quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Quem é o selvagem, afinal?

Na última quinta-feira fui encontrar uns amigos mineiros em São Paulo. Estavam ali num trabalho de reconhecimento de alguns museus paulistanos: uma turma de Museologia e os professores, um deles de História, que é um grande amigo. Fomos à Pinacoteca – sempre irrepreensível – e ao Museu da Língua Portuguesa – do qual cada vez mais gosto menos.
No começo da noite, foi sugerida uma visita ao Instituto Itaú Cultural – isto mesmo, o nome segue esta ordem. Aliás, o Instituto vai por minha conta: na placa na rua, no site e nas publicações consta apenas Itaú Cultural, com este jeitão de instituição gringa. Fomos até lá: era a inauguração de uma mostra fotográfica, com obras pertencentes à Maison Européenne de La Photographie: mais um destes eventos homenageando o Ano da França no Brasil.
Confesso que só estive uma vez no tal Itaú Cultural, e logo bati em retirada. O espaço é grande, quatro andares, ligados por escadas não propriamente suaves, e somente um banheiro, do tamanho de um desses de bar. Lembrei-me a todo momento do ex-prefeito Jânio Quadros que dizia que São Paulo, no entendimento de muitos, era uma cidade habitada por anjos: nela não se construíam sanitários públicos (a mesma crítica, aliás, vale para o Museu da Língua Portuguesa, mas isto é outra história).
Voltando ao tema, a exposição em tela chamava-se A Invenção de um Mundo e, segundo o texto de divulgação, suas obras “questionam o conceito de realidade e ficção no registro fotográfico e abrem um painel de discussão do estágio atual da fotografia. São trabalhos assinados por artistas que, à revelia do registro do que existe, escolheram a construção de cenas, de personagens para inaugurar outros mundos. A fotografia como documento cede lugar a narrativas subjetivas. Ela não mais é um registro do real. Ela cria realidades e, ao fazê-lo, resvala em teatro, cinema, pintura”. E prossegue afirmando que essa nova fotografia, “por vezes denominada pós-moderna, que transgride os códigos tradicionais da imagem, se apodera das novas tecnologias e reinventa tudo aquilo que são lembranças, sonhos e desejos”.
Mas, resumindo a história, tudo não passa de uma série de colagens, fotografias de maquetes e brinquedos, montagens, brincadeiras de Photoshop, e coisas do gênero, que também poderia ser chamada de O Ontem, Hoje, O Hoje, Ontem, Zero mais Infinito, Sombra e Luz, Eros Enjaulado, Antigos olhares: Novas abordagens – em suma, qualquer nome que se quisesse dar, porque nada é muito claro na coisa toda, que se propõe como nova.
Muitas, aliás, nem tão novas assim: contei várias obras de 1978, 1979, ou por aí. Outras tantas, aproveitando-se de antigas imagens pornográficas francesas, cartões postais de mulheres nuas que se vendiam aos marinheiros e aos turistas libertinos no século XIX e início do XX. O que é também problemático: se a vanguarda do século XXI bebe tão sofregamente das fontes da retaguarda do século anterior, alguma coisa vai mal...
Outro aspecto curioso da mostra foi a extrema hostilidade – verdadeira misoginia – no tratamento das imagens das mulheres. Sobre um pretenso registro sensual, havia toda uma coleção de beldades (ao lado de verdadeiras monstruosidades) nuas ou seminuas em posições degradantes, simulando como se estivessem mortas ou feridas de morte, deformadas, ou ridicularizadas. Já a representação masculina, primava por jovens esbeltos, ou musculosos, em cenários floridos, bem iluminados... Não tenha nada contra os gostos pessoais de quem quer que seja. Se o artista prefere uns a outras, isto é lá problema dele. Mas quando ele transfere suas preferências para a arte, e aparentemente, apenas suas preferência, eu não só posso como devo discordar. Arte não é um mero catálogo das inclinações particulares.
O registro mais curioso, no entanto, se deu por um acontecimento fortuito. Entre o público que compareceu à exposição, encontravam-se dois índios, acompanhados por seus anfitriões brancos. E quando digo índios, quero dizer isto mesmo. Estavam vestidos, evidentemente. Mas seus adornos faciais e corporais, seus cortes de cabelo, davam-lhes o ar de terem recém-chegado da aldeia onde vivem.
No que diz respeito à reação deles às obras expostas, não pude perceber muito. Os rostos indígenas são, muitas vezes, imperscrutáveis, enigmáticos: seus códigos para a manifestação de gosto ou desgosto não raro são opostos aos nossos. Mas num deles notei um inequívoco olhar de reprovação a certas obras, sobretudo àquelas de temática violenta e degradante. Via-se claramente que ele não gostava do que fora feito às mulheres das fotografias.
A conclusão a que cheguei, e as ilações que fiz, é certo, já pairavam no ar. A associação entre França, índios e costumes, faz pensar imediatamente no célebre ensaio Dos Canibais, de Michel de Montaigne (1533-1592), no qual este pensador, comparando certas práticas dos tupinambás (se a memória não me trai), mostra-as como até superiores às de seus compatriotas, chegando mesmo a dizer que na guerra eles se portavam de maneira mais digna do que a soldadesca que infernizava a vida dos franceses durante as guerras de religião (entre católicos e protestantes).
E quase quinhentos anos depois, eis que suas palavras se confirmavam no simples olhar desgostoso daquele índio em São Paulo, diante da fotografia pós-moderna francesa. Preso ainda aos seus elegantes grafismos geométricos, aos requintados arranjos plumários, aos seus inocentes e belos animais entalhados na madeira das matas, nosso índio certamente só poderia deplorar aquela violência e gratuidade: civilizados resultados dos gostos corrompidos, como diria Montaigne.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de outubro de 2009].

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