Passei uma semana na Pousada do Caraça, local que abrigou, outrora, um importante internato para rapazes, e que foi uma importante referência histórica e cultural não só para Minas Gerais, como para todo o país.
Movi-me até lá por dever de ofício: recolher informações para o meu trabalho sobre livros antigos que trazem estampas que possam ter influenciado a pintura mineira colonial. E ainda que não seja um apaixonado pela dita exuberância natural de qualquer paisagem – prefiro uma capela, ainda que em ruínas, à mais celebrada das cachoeiras, e restos de arruamentos a qualquer mata – ainda assim não pude deixar de reconhecer uma certa beleza intrínseca, e pitoresca, que se observa por todo o parque.
Isolado entre morros, imerso numa ampla reserva natural particular, ali se encontram plantas e animais que em poucas partes se vê. Confesso que tive ciência de algumas espécies, pela primeira vez, ali. O lobo guará, símbolo do parque, do colégio e da pousada, e que quase todas as noites apresenta-se aos olhos dos visitantes, em pleno adro da capela de Nossa Senhora dos Homens, foi só um deles que vi, mal contados três ou quatro passos de mim.
Tudo é muito lindo, tudo é muito maravilhoso, e, como algumas placas dispostas ao redor nos fazem questão de recordar, “estamos no Paraíso”. Pode ser. Porque, como acreditamos, no Paraíso terrestre, nalgum lugar entre o rio Tigre e o Eufrates, existia uma serpente. Já a versão mineira do Éden, entre o córrego do Caraça e seus afluentes, não conta exclusivamente com uma áspide, mas, sim, com toda uma legião, ou melhor, uma multidão delas: jararacas e urutus, quase que a nos lembrar, minuto a minuto, que elas são as donas do local, e não nós, pacatos humanos, por vezes cristãos...
Ali soube também, graças a um grupo de herpetólogos — estudiosos de cobras, sapos, rãs, e outros répteis — que o parque tem uma altíssima concentração de serpentes. Informação que pode ser muito interessante aos pesquisadores, mas que, para mim, vale mais do que um alerta para que me ponha longe delas.
Outra coisa que parece passar despercebida nestes “santuários naturais” é a constante violência da natureza: o idílio se desmancha a olhos vistos. Assim, observamos, a toda hora, pacíficas aves atacando ninhos de outras pacíficas aves, e o mesmo se dá com mamíferos, insetos, répteis, anfíbios, etc. E o cheiro final desta comilança mútua não é dos melhores. Afinal, mortandade alguma pode cheirar bem.
E como ela pode ser vista nestes refúgios! Serpentes se devorando, japús atacando tizius, fugindo de jacus e saracuras, temendo as razzias de gaviões. Esquilos fartando-se de insetos, insetos nos incomodando, e sapos, e lagartos, etc., etc., etc.
Nos esquecidos livros que leio, pesquiso, fotografo, não raro os encontro meio que roídos de bichos. E seus odores, por vezes, não são dos melhores. Todavia eles têm mais vida, e menos morte, do que, digamos, dezesseis metros quadrados de natureza, a céu aberto, embalados pela brisa, e não metidos, como os outros, em prateleiras.
De modo que, me desculpem, mas prefiro os pacíficos livros à voracidade da dita natureza. Antes um Paraíso ideal do que um natural. O primeiro pode até não existir, o que nos dá esperanças de que, talvez, exista, mas numa outra parte do mundo, da galáxia, do universo, sabemos lá onde. Quanto ao segundo Paraíso, como assim o chamam, ou o veem alguns, certamente ele não existe. E quem duvide, que assista aos curiosíssimos espetáculos que a natureza a toda hora nos prodigaliza, os repastos de todos alimentando-se de todos, o odor de putrefação que se exala de todas as matas.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de setembro de 2009.]
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