O cenário é o mesmo da última crônica [22 de novembro de 2008]. Assim como os personagens. O episódio, entretanto, ocorreu algum tempo antes. A hora e o dia da semana, entretanto, eram rigorosamante, os mesmos: as seis da tarde de uma sexta-feira, banhada ainda num forte sol, graças ao horário de verão e à latitude de onde escrevo. Acabávamos de servirmo-nos da primeira cerveja quando vimos, dobrando a esquina, à toda velocidade, um automóvel esporte BMW, novinho em folha, não essas relíquias que se avistam por aí. Fizera ele uma curva tão aberta que chegamos até a recearmos quanto ao nosso destino: a mesa que ocupamos é bem no canto, como disse e, como mais tarde, explicou-nos o Marçal, o nosso matemático, “o vetor [o fim] daquela parábola [a curva] descrita pelo bólido [o automóvel], dada a aceleração [velocidade] e o sentido [resultante da barbeiragem], por muito pouco não cumpriu sua trajetória prevista [ou seja, nós, e em cheio]”. Muito perplexos, assistimos à cena praticamente sem um movimento. Certos ataques da teimosia masculina, que interpretamos como uma atitude corajosa, quando na verdade de trata, na maioria das vezes, de pura temeridade, ocorrem a todo momento. E, assim, lá ficamos plantados, assistindo ao que ocorria, até que o rumo do veículo se refez e, entre palavrões e imprecações dos mais terríveis lançados ao motorista, aproveitamos para dar uma boa olhada nele: um rapazola de dezenove anos, se tanto, com roupas da moda, cabelos molhados, falando ao celular e, ao mesmo tempo, com um amigo, sentado no banco do carona.
Marçal, que não tem papas na língua – e isso foi antes de sua avaliação científica do quase acidente – afirmou, para quem quisesse ouvir, o seguinte, que não transcrevo integralmente porque seu vocabulário não primou pela polidez, mas que, em linhas gerais, seria isto: o rapaz era um “enrustido”, que se fingia de mulherengo mas que, no fundo, acabava de voltar de uma “aventura íntima” compartilhada com um seu amigo e somente com ele – daí o cabelo molhado àquela hora da tarde. Os termos, como devem imaginar, não eram, absolutamente, estes. Fiquemos com a idéia, portanto.
Não descartamos tal hipótese, totalmente, mas Tonico, Zé Otávio e eu pensávamos diferente, naquele caso. Para nós, o barbeiro era mais um desses meninos mimados que, por falta de objetivos concretos, estão sempre correndo de um lugar para o outro, falando ao telefone como se fossem grandes empresários, enquanto na verdade estão tratando apenas de banalidades com amigos, namoradinhas, etc. Na opinião do Tonico, o rapaz vinha de alguma academia ou clube, daí os cabelos molhados. Inclinei-me a esta possibilidade. Mas como o Zé Otávio indagou, no que tinha toda razão, como prova cabal de que o rapaz era um desocupado: “que jovem volta de uma academia, às seis da tarde de uma sexta-feira, sendo que, sabidamente, todos os colégios, cursinhos e faculdades daqui têm aulas no período imediatamente anterior a este horário”? O Marçal, todavia, permanecia, sem arredar pé, na defesa de sua teoria. Assim, procurei desanuviar um pouco o ambiente, lançando-me a uma rápida digressão acerca desses jovens ricos que só aprendem dos pais como gastar dinheiro, cometer pequenas transgressões da lei e de forma que não sejam apanhados (a maioria é), seja como alunos, motoristas ou cidadãos (“ou presumíveis cidadãos: pois malandro não é cidadão”, atalhou o Marçal).
O Tonico lembrou, na mesma hora, da quantidade de moços filhos de pais ricos que, mal-acostumados com o dinheiro e certas comodidades excessivas que lhes foram dadas, desdenhavam estudos, carreiras, profissões, ocupações. E que, com a quebra dos negócios familiares, acabavam sem função nenhuma, quando não resvalavam para o crime. Zé Otávio era mais enfático, acrescentando que, por serem filhos de pais que repudiavam qualquer tradição – ou superestrutura, em termos marxistas – e por desconhecerem o elementar da infraestrutura – também jargão marxista, que poderia ser traduzido como, no caso, não só saber ganhar, mas também manter o dinheiro – vinham à pique tão logo herdassem o que quer que fosse. Além de, ao cabo de tudo, também não prestarem para nada: não revelavam nenhum resquício de educação formal, como tampouco de social: “novos-ricos de bolsos rotos”, concluiu.
Uma série de exemplos conhecidos por cada um de nós foi citado à mesa. Tonico, inclusive, lembrou-se do caso de um filho de um automobilista brasileiro, metido no mesmo “ofício” do pai, que chegara a ser citado num relatório norte-americano sobre a educação, como um risco que aquele país devia a todo custo evitar: um moço rico cujos pais, desdenhando os estudos, converteram-no num boçal
“Não só boçais: venais! Torram fortunas sem saber de onde elas vêm! E depois se queixam da“insensibilidade dos pais” quando ganham de presente um celular que não era exatamente o modelo que eles desejavam”, bradou o Zé Otávio.
Lembrei-me daquele filho de um imperador romano que criticou seu pai pelas altas taxas cobradas pelo uso das latrinas públicas e que, ao mesmo tempo, gastava sem dó nem piedade toda a “mesada” que recebia: e sempre pedindo mais. Respondeu o monarca: peccunia non olerant (“o dinheiro não tem cheiro”), para calar-lhe a boca. Resumindo: “você me critica como ganho o dinheiro que mantém suas farras? Comporte-se. Aí, me censure”.
“Então não é o caso dos meninos ricos, mas, sim o Ocaso, a queda”, resmungou o Marçal.E todos tivemos que concordar com ele. Ou, como concluiu o Zé Otávio, “o ocaso destas novas famílias ricas: não conseguem sequer criar um rebento que conserve o dinheiro por mais de uma geração. Lembram certos animais muito primitivos que devoram seus próprios genitores, quando estes mostram-se feridos e que são incapazes de montarem as armadilhas para garantirem seu sustento”.
“Como as piranhas?”, perguntou o Marçal, sem duplo-sentido.
“E certos tipos de cações e aranhas”, aduziu o Tonico.
Pedimos mais uma cerveja e lastimamos, em silêncio, uma juventude sem objetivos, sem princípios, sem nada...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de novembro de 2008].
A vaca estradeira
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