Por conta das chuvas e enchentes em Santa Catarina, recebi, em Londrina, uma enxurrada de telefonemas, com perdão do trocadilho, perguntando se estava tudo bem comigo, se a cidade fora muita afetada e coisas assim. Minha vontade era mandar que as pessoas abrissem um mapa afim de que constatassem o quão distante é o noroeste paranaense do centro-leste catarinense. Tentei argumentar que tais perguntas eram tão estapafúrdias quanto perguntar a alguém de São José do Rio Preto, depois de um vendaval em Cananéia, se a tempestade fizera muitos danos à sua cidade. Mas a ignorância geográfica paulista, que é também um portento, como tudo o mais no Estado, faz com que todo Sul do país se confunda numa coisa só, assim como todo nordestino, seja potiguar ou alagoano, pernambucano ou paraibano, é sempre “baiano” ou “cearense”. Então, fiz que não ouvi o que tive, infelizmente, de ouvir.
Mas voltando ao desastre catarinense, há que se fazer algumas considerações.
Em primeiro lugar, presto aqui toda a minha solidariedade aos flagelados pelas enchentes naquele estado. Lamento, profundamente, todas as perdas em vidas e bens materiais e, por que não, morais: pois a casa de uma família não é uma simples quantia em dinheiro convertida em tijolos e telhas. Muitíssimo mais que paredes sob um teto, ela é um sonho, um ideal, um palco de memórias, um ensaio para o futuro. Não há dinheiro no mundo que pague um álbum de fotografias levado pela enchente, o terraço onde uma bondosa avó dormitava ao sol da tarde e que foi derrubado pelas águas, ou o jardim plantado por algum parente querido já levado pela morte, o qual parecia ainda viver nalgumas roseiras, nuns manacás. Não, não há fortuna que reconstitua delicados pertences desta natureza.
Em segundo lugar, convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. E que se furtam das responsabilidades que são só suas. Pois, caso seguíssemos suas lógicas distorcidas, seria o mesmo que culpar um sujeito, que pereceu num naufrágio, por sua própria morte, visto que não sabia nadar. Está certo: ele não sabia nadar. Vá lá, naufrágios são imprevisíveis. Mas se houvesse botes salva-vidas suficientes, coletes, ou bóias, ele se salvaria. Entretanto, não havia. E se culpa o afogado. E o capitão e o dono do navio dão de ombros. Estão vendo como a questão não se sustenta?
Um barraco não é erguido nas margens de um rio — sob o risco de ser levado na primeira cheia, por menor que seja — porque assim o seu “dono” o quis. Ele ali está porque o fiscal não fiscalizou. Porque o vereador fulano fez pressão sobre o funcionário público beltrano para que este fizesse vista grossa frente à coisa: vão alguns votos para um e uns trocados ou uma promoção para outro. E o coitado do posseiro por ali vai ficando...
Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.
É a especulação imobiliária, açambarcando os melhores terrenos de uma cidade, que empurra as pessoas sem condições para as beiras de rios, áreas de mananciais, encostas, altos de morro e por aí afora. É a especulação imobiliária que corrompe as autoridades públicas a ponto de que estas permitam loteamentos, até de alto padrão, em lugares instáveis: que se lixe a segurança e o ambiente!
Mas culpa, também, e muita, senão a principal, cabe aos nossos representantes políticos e aos empregados deles, pagos, afinal de contas, e no final das contas, lembremos, com o nosso dinheiro. São eles que fingem não ver o que salta aos olhos até mesmo de um cego. Que não escutam os argumentos lógicos que ribombam nos ouvidos inclusive dos surdos. E que respondem com discursos tão vazios e sem sentido que fariam um mudo jamais ter inveja ou desejo do poder da fala, com medo de que pudesse repetir semelhantes disparates.
Quando vejo milhares de pessoas desabrigadas e centenas de mortos pela inércia, corrupção, leniência ou má-vontade de certos administradores e de seus confrades políticos, chego a pensar mesmo na possibilidade de que seja revisto, e ampliado, o conceito de crimes contra a humanidade”. Sim, porque estamos falando de milhares de cidadãos deslocados de suas casas e de centenas de cadáveres, seja pelas enchentes de Santa Catarina e Espírito Santo, mais recentes, seja pelas secas que, recentemente, avançaram até mesmo sobre a Amazônia. É de se pensar se, diante do temor de se enfrentar um Tribunal de Haia, estes traidores de seu povo ou, no mínimo, omissos, mudariam suas condutas. Porque o Inferno, garanto, eles não temem, já que os traidores, segundo Dante, residirão nas terras infernais mais profundas, junto a Judas e ao próprio Satã. E os omissos, são severamente criticados por Tiago (Tg. 4: 17). Se nem as penas do Hades lhes causam medo, então, Haia neles!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de fevereiro de 2008].
A vaca estradeira
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