eles. Havia momentos em que pensava estar lidando com meninos e meninas do primeiro ou segundo ano do ensino médio: o mesmo olhar meio perdido, o mesmo ar preguiçoso, o mesmo desinteresse por tudo, ou quase tudo, que não sejam eles próprios. E aquela crassa ignorância de todas as coisas que não surgiram no mundo junto com sua geração, ou pouco depois.
Neste ponto, até que fiquei animado. Nossos universitários, se não são mais maduros, pelo menos procuram ser. Ou fingem muito bem. Afetam mais conhecimentos, elaboram discursos mais articulados, povoam de jargões os seus diálogos. E fazem poses meditativas, sérias, inquiridoras. Por isso, poderíamos até dizer que, na aparência pelo menos, os nossos se saem melhor que os deles.
Portanto, devemos comemorar! Pelo menos nesta matéria tão pequena, podemos ver os Estados Unidos se curvar ao Brasil...

[Esta crônica foi originalmente publicada no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de julho de 2009]

A Biblioteca de Alphonsus

Quem visita a confortável casa do poeta Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), o Pobre Alphonsus, em Mariana, percorrendo suas salas e quartos transformados em museu, observando os móveis, os adornos, imaginando como fora a sua vida e a da família, muitas vezes não percebe uma preciosidade, meio oculta, em meio às antiqualhas quotidianas, ainda que de um passado nem tão remoto. Entre os muitos cômodos daquele solar, existe uma antiga alcova, que encerra, aos olhos dos mortais comuns, a biblioteca do autor de Ismália. Ali estão as fontes, mais do que a da vida, do Parnaso e dos botequins dos quais ele bebeu.
Soube, por gente confiável, que sua biblioteca encontra-se inteiramente catalogada. Quanto ao acesso ao público, não conheço suas regras. Em todo caso, acredito que ela deva se tornar mais conhecida, pois, certamente, o estudo daquele acervo daria ótimos frutos a todos os interessados na vida e na obra do poeta. É claro que tal empreita rodeia-se de alguns problemas. Acervos familiares, geralmente, são desbaratados. Neste caso, as dificuldades se agravam em razão da vasta prole que teve o poeta: vai um livro para um filho, outro para uma filha, um se perde na mudança, outro emprestou-se ninguém sabe a quem. Muitas vezes, uma leitura passageira imortaliza-se numa estante. Noutras, a referência capital de uma vida desaparece sem deixar rastro. Entretanto, há uma grande possibilidade de que muitas leituras que inspiraram Alphonsus ainda estejam por ali.
Assim, pergunto-me, por que não cotejarmos os livros, os anos em que vieram ao prelo, frente à produção coetânea do poeta? O que, por exemplo, ele teria lido, ou supostamente lido, à época da publicação do Setenário das Dores de Nossa Senhora, Câmara ardente ou Dona mística? Quais livros se juntaram ao seu acervo antes que Kyriale e Mendigos fossem publicados? Em suma, o que lia Alphonsus enquanto produzia sua obra?
Tais questões, à primeira vista, parecem um preciosismo. Um luxo para pesquisadores desocupados, locatários da torre ebúrnea onde vivem os poetas. Todavia elas são, de fato, a chave para a compreensão de todo o pensar e fazer poéticos de Alphonsus. Pois assim como um pintor retrata aquilo que vê (pelos olhos de outros seus confrades e nem tanto pelo que observa a olho nu), que um músico compõe a partir do que escuta ( mais dos mestres e de seus contemporâneos, menos do ramerrão das ruas), um homem de letras escreve, justamente, a partir delas próprias, daquilo que lê. Assim foi e assim sempre será. As ásperas paisagens cantadas por Cláudio Manoel da Costa, eram as da Arcádia, mítica e literária: um registro poético universal, não um relatório topográfico local. E as musas de Gonzaga – antes de Marília, contam-se outras – eram muito mais um tema, do que uma verdade, plena e plana: um recurso da poesia, não um retrato de uma senhorinha local. E o mesmo se aplica a quem se queira, de Homero a Basílio da Gama, de Virgílio a Santa Rita Durão, de Ovídio a Silva Alvarenga, de Catulo a Alvarenga Peixoto, dentre muitos outros, em tempos e países para além das Minas dos setecentos.
Conhecer a biblioteca de Alphonsus é conhecer Alphonsus e sua obra. E, portanto, espero que alguma alma curiosa esteja se ocupando daquele importante acervo. Em todo caso, não custa sugerir. Fica, aqui, assim, este manifesto de ouro: que venham outros, com suas ferramentas referencias e teóricas, extrair o que se encontra oculto entre as prateleiras de uma velha casa marianense. O povo anseia pelos resultados.

[Esta crônica foi originalmente publicada nos jornais A Notícia, de Leme, SP, em 11 de julho de 2009, e O Inconfidente, de Ouro Preto, MG, em 25 de julho de 2009 (www.oinconfidente.com.br/website/Text.aspx?id=443), edição online]