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sábado, 21 de outubro de 2023

Reflexão num dia de chuva

[TEXTO PUBLICADO EM 15 DE JANEIRO DE 2011].
A infindável temporada de chuvas que assolam grande parte do Sudeste brasileiro faz do guarda-chuva quase que uma peça obrigatória do vestuário masculino e, observa-se, a cada dia, do feminino também. Parece, de fato, que as mulheres se cansaram das sombrinhas que, na verdade, convenhamos, aliviam muito mais do sol forte do que das águas que caem do céu, quer por sua pequena área de proteção, quer pelo material de que são feitas. Aliás, guarda-chuvas e sombrinhas não são irmãos, nem formam um casal. O primeiro é uma adaptação dos guarda-sóis que já existiam na Suméria, no Egito, nas antigas Grécia e Roma, passando pelos pálios, reais e pontifícios, até mais ou menos desembocarem naqueles utilizadas pelos artistas paisagistas, quando pintavam junto à natureza, como retratados pelo satirista inglês James Gillray (1756-1815), e que constam de um auto-retrato do genial Francisco de Goya (1746-1828) e noutro, discreto, de Arnaud (ou Armand) Julien Pallière (1784-1862) numa vista de Vila Rica. Foi, portanto, a partir do século XIX, com o triunfo da Revelução Industrial, com a indiscutível supremacia britânica na produção de bens de consumo e na sua divulgação, que o guarda-chuva, com esta específica função, ganha o mundo. Tanto que diversos historiadores contam como os escravos brasileiros, por exemplo, tão logo obtida suas alforrias, compravam um par de sapatos – eram proibidos de usá-los, na condição servil – e um guarda-chuvas, como provas de sua cidadania. Por outro lado, há uma certa ironia quanto a influência britânica na coisa toda: os brasileiros cunharam o nome da peça através do francês, parapluie (literalmente, “parachuva”) ; em inglês, sempre foi chamado umbrella (“sombrinha”). Já, justamente, a sombrinha, que é reintroduzida na Europa no século XVIII pelo gosto das chinesices, alastra-se no XIX pelo japonismo (como antes estiveram apaixonados pelos objetos chineses, os europeus, desta vez, passaram a preferir os japoneses). Mas o fato é que a sombrinha sempre foi muito mais decorativa, coquette, do que uma eficaz proteção contra a chuva.Poucos objetos são mais prosaicos do que um guarda chuva. Não conheço uma pessoa sequer que não tenha usado um alguma vez na vida. Por outro lado, creio que pouca gente reflete o quão sofisticada é a estrutura do mesmo. As partes que armam o tecido protetor equivalem-se às tesouras dos telhados, e as superam porque são móveis, flexíveis e de uma leveza absoluta. Sempre que me deparo com as imagens daquelas grandes construções de ferro fundido do século XIX e princípio do XX, quer seja a Torre Eiffel ou a Estação da Luz, o Viaduto Santa Efigênia ou o desaparecido Palácio de Cristal, erguido em Londres nos tempos da Rainha Vitória, nunca deixo de refletir se não eram elas herdeiras, indiretas, da estrutura dos guarda chuvas, e cada vez mais me inclino à conclusão de que eram, sim, ao menos aparentadas umas e outras.Um reles, mísero guarda chuvas, conserva semelhanças também com uma arma. Alguns são praticamente acionados por uma espécie de gatilho. Todos possuem travas de segurança e, dependendo de suas dimensões, podem servir de eficientes porretes. Além disso, têm uma ponteira que, bem utilizada, é capaz até de machucar. E, por seu formato, guarda chuvas podem ser esgrimidos não tanto como uma espada ou florete, mas como um estoque: as bengalas que possuíam em seu interior uma fina e comprida lâmina, que delas poderia ser desembainhada e utilizada num confronto. Aliás, fabricaram-se muitos guarda chuvas que eram também estoques. E outros capazes mesmo de disparar de um a dois tiros graças a um processo semelhante de embutimento. Num caso, a haste servia de bainha. No outro, de alma do cano, sendo o gatilho e o percussor instalados no punho, no gancho da peça. Um exemplar do primeiro deles pode ser visto no filme Os Vingadores (The Avengers, EUA, 1998) bem como na série televisiva que a precedeu (Ing., 1968-1969). Já do segundo pode-se que eram relativamente comuns nos acervos de provas da polícia civil brasileira. Depois da caça contra as armas no Brasil, acredito que muitas delas foram destruídas. Mas no Museu da Polícia de São Paulo, sei que existe pelo menos um remanescente. De minha parte, confesso, já utilizei diversas vezes um bom e vigoroso guarda chuva como arma de defesa. Quer fosse espantando uns grandes e rabugentos cães com os quais me deparava em certas madrugadas ouropretanas, quer enfrentando outros, com ares de raivosos, em pleno sol marianense. Trespassei, com a ponteira, mais de uma aranha venenosa, e pude espantar pelo menos meia dúzia de tipos suspeitos. Uma das seqüências que mais admiro na história do cinema encontra-se no filme Indiana Jones e a última cruzada (EUA, 1989). Ela tem início com o ataque de um avião contra os protagonistas que leva o personagem Henry Jones Sênior, ou I, (o pai do protagonista, papel desempenhado magistralmente por Sean Connery), numa praia que julgo ser da Dalmácia, eis que saca de seu guarda-chuva, tal qual fosse uma espada, preso à sua mala, abrindo-o e avançando contra um grupo de gaivotas. Desorientadas, as aves voam em direção da aeoronave a ponto de derrubá-la, livrando os heróis da morte. Enquanto caminha pela praia o velho herói justifica seus atos baseando-se numa súbita recordação de uma frase atribuída ao Imperador Carlos Magno (c. 742-814): “Que meus exércitos sejam as rochas, as árvores e as aves do céu”. Como disse, atribuída a Carlos Magno, pois não se tem notícia exata de sua autoria. Nem de seu vínculo àquele monarca. Mas tudo isto não importa. A cena é bela e mostra como a erudição, aliada até a uma coisa reles como um guarda-chuva, é capaz de insondáveis prodígios. Em suma, não desdenhemos destes objetos aparentemente tão comuns. E cada vez mais freges, estes vindos da China. Sua engenharia, no fundo, é notável. Sua utilidade, óbvia. E, pelo jeito que o tempo tem mudado neste país, cada vez mais tornam-se eles indispensáveis. Viva o bisonho guarda-chuva

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Contra o calor

Assim como há quem prefira o azul ao vermelho, o queijo minas ao queijo prato, e as listras aos xadrezes, há também aqueles que preferem o frio ao calor. E, dentre os últimos, inscrevo-me na turma da frente dos primeiros desde que me conheço por gente: mil vezes uma fresca aragem correndo por sobre a pele do que um bafo quente castigando o couro; e um milhão de vezes dormir debaixo de cobertas que seminu, implorando por uma brisa que sopre da janela quando nem o ventilador de teto da conta. Ar-condicionado, evidentemente, é muito bom. Mas há sempre o desconforto criado quando deixamos um ambiente sob sua graciosa mercê e enfrentamos o mundo real. Portanto, o ideal é um clima ameno. E, acredito, em vista da onda de calor que vimos atravessando, tenho certeza de que o número de correligionários em prol do frio, ou seus admiradores, há de aumentar.
O calor é muito bom para flanarmos à beira-mar, sobretudo à tarde, quando o vento sopra das águas. Mas vá se enfrentar um apartamento de praia – muitas vezes cheio de gente, ou distante da praia, ou ainda próximo, frente à rebentação: o ar fresco chega até a sala, alguns quartos, mas, no resto, sua-se feito um operário de altos-fornos.
Tente-se trabalhar usando um vestuário decente durante os dias de maior calor. O que é que nos espera? Terror, estupor e quase desespero. È o que se reserva ao advogado ao pensar em sua audiência no Fórum, ao representante comercial ante um primeiro contato com um novo cliente. No curso de minhas pesquisas, debruçado em antigos livros, vestido de guarda-pó (para livrar-me de poeiras centenárias), calçando luvas (para que a química de meu corpo não contaminasse o papel), e não raro máscara (para que a umidade de meu hálito também não influísse sobre a frágil estrutura de antigos documento), e, portanto, assim enfatiotado, quantas vezes, metido em arquivos que mais pareciam fornos, não tive ainda que lidar com a transpiração de minha testa, uma ameaça gritante àqueles frágeis papéis de outrora? E como se espera que trabalhemos bem desde que submetido a tal suplício?
O tempo quente, para muitas pessoas, aliás, sempre foi invocado como um inimigo feroz das atividades intelectuais. Vá lá que egípcios, gregos e mesmo romanos, cujo legado cultural não tem par, viveram, de maneira geral, em terras quentes. Tudo bem: eles estavam inventando o mundo, criando tudo praticamente do nada. Seus grandes avanços eclodiriam naquele ambiente, de farta troca de idéias quase de maneira natural, mas será que o mesmo se aplica aos seus coetâneos e quase conterrâneos? Quando penso naqueles todos hebreus vagando quarenta anos pelo deserto, subnutridos e de coco queimado pelo sol, sinto certas dúvidas quanto à propriedade de algumas de suas sentenças...
Ainda no campo histórico, é um fato que os bárbaros – o nome deles diz tudo – que assolaram Roma viessem do Norte frio. Como, também, que os vários Renascimentos – quer no tempo (séculos XII e XIII, e XV e XVI), quer no espaço (Sul da Europa), processou-se em terras quentes. Mas, a partir daí – desta nova reinvenção do mundo – o conhecimento, as altas especulações do espírito, migraram para terras mais frescas. Onde parecem permanecer desde então. Confirmando uma hipótese que provém do filósofo grego Aristóteles, dentre outros, e que foi defendida, até recentemente, pelo poeta João Cabral de Melo Neto, brasileiro e nordestino.
Em suma, conversando entre amigos, concordamos que as únicas coisas que o calor produz são tempestades (com direito a enchentes e desabamentos), mosquitos, outros insetos e parasitas (que nos brindam com toda sorte de doenças tropicais), e um brutal desconforto (para além dos já citados, pensemos no padecimento de que é vítima o namorado antes de encontrar a moça de seus sonhos, e o dela, à espera dele, ambos temerosos por suas aparências, violadas pelas altas temperaturas).
Houve um político, do PMDB de outras eras (homem honrado, excelente profissional em sua área), e desde certo tempo ligado ao alto tucanato (homens de bem, por vezes, se equivocam: lembremos de suas biografias – desde que não as reneguem, desde que não digam “esqueçam tudo o que escrevi”) o qual intentou, e conseguiu, aprovar um teto para a inflação no Brasil, e o lavrou em nossa Carta Magna (a Criatura de Frankenstein, de 1988, como vários a ela se referem). Como isso é o mesmo que chicotear o mar para que a maré baixe, ou atirar pedras no Sol para que ele arrefeça seu calor, brinquei, por muito tempo, que votaria num candidato a cargo público que prometesse estabelecer, com força de lei, a proibição de que a temperatura no Brasil excedesse os 20ºC. Outros surgiram prometendo coisas mais estapafúrdias, postas até em prática. Mas a proposta de minha brincadeira carece de defensores...
Concluindo, não temos como nos opor ao calor infame que nos ataca nos últimos dias. Mas dá para desconfiar um bocado da civilidade, do amor aos estudos e da dedicação ao trabalho daqueles que tecem loas às altas temperaturas. O que, afinal, é esperado: quem expõe o crânio, por tempo demais, ao sol, acaba mesmo de miolo mole. É possível, perguntamos, concordar com gente assim? Defender suas idéias? Convenhamos...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de janeiro de 2011]

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

As Chuvas, outra vez

Numa crônica (De volta à colônia, de 5/5/2007) publicada neste mesmo espaço, referi-me, em linhas gerais, à perpétua repetição de certos eventos dignos de comentários que, dada a sua regularidade, dir-se-ia serem mesmo sazonais. Ou seja, o que pensei na hora, mas que então não pus em letra de forma, como se diz, foi que parecia haver, de fato, uma espécie de estação do ano para que ocorressem tais episódios; ou, ainda, que mesmo que livres de uma tal regra, visto que todos os anos ocorria algo do gênero, tratar de tais temas era tão obrigatório, e esperado, quanto escrever a crônica do Natal, do Fim do Ano, etc.
Lembro-me que, no texto em questão, disse o seguinte:

“Acredito mesmo que, num prazo muito curto, ainda veremos as notícias de homicídios ocorridos no Brasil ao lado daquelas que tratam de atentados no Iraque, de descarrilamentos de trens no Paquistão, de vítimas de terremotos na Turquia ou de erupções vulcânicas na Guatemala. Ou seja, fenômenos tão comuns — senão sazonais — e tão previsíveis nos países do Terceiro Mundo que não são mais, sequer, notícias, mas, sim, mera estatística para os países centrais”.



O mesmo, aliás, vale dizer, como o disse (Um novo pistoleiro americano, 21/4/2007), quanto à ação de atiradores malucos nos Estados Unidos, que, por sinal, bem recentemente teve uma reprise:

“[...]a verdade é que “massacres” perpetrados por atiradores solitários nos Estados Unidos são, no fundo, tão comuns quanto morticínios no Oriente Médio, tiroteios no Rio de Janeiro, etc”..


Já no ano seguinte (Desastre anunciado, 6/12/2008), tratei das enchentes que assolaram algumas cidades de Santa Catarina e Espírito Santo em virtude não só das condições climáticas, como, e principalmente, da incúria das autoridades públicas:

“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. [...]Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.


E há quase um ano (Mais uma vez o desastre, 20/4/2010), foi a vez de comentar o que ocorreu em Angra dos Reis e São Luís do Paraitinga, e no Rio de Janeiro e em Niterói, quando disse:

“ [...] São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país”.


Agora vejamos estes horrendos episódios ocorridos na região serrana do Rio de Janeiro.
É um fato que a quantidade de água que caiu dos céus foi bastante grande. E que, no caso de Teresópolis, a cidade mais atingida, sua topografia (o município é um funil entre altas montanhas) colaborou na produção daquele quase dilúvio – horripilante e tristíssimo, aliás, ao qual pudemos assistir no conforto de nossos lares secos e distantes do ocorrido, com direito a comovedores depoimentos de intrépidos repórteres relatando suas pontuais intervenções no resgate das vítimas (mais uma prova de que certa parte da imprensa converteu a notícia em espetáculo e produto, e para valorizá-lo, faz-se propaganda de quem o produz). Mas voltando ao caso, mesmo em Teresópolis, e também em virtude do tal aspecto que é próprio à cidade, mas sobretudo nas cidades vizinhas, o que mais uma vez se verificou é que muitas vidas e casas teriam sido poupadas se as autoridades públicas atuassem com o zelo necessário, impedindo a construção de imóveis em áreas de risco, sejam elas encostas de morros, sejam elas várzeas inundáveis. Em suma, os problemas estão lá, de antevéspera. Bastou uma chuva, anunciada, para revelá-lo da maneira mais grave.
As autoridades federais já prometeram mundos e fundos para tentar socorrer as vítimas. O que está correto. Mas discordo quando dizem que tais catástrofes devem ser sanadas pela União, estados e municípios em conjunto. Pois não é justo que incompetências estaduais e municipais onerem a Nação como um todo. Os contribuintes do Oiapoque ao Chuí não deveriam ter que pagar a fatura da falta de planejamento urbano, e fiscalização, de qualquer prefeito, ou governador, esteja ele onde estiver. Somos, e deveremos ser, sempre, solidários no desastre, mas não temos de ser eternos financiadores de suas políticas equivocadas. Ou ineptas. Acho que já passou da hora de darmos um basta a este quadro vergonhoso.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de janeiro de 2011].

sábado, 15 de janeiro de 2011

Reflexão num dia de chuva

[Texto publicado em 15 de janeiro de 2011].
A infindável temporada de chuvas que assolam grande parte do Sudeste brasileiro faz do guarda-chuva quase que uma peça obrigatória do vestuário masculino e, observa-se, a cada dia, do feminino também. Parece, de fato, que as mulheres se cansaram das sombrinhas que, na verdade, convenhamos, aliviam muito mais do sol forte do que das águas que caem do céu, quer por sua pequena área de proteção, quer pelo material de que são feitas. Aliás, guarda-chuvas e sombrinhas não são irmãos, nem formam um casal. O primeiro é uma adaptação dos guarda-sóis que já existiam na Suméria, no Egito, nas antigas Grécia e Roma, passando pelos pálios, reais e pontifícios, até mais ou menos desembocarem naqueles utilizadas pelos artistas paisagistas, quando pintavam junto à natureza, como retratados pelo satirista inglês James Gillray (1756-1815), e que constam de um auto-retrato do genial Francisco de Goya (1746-1828) e noutro, discreto, de Arnaud (ou Armand) Julien Pallière (1784-1862) numa vista de Vila Rica. Foi, portanto, a partir do século XIX, com o triunfo da Revelução Industrial, com a indiscutível supremacia britânica na produção de bens de consumo e na sua divulgação, que o guarda-chuva, com esta específica função, ganha o mundo. Tanto que diversos historiadores contam como os escravos brasileiros, por exemplo, tão logo obtida suas alforrias, compravam um par de sapatos – eram proibidos de usá-los, na condição servil – e um guarda-chuvas, como provas de sua cidadania. Por outro lado, há uma certa ironia quanto a influência britânica na coisa toda: os brasileiros cunharam o nome da peça através do francês, parapluie (literalmente, “parachuva”) ; em inglês, sempre foi chamado umbrella (“sombrinha”). Já, justamente, a sombrinha, que é reintroduzida na Europa no século XVIII pelo gosto das chinesices, alastra-se no XIX pelo japonismo (como antes estiveram apaixonados pelos objetos chineses, os europeus, desta vez, passaram a preferir os japoneses). Mas o fato é que a sombrinha sempre foi muito mais decorativa, coquette, do que uma eficaz proteção contra a chuva.Poucos objetos são mais prosaicos do que um guarda chuva. Não conheço uma pessoa sequer que não tenha usado um alguma vez na vida. Por outro lado, creio que pouca gente reflete o quão sofisticada é a estrutura do mesmo. As partes que armam o tecido protetor equivalem-se às tesouras dos telhados, e as superam porque são móveis, flexíveis e de uma leveza absoluta. Sempre que me deparo com as imagens daquelas grandes construções de ferro fundido do século XIX e princípio do XX, quer seja a Torre Eiffel ou a Estação da Luz, o Viaduto Santa Efigênia ou o desaparecido Palácio de Cristal, erguido em Londres nos tempos da Rainha Vitória, nunca deixo de refletir se não eram elas herdeiras, indiretas, da estrutura dos guarda chuvas, e cada vez mais me inclino à conclusão de que eram, sim, ao menos aparentadas umas e outras.Um reles, mísero guarda chuvas, conserva semelhanças também com uma arma. Alguns são praticamente acionados por uma espécie de gatilho. Todos possuem travas de segurança e, dependendo de suas dimensões, podem servir de eficientes porretes. Além disso, têm uma ponteira que, bem utilizada, é capaz até de machucar. E, por seu formato, guarda chuvas podem ser esgrimidos não tanto como uma espada ou florete, mas como um estoque: as bengalas que possuíam em seu interior uma fina e comprida lâmina, que delas poderia ser desembainhada e utilizada num confronto. Aliás, fabricaram-se muitos guarda chuvas que eram também estoques. E outros capazes mesmo de disparar de um a dois tiros graças a um processo semelhante de embutimento. Num caso, a haste servia de bainha. No outro, de alma do cano, sendo o gatilho e o percussor instalados no punho, no gancho da peça. Um exemplar do primeiro deles pode ser visto no filme Os Vingadores (The Avengers. EUA, 1998) bem como na série televisiva que a precedeu (Ing., 1968-1969). Já do segundo pode-se que eram relativamente comuns nos acervos de provas da polícia civil brasileira. Depois da Jihad contra as armas no Brasil, acredito que muitas delas foram destruídas. Mas no Museu da Polícia de São Paulo, sei que existe pelo menos um remanescente. De minha parte, confesso, já utilizei diversas vezes um bom e vigoroso guarda chuva como arma de defesa. Quer fosse espantando uns grandes e rabugentos cães com os quais me deparava em certas madrugadas ouropretanas, quer enfrentando outros, com ares de raivosos, em pleno sol marianense. Trespassei, com a ponteira, mais de uma aranha venenosa, e pude espantar pelo menos meia dúzia de tipos suspeitos. Uma das seqüências que mais admiro na história do cinema encontra-se no filme Indiana Jones e a última cruzada (EUA, 1989). Ela tem início com o ataque de um avião contra os protagonistas que leva o personagem Henry Jones Sênior, ou I, (o pai do protagonista, papel desempenhado por Sean Connery), numa praia que julgo ser da Dalmácia, saca seu guarda-chuva, tal qual fosse uma espada, preso à sua mala, abrindo-o e avançando contra um grupo de gaivotas. Desorientadas, as aves voam em direção da aeoronave a ponto de derrubá-la, livrando os heróis da morte. Enquanto caminha pela praia o velho herói justifica seus atos baseando-se numa súbita recordação de uma frase atribuída ao Imperador Carlos Magno (c. 742-814): “Que meus exércitos sejam as rochas, as árvores e as aves do céu”. Como disse, atribuída a Carlos Magno, pois não se tem notícia exata de sua autoria. Nem de seu vínculo àquele monarca. Mas tudo isto não importa. A cena é bela e mostra como a erudição, aliada até a uma coisa reles como um guarda-chuva, é capaz de insondáveis prodígios. Em suma, não desdenhemos destes objetos aparentemente tão comuns. E cada vez mais freges, estes vindos da China. Sua engenharia, no fundo, é notável. Sua utilidade, óbvia. E, pelo jeito que o tempo tem mudado neste país, cada vez mais tornam-se eles indispensáveis. Viva o bisonho guarda-chuva!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mais uma vez o desastre

No dia 6 de dezembro de 2008 – vejam lá quanto tempo faz – aqui neste mesmo espaço, comentei uma colossal enchente em Santa Catarina? Acaso alguém ainda se lembra do episódio, depois do que ocorreu em Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, no Haiti e no Chile? Tenho minhas dúvidas...
Pois bem, naquela crônica, cujo título era “Desastre anunciado”, disse, então:

“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. E que se furtam das responsabilidades que são só suas. Pois, caso seguíssemos suas lógicas distorcidas, seria o mesmo que culpar um sujeito, que pereceu num naufrágio, por sua própria morte, visto que não sabia nadar. Está certo: ele não sabia nadar. Vá lá, naufrágios são imprevisíveis. Mas se houvesse botes salva-vidas suficientes, coletes, ou bóias, ele se salvaria. Entretanto, não havia. E se culpa o afogado. E o capitão e o dono do navio dão de ombros. Estão vendo como a questão não se sustenta?
Um barraco não é erguido nas margens de um rio — sob o risco de ser levado na primeira cheia, por menor que seja — porque assim o seu “dono” o quis. Ele ali está porque o fiscal não fiscalizou. Porque o vereador fulano fez pressão sobre o funcionário público beltrano para que este fizesse vista grossa frente à coisa: vão alguns votos para um e uns trocados ou uma promoção para outro. E o coitado do posseiro por ali vai ficando...
Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.
É a especulação imobiliária, açambarcando os melhores terrenos de uma cidade, que empurra as pessoas sem condições para as beiras de rios, áreas de mananciais, encostas, altos de morro e por aí afora. É a especulação imobiliária que corrompe as autoridades públicas a ponto de que estas permitam loteamentos, até de alto padrão, em lugares instáveis: que se lixe a segurança e o ambiente!
Mas culpa, também, e muita, senão a principal, cabe aos nossos representantes políticos e aos empregados deles, pagos, afinal de contas, e no final das contas, lembremos, com o nosso dinheiro. São eles que fingem não ver o que salta aos olhos até mesmo de um cego. Que não escutam os argumentos lógicos que ribombam nos ouvidos inclusive dos surdos. E que respondem com discursos tão vazios e sem sentido que fariam um mudo jamais ter inveja ou desejo do poder da fala, com medo de que pudesse repetir semelhantes disparates [...]”.


Voltemos a esta semana e ao que aconteceu no Rio de Janeiro e em Niterói. Não se tratou, exatamente, do mesmíssimo caso?
São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país.
No episódio do Rio, entretanto, há severos agravantes: o eterno problema das favelas que, mesmo urbanizadas, demonstram sua permanente situação de risco. Pois na rua da favela, por onde não passa carro de polícia, também não circula ambulância, caminhão do corpo de bombeiros, guindaste nem escavadeira. Como estamos vendo, nos últimos dias...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de abril de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Quem semeia ventos...

Neste ano, chuvas torrenciais assolaram o semi-árido nordestino. Ao mesmo tempo, o comumente chuvoso Rio Grande do Sul foi afligido por uma inaudita e brutal seca. Não muito depois, o furacão Catarina — isto mesmo, furacão, pois este é o nome do fenômeno ocorrido, apesar de todas as tentativas de negá-lo enquanto tal — devastou inúmeras áreas do Sul do país. Por sua vez, Santos experimentou uma ventania de assustar e, mais recentemente, Saquarema, no Estado do Rio de Janeiro, passou algo semelhante. E agora sentimos um frio meio fora de época.
É inegável que o clima mundial tem mudado radicalmente nos últimos anos. Veja-se o calor indescritível que ocorreu na Europa no ano passado. As brutais nevascas que os norte-americanos enfrentaram no último inverno, a seca pavorosa que se abateu sobre a Austrália. Como também é inegável que o clima em geral sofre mudanças radicais de tanto em quanto tempo. Só não o sabemos mais porque os estudos de climatologia histórica são bastante recentes. Mas muitas mudanças do passado são bastante conhecidas.
Sabemos, por exemplo, das várias glaciações que acometeram a Terra, sendo que a última delas já contava com o Homem vivendo nela. Graças a uma elevação no clima, hordas e mais hordas de povos asiáticos migraram para o Ocidente. Estudos relacionam o Dilúvio bíblico a uma grande elevação do nível do Mar Negro. Sabe-se que o Egito dos faraós não era tão árido quanto hoje, e que boa parte do que atualmente é deserto já foi savana. A Roma imperial teve uma de suas vilas engolida por um lago que encheu demais, depois de chuvas anômalas.
Há relatos semelhantes durante a Idade Média de outros desaparecimentos assim. Várias cidades da Inglaterra, sobretudo na Cornualha, há muito se encontram sob o mar. Por outro lado, antigas pinturas ou gravuras mostram a tão conhecida Torre de Belém, em Lisboa, plantada em pleno Tejo, rodeada por suas águas, e não tão rente às margens como hoje vemos. No século XVII, o Rio Tamisa congelou em plena Londres, fato nunca então visto ou repetido.
Da mesma Inglaterra, diz-se que o século XIX foi inexplicavelmente chuvoso, e esta é em boa parte a imagem que até hoje temos daquele país. Grande parcela das secas que devastaram a Índia no mesmo século, que alteraram drasticamente sua economia, a vida de seu povo, a estrutura fundiária e permitiu a dominação estrangeira, é atualmente interpretada como efeito do El Niño. O mesmo fenômeno, só recentemente nomeado, teria sido responsável pelas agudíssimas secas do Nordeste brasileiro no século retrasado, que minaram a coragem dos homens livres e os lançaram quase à servidão. E a garoa de São Paulo hoje é só uma lembrança.
Em suma, mudanças climáticas são constantes, quer por “descalibragem” no eixo da Terra, quer devido às manchas solares, ou por qualquer causa de origem natural. O problema — enxergado por muitos especialistas, e não é de hoje, aliás o problema maior — é quando as alterações no clima se produzem pela excessiva interferência do Homem na Natureza. Pois é isto que estamos enfrentando.
Alguns especialistas acreditam que a poluição produzida no século XIX, época do florescimento da indústria nos países economicamente mais desenvolvidos — Inglaterra, França, Estados Unidos, Bélgica — e nalguns nichos de desenvolvimento fabril dentro de estruturas em geral mais arcaicas — norte da Itália, Catalunha, algumas cidades russas —, pois bem, alguns estudiosos avaliam que toda a poluição do ar gerada no período supera toda a que foi produzida pela Humanidade até então.
Com o surgimento do consumo de massas, o descalabro foi geral. Depois do automóvel, da popularização do ar-condicionado, das embalagens descartáveis para tudo e mais um pouco, parte do mundo tornou-se uma imensa lixeira: a outra parte pode ser limpa, mas não é menos fétida. E a tentativa de levar o mundo todo ao consumo desenfreado, principal proposta de dez entre dez governantes mundiais, sejam os poderosos dos países ricos, sejam os caciques dos miseráveis, só radicalizaria ainda mais o problema. É sabido que se o planeta inteiro consumisse nos níveis dos norte-americanos, a Terra toda se tornaria estéril em menos de cinqüenta anos.
Pois bem, agora estamos nós, pacatos brasileiros, sofrendo alterações climáticas que imaginávamos só possíveis noutros lugares. A Lei de Talião, que constitui mais da metade do arcabouço moral do brasileiro médio, sempre nos pareceu infalível: os países ricos fazem, os países ricos pagam. Nós agora estamos, também, pagando. O bom-senso não diria, então, que temos nossa parcela de culpa?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

E o vento levou...

Os Estados Unidos da América são, para muita gente, um exemplo de país onde tudo funciona, o Estado é diligente, as leis são cumpridas, o povo é ordeiro e a tecnologia é a mais desenvolvida do mundo. Os atentados terroristas daquele famoso 11 de setembro ofuscaram um pouco o brilho da tão propalada precisão e eficiência da CIA (Agência Central de Informação), mas como mais nada ocorreu em solo norte-americano desde então, a aura de superpotência infalível voltava a brilhar. Bastou todavia um furacão, para, literalmente, botar tudo isto abaixo e mais um pouco. Então, vejamos.
O norte-americano médio é fanático por meteorologia. Há dezenas de programas na televisão que tratam do assunto, os apresentadores, “homens do tempo”, são celebridades nacionais, e há mesmo um canal de teve a cabo dedicado apenas e tão somente a esta questão. A mania é tão grande que o próprio cinema não está imune a ela, e aí estão os arrasa-quarteirões Twister (1996) e O Dia depois de Amanhã (2004), para falarmos só dos grandes. Nunca é demais lembrar que n’O Mágico de Oz, clássico da literatura infantil daquele país e filme de grande sucesso, a pequena Dorothy não é levada a uma terra de fantasia por qualquer recurso mágico, mas por um ciclone...
Se o governo norte-americano gasta fortuna com o serviço de meteorologia, fica a pergunta: como é que não previram o estrago que o furacão poderia causar?
Outro aspecto curioso: vamos admitir que a meteorologia acertou em cheio quanto ao poder de destruição da coisa toda. Então, pensamos logicamente, a reação das autoridades e da população em geral seria a de tomar todas as precauções possíveis que reduzissem as conseqüências. Isto é o que se espera de um país “civilizado, de primeiro mundo”, como gostam de dizer por aí. Mas o que lemos a respeito? Que não há comida nem condições de saúde adequadas na Lousiana. Que os centros de acolhimento aos desabrigados são poucos, estão superlotados, e alguns deles não contam sequer com água, mas com cadáveres dentro e ao redor dos abrigos. E em meio a este caos, o governador daquele estado lança apelos aos quatro ventos, com perdão do trocadilho, pedindo sobretudo dinheiro, é claro. Ora, convenhamos, pode haver coisa mais de “terceiro mundo” do que esta? Um desastre natural, ocorrendo numa área onde eles são comuns e esperados, apanhando de calças-curtas a população e seu governador, que se limita a queixar e pedir recursos? Não é o que assistimos todo ano na Índia, Paquistão e boa parte do nordeste brasileiro, diante de fenômenos bem conhecidos e sempre recorrentes?
Finalmente a questão do cumprimento da lei, quer por parte de seus agentes, quer pela própria população. As notícias mais recentes dão conta de que a ação de saqueadores armados por todo o território de Nova Orleãs, aproveitando-se do saldo de destruição, é tão intensa que a própria Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA, na sigla em inglês, a Defesa Civil nacional, por assim dizer ) suspendeu completamente as operações de resgate e transferência de desabrigados. Tais grupos enfrentam abertamente os contingentes da Guarda Nacional de lá, e de maneira tão assombrosa que a própria polícia tem sido incapaz de sofrear a pilhagem e depredação. O ponto ao qual as coisa chegaram é de tal forma crítico, que levou as próprias vítimas daqueles agressores estão fazendo justiça com as próprias mãos. A tentação é forte para compararmos este quadro com que às vezes ouvimos do que se passa em certas áreas do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Todavia, é muito pior: está mais é para Bagdá durante a guerra.
E tudo isto aconteceu no Sul dos Estados Unidos, cenário de histórias fascinantes e do preconceito racial mais brutal e vergonhoso experimentado no continente americano. Talvez se deva a isso o fato de o grosso dos desabrigados mostrados pela televisão ser composto por negros, que decerto viviam mal em casas péssimas. Mas, claro, isto não interessa. As causas do infortúnio nunca têm importância para a mídia e para a política: a fanfarra que se faz depois é que deve ser mostrada.
O fato é que, quem diria, estamos vendo os Estados Unidos experimentando momentos do que é viver no terceiro mundo. Será que olharão com melhores olhos para nós? Duvido. Um vento soprado do Atlântico derrubou Nova Orleãs. Um vento gelado, vindo de Washington, soprará todas as esperanças de entendimento entre Norte e Sul para bem longe.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de setembro de 2005].

Um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza...

Não há quem possa negar que as alterações no clima, previstas desde muito tempo, se tornam, dia após dia, mais evidentes ao redor do mundo. Vimos, nesta semana, as temperaturas mais díspares afligindo diversas regiões do globo. Um calor mais do que excessivo nos EUA e na Europa (lembremos que o verão deles está só começando) e um frio tenebroso na nossa vizinha Argentina — 22 graus negativos, e neve em Buenos Aires, coisa que não se via, dizem, desde 1908, ou por aí.
Portanto, não deixa de ser curioso o fato de que nós, brasileiros, pouco temos sofrido com isso. De fato, atravessamos um período de secas. Mas ele não é natural nesta época do ano? Por outro lado, não sentimos, por ora, o frio que sentíramos outrora. Mas isto seria um dissabor? Sou nostálgico do frio, porque gosto de roupas de lã e de um alívio ao sol embrutecedor a que estamos sujeitos na maior parte do ano. Mas quando pensamos na massa de miseráveis, que são cidadão como nós, e que padecem com as baixas temperaturas, não obstante as sempiternas “Campanhas do Agasalho”, somos levados a desejar uma temperatura mais constante, e tépida. Pois, acredito, que se danem as lãs, a elegância, as peles, se um meu irmão passa frio — irmão que não o tenho, natural; tenho-o em Cristo, e como cidadão, e que, portanto, me basta. Mas frio, frio mesmo, ainda não tivemos neste ano, nem nos últimos, nem, praticamente, nesta década.
Se esse nosso quinhão pátrio, a República Federativa do Brasil, não tem sofrido as agudezas climáticas de outras plagas, nada nos autoriza a dizer que assim será por todo o sempre. É verdade que a Bacia Amazônica tem sua capacidade reduzida ano a ano, tanto por razões globais, quanto pelo desmatamento criminoso da qual é vítima, desmatamento predatório que, na grande imprensa, é tratado, ao som de fanfarras e elogios vários, como “abertura de uma nova fronteira agrícola”. Mas, ao que tudo indica, continuaremos no mesmo patamar climático: calor, calor sempre, mas não de matar; e o frio, só um pouco abaixo da medida.
Em razão disso tudo, não há como não lembrar a velha máxima de que o Brasil é “o país do futuro”, expressão esta cunhada pelo escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) — que, trágica, e ironicamente, suicidou-se, com sua mulher, justamente nestas nossas plagas. Todavia, esta antevisão de progresso é bem anterior. Os primeiros missionários que por aqui puseram os pés e difundiram suas palavras, os franciscanos, carmelitas e, principalmente, jesuítas, avaliaram os possíveis sucessos destas terras desde o princípio: grande riqueza vegetal, mineral e animal; terras férteis; povo dócil; climas variados, etc. Se depois, instalou-se um certo terror frente às nossas possibilidades, foi por outros motivos. Mas que a idéia perdurou, perdurou... Pois quem não se lembra da previsão — profecia? — de D. João Bosco (1815-1888), canonizado em 1934, como S. João Bosco, segundo a qual o planalto central brasileiro abrigaria a capital do terceiro milênio? É difícil, hoje em dia, imaginar Brasília, como a fonte de algo novo, benéfico e universal. Levando-se em conta as criaturas que, em razão de nossos votos, ali foram instaladas, é de se duvidar que seja um berço de grandes, e nobres, realizações. Se pensarmos, também, que dela emana esta nova política insensata, perniciosa, monopolista, latifundiária e excludente, a da superprodução da cana-de-açúcar para fins combustíveis — com sabor de maná oferecido pelo Anticristo —, também não podemos vislumbrar um amplo e belo horizonte.
E, em vista do exposto, somos levados a pensar se a “profecia” de D.Bosco, conquanto nos pareça absurda perante nossos olhos, não tem uma certa razão nos dias de hoje: o Brasil, cuja capital encontra-se no planalto central, será destinado a um grande sucesso. Tudo bem. Mas pelo monopólio dos combustíveis? Duvido. Passaremos para a história, acredito, não por nossas realizações, mas por nosso clima ameno, equilibrado entre os rigores do Norte e do Sul. E nada mais do que isto.
E que viva o Brasil, São D. João Bosco e o Futuro — se sobrevivermos a eles...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de julho de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Desastre anunciado

Por conta das chuvas e enchentes em Santa Catarina, recebi, em Londrina, uma enxurrada de telefonemas, com perdão do trocadilho, perguntando se estava tudo bem comigo, se a cidade fora muita afetada e coisas assim. Minha vontade era mandar que as pessoas abrissem um mapa afim de que constatassem o quão distante é o noroeste paranaense do centro-leste catarinense. Tentei argumentar que tais perguntas eram tão estapafúrdias quanto perguntar a alguém de São José do Rio Preto, depois de um vendaval em Cananéia, se a tempestade fizera muitos danos à sua cidade. Mas a ignorância geográfica paulista, que é também um portento, como tudo o mais no Estado, faz com que todo Sul do país se confunda numa coisa só, assim como todo nordestino, seja potiguar ou alagoano, pernambucano ou paraibano, é sempre “baiano” ou “cearense”. Então, fiz que não ouvi o que tive, infelizmente, de ouvir.
Mas voltando ao desastre catarinense, há que se fazer algumas considerações.
Em primeiro lugar, presto aqui toda a minha solidariedade aos flagelados pelas enchentes naquele estado. Lamento, profundamente, todas as perdas em vidas e bens materiais e, por que não, morais: pois a casa de uma família não é uma simples quantia em dinheiro convertida em tijolos e telhas. Muitíssimo mais que paredes sob um teto, ela é um sonho, um ideal, um palco de memórias, um ensaio para o futuro. Não há dinheiro no mundo que pague um álbum de fotografias levado pela enchente, o terraço onde uma bondosa avó dormitava ao sol da tarde e que foi derrubado pelas águas, ou o jardim plantado por algum parente querido já levado pela morte, o qual parecia ainda viver nalgumas roseiras, nuns manacás. Não, não há fortuna que reconstitua delicados pertences desta natureza.
Em segundo lugar, convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. E que se furtam das responsabilidades que são só suas. Pois, caso seguíssemos suas lógicas distorcidas, seria o mesmo que culpar um sujeito, que pereceu num naufrágio, por sua própria morte, visto que não sabia nadar. Está certo: ele não sabia nadar. Vá lá, naufrágios são imprevisíveis. Mas se houvesse botes salva-vidas suficientes, coletes, ou bóias, ele se salvaria. Entretanto, não havia. E se culpa o afogado. E o capitão e o dono do navio dão de ombros. Estão vendo como a questão não se sustenta?
Um barraco não é erguido nas margens de um rio — sob o risco de ser levado na primeira cheia, por menor que seja — porque assim o seu “dono” o quis. Ele ali está porque o fiscal não fiscalizou. Porque o vereador fulano fez pressão sobre o funcionário público beltrano para que este fizesse vista grossa frente à coisa: vão alguns votos para um e uns trocados ou uma promoção para outro. E o coitado do posseiro por ali vai ficando...
Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.
É a especulação imobiliária, açambarcando os melhores terrenos de uma cidade, que empurra as pessoas sem condições para as beiras de rios, áreas de mananciais, encostas, altos de morro e por aí afora. É a especulação imobiliária que corrompe as autoridades públicas a ponto de que estas permitam loteamentos, até de alto padrão, em lugares instáveis: que se lixe a segurança e o ambiente!
Mas culpa, também, e muita, senão a principal, cabe aos nossos representantes políticos e aos empregados deles, pagos, afinal de contas, e no final das contas, lembremos, com o nosso dinheiro. São eles que fingem não ver o que salta aos olhos até mesmo de um cego. Que não escutam os argumentos lógicos que ribombam nos ouvidos inclusive dos surdos. E que respondem com discursos tão vazios e sem sentido que fariam um mudo jamais ter inveja ou desejo do poder da fala, com medo de que pudesse repetir semelhantes disparates.
Quando vejo milhares de pessoas desabrigadas e centenas de mortos pela inércia, corrupção, leniência ou má-vontade de certos administradores e de seus confrades políticos, chego a pensar mesmo na possibilidade de que seja revisto, e ampliado, o conceito de crimes contra a humanidade”. Sim, porque estamos falando de milhares de cidadãos deslocados de suas casas e de centenas de cadáveres, seja pelas enchentes de Santa Catarina e Espírito Santo, mais recentes, seja pelas secas que, recentemente, avançaram até mesmo sobre a Amazônia. É de se pensar se, diante do temor de se enfrentar um Tribunal de Haia, estes traidores de seu povo ou, no mínimo, omissos, mudariam suas condutas. Porque o Inferno, garanto, eles não temem, já que os traidores, segundo Dante, residirão nas terras infernais mais profundas, junto a Judas e ao próprio Satã. E os omissos, são severamente criticados por Tiago (Tg. 4: 17). Se nem as penas do Hades lhes causam medo, então, Haia neles!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de fevereiro de 2008].

Motocontínuo

O motocontínuo (moto-contínuo na antiga ortografia) é uma máquina de movimento perpétuo, auto-alimentada, ou que necessitaria de uma única ação, desencadeada por um fator externo, para colocar-se em eterno, contínuo movimento (daí o nome). Ainda que tenha sido um grande sonho acalentado na Antiguidade, Idade Média, Renascimento e mesmo depois, são construções hipotéticas e, acredita-se, impossíveis, pois feririam a primeira e a segunda lei da termodinâmica e, parece, a Lei Áurea da Mecânica – esta é a única de que me lembro, a que diz que nenhuma máquina pode realizar trabalho maior do que aquele recebido. Em todo caso, o motocontínuo foi uma obsessão que consumiu muito tempo dos estudiosos, dentre eles o célebre Leonardo da Vinci (1452-1519). No Brasil, era comum, como se pode ler nos jornais do século XIX, gente que se aplicava a tentar criar a sua máquina partindo daqueles preceitos. E ainda hoje, vez ou outra, escuto falar de algum tipo excêntrico, em lugares ermos de nosso país, disposto a criá-la.
Impossível na física, o motocontínuo parece estar por trás de certas notícias que vemos através da grande imprensa.
Creio que foi no ano passado – mas isto pouco importa – que escrevi neste espaço, escrevi sobre algumas notícias que se repetem com uma frequência sazonal, como as cheias do Sul e as secas do Nordeste. Disse que pouco importa ter escrito no último ano ou no anterior porque a sucessão, a repetição dos mesmos fatos – ainda que chocantes – tornou-se quase banal.
O primeiro exemplo que citei foi o das enchentes em São Paulo. Entra ano, sai ano, mudam-se os governantes e suas inclinações políticas, e o panorama é sempre o mesmo: a cidade imersa em caos e lama, qual na canção da Nação Zumbi. Foi assim com Maluf, Pitta, D. Marta, com o Chirico, “o Breve”, e agora com Kassab. E podemos recuar tal fenômeno para muito, mas muito antes mesmo. Uma aquarela, de 1821, de Armand-Julian Pallière (1784-1862), já então mostrava os transbordamentos na Várzea do Carmo. Cerca de setenta anos depois, cabe ao pincel de Benedito Calixto (1853-1927) representar a Enchente na Várzea do Carmo (ca. 1892), quadro que se encontra no Museu do Ipiranga. O curioso é que se trata do mesmo local – as margens do Rio Tamanduateí, por onde passa a Avenida do Estado – que até hoje padece de tais caprichos, menos causados pela natureza, e mais pela omissão dos poderes públicos.
O segundo exemplo, creio, foi um massacre promovido por um aluno numa escola. Nem me lembro em que país isto ocorreu. Aliás, é bem possível que nem tenha ocorrido no ano passado: quem sabe mesmo deu-se no anterior. Pelo que me recordo, era um jovem de origem asiática que matou alguns colegas numa escola norte-americana. Mas isto, também, pouco importa. Tantos outros eventos destes ocorreram desde então que somente um colecionador destes casos, um perito em segurança escolar – profissão que, sou capaz de jurar, sequer é concebida em nosso país – ou um estudioso do assunto, seriam capazes de afirmar, com certeza, quantas vítimas envolveram e onde se deram. O mais recente, ou, pelo menos, o mais chocante, aconteceu na Alemanha. Mas não é de se duvidar que, entre o período que escrevo esta crônica e o acesso dos leitores a ela – dois ou três dias, mais ou menos – outros casos venham a público, talvez na Finlândia, Holanda, ou nos “suspeitos de sempre”, os EUA. Chora-se ali, lastima-se aqui, “especialistas” tratam do assunto exaustivamente e, quando menos se espera, a coisa se repete.
De escândalos no Legislativo Federal, sequer os citarei como exemplo. Num semestre é na Câmara, noutro, no Senado, e assim sucessivamente. Sua repetição é certa e sua periodicidade, portanto, é menos que anual. O mesmo pode ser dito quanto à Educação no Estado de São Paulo. Um descalabro, progressivo, auto-alimentado, desde que umas aves agourentas pousaram no Palácio dos Bandeirantes: sabemos de tais mazelas a cada início de ano letivo, e já lá se vão, seguramente, uns treze anos.
Como vemos, tais cadeias de eventos, para nossa tristeza, sempre ocorrem: replicam-se, ano após ano. E nelas, acabo de verificar, há também um outro fator em comum, não sei se como “fonte externa de energia”, ou se como consequência do moto-contínuo. Trata-se do “mote contínuo”, um falar desprovido de sentido, a repetição de lemas vazios, palavras de ordem ocas, justificando isto ou aquilo dos problemas e em nada os solucionando. Deixando que tudo permaneça como está, para ver como é que fica, até a próxima repetição, etc., etc., etc...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de março de 2009].

sábado, 5 de dezembro de 2009

Oklahoma,1935. Brasil, 2010?

Faz muito tempo que li o romance de John Steinbeck (1902-1968), As Vinhas da Ira (1939). Tanto tempo, aliás, a ponto de acreditar que me recordo mais de sua adaptação cinematografia – o excelente filme do mestre John Ford, de 1940, com Henry Fonda como protagonista – do que do livro em si.
Para quem não conhece a trama, ela conta a saga de uma família de agricultores do Oklahoma, EUA, que perde suas terras durante a Grande Depressão (1929-1939). Como a produção da fazenda ficara aquém do esperado, no ano anterior, o clã hipotecou as terras, e sem ter como pagá-la, foi executado. Assim, eles partem em busca de um lugar hipoteticamente melhor, na Califórnia. É claro que a história não se resume a isto. É movimentada, cheia de elementos, trata da questão da terra, da violência policial, e de uma série de outros temas interessantes, e tudo muito bem escrito. Mas a lembrança que mais se agarrou em minha memória, é a dos constantes ventos de poeira que acompanham os personagens, até eclodirem numa verdadeira tempestade de pó. Pensei, à época, que o fenômeno fosse uma certa licença poética do escritor. Ledo engano. Foi um evento real, como descobri esta semana, num programa do History Channel.
A tempestade ocorreu no dia 14 de abril de 1935, um domingo que se tornou conhecido pelos norte-americanos como o “Domingo Negro" (Black Sunday). Ventos de quase cem quilômetros por hora sopraram do Oklahoma à capital, Washington, levantando um volume de poeira que, dividido por cada habitante daquele país, corresponderia a três toneladas por pessoa. E quais foram as causas da catástrofe? O mau uso do solo.
Os especialistas, à época, já tinham conseguido identificar os motivos. O Oklahoma era um estado cujo solo era seco, ainda que coberto de pasto. Fôra, a região, por longo tempo, voltada à criação de gado, com bastante sucesso, alimentada pela rude flora local. Porém, no começo do século XX, acreditou-se, erroneamente, que se poderia plantar naquelas terras. Um programa de emissões de títulos de terras, equivocado, vendeu propriedades a milhares de famílias empobrecidas do Sul dos EUA, que às pressas, ocuparam o lugar. As pastagens foram arrasadas, os terrenos, arados – não como deveria ser para aquele tipo de solo, mas, sim, como os colonos estavam acostumados a fazer. O resultado? As terras tornaram-se inférteis, as chuvas lavaram as plantações e, depois, sobreveio uma tremenda seca. E como o estado era em grande parte desprovido de florestas, as ventanias foram se tornando cada vez piores. Até culminarem naquela do Domingo Negro. As autoridades tomaram suas providências, e o evento não mais se repetiu. Até agora. Ou, pelo menos, não lá.
Esta história me fez pensar no que o Brasil anda fazendo com o seu Cerrado, este imenso e frágil bioma que começa em São Paulo, chegando até as franjas da Amazônia, e que se tornou, pela cupidez e incompetência, um novo pólo de produção agrícola, uma nova fronteira do agronegócio. Seu desmatamento ocorre em ritmo muito maior do que o sofrido pela Floresta Amazônica em seus momentos mais críticos. Ipês, macaúbas e onças, tiveram seus espaços tomados por cana, soja e gado. E tal invasão, e destruição, não conta sequer com um motivo social para, senão abrandá-las, ao menos tolerá-las, pontualmente: ali não há o assentamento de famílias, de trabalhadores, mas de grandes grupos, mega-empresas – a exploração que não ousa dizer seu nome.
Os efeitos deste equívoco, mais do que isto, desta verdadeira má-fé, parecem que já se fazem sentir. Lembremos da tempestade de poeira que varreu Uberaba e outras cidades próximas em meados do mês passado. Não é um claro sinal de que com o Cerrado não se mexe?
Mas, no Brasil, parece que nunca aprendemos com os erros dos outros: fazemos questão de recriá-los, de repeti-los, desde que seja à nossa maneira. Erramos? Sim. Mas nosso erro... é do Brasil-sil-sil...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de novembro de 2009].

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Raios, trovões e falatório





África do Sul, Alemanha, Argentina, Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, China, Croácia, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, Estônia, Filipinas, França, Gâmbia, Holanda, Hungria, Inglaterra, Irlanda, Islândia, Itália, Líbano, Marrocos, Noruega, Polônia, Romênia, Rússia, Suécia, Suíça e Turquia. O que estas nações têm em comum? Seriam elas as participantes da Copa do Mundo de Futebol em 2010? Não, porque o número excederia o dos países que se classificarão para o evento, exatos trinta e um, e a lista acima enumera trinta e dois. Ou seria o quorum de uma importante votação numa assembléia da ONU? Não. O que fez com que ficassem lado a lado foi o recente desastre aéreo envolvendo o jato da Air France. Pertenciam às nações referidas acima as vítimas deste mais novo episódio. Isto sim é que é a globalização da morte!
E que relação! Desde o atentado às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, e da onda gigante que arrasou tantos locais banhados pelo Oceano Índico em 2004, não me lembro de algum episódio envolvendo pessoas de tão distintas origens. Claro que, nestes casos, morreram muito mais pessoas. Aliás, o tsunami nem deveria entrar aqui como comparação. Não se podem opor algumas dezenas, ou mesmo milhares, às quase duas centenas de milhares que pereceram no Índico.
Mais uma vez, solidarizo-me com os parentes e amigos das vítimas neste momento tão doloroso, etc., etc., etc... Mas, novamente, discordo quanto ao emprego do termo tragédia para este tipo de acontecimento, ainda que largamente empregado pela grande imprensa e pelos comentaristas mais afoitos e vulgares. Tragédia, para eles, parece ser apenas mais uma palavra pertencente a uma escala iniciada por acidente, seguida por desastre e catástrofe e concluída por ela, a tragédia, tornada uma espécie de superlativo de todos os males. O que não passa de uma bobagem, como não me canso se referir. Tragédias envolvem culpas a serem expiadas, transgressões que precisam ser punidas para a restauração da justiça, divina ou humana. Considerar um desastre aéreo como trágico só seria possível se, ao mesmo tempo, criticássemos nos homens seu desejo de voar e o uso de aviões, como provas de sua soberba, arrogância, como se tivessem desafiado os elementos e por tal merecessem ser punidos. O que, convenhamos, é uma grande tolice.
Um aspecto curioso a ser notado é que o interesse da população brasileira quanto ao caso já começa a diminuir. Até algumas piadas já estão circulando como aquela que se refere à tecnologia francesa não ser à prova d’água...
Porém o que mais chamou minha atenção em todo este caso foi a resistência que os peritos em aviação têm manifestado em responder uma simples pergunta: quer dizer, em suma, que se um raio atingir um avião, no meio de uma turbulência, ambos derrubam o aeronave? Por que não falam com todos os ff e rr? Medo de que embarquemos? Que fujamos de tão frágeis estruturas? Parece ser isso. Lembra aquela história, no fundo, de que os aviões e os besouros voam, é fato, mas não peçam para que a Física explique, que ela não tem respostas. E já decidi que só levarei a sério o especialista que disser, para todo mundo ouvir: voar com mau tempo é, sim, perigoso; raios e turbulências, de fato, podem derrubar um avião. Chega de meios termos, num momento destes!

[A versão original desta crônica foi publicada no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de junho de 2009.]