Dizem que o Brasil é o único país do mundo em que os marxistas vão à Igreja, os ateus freqüentam tempos de candomblé, os católicos participam de “mesas brancas”, os evangélicos jogam na loteria, os muçulmanos tomam uma cerveja de vez em quando e os judeus não resistem a uma lingüiçinha, ainda que não confessem em público. Aqui é comum ver a um materialista empedernido saltando sete ondas na praia durante a passagem do ano. Já cansei de conhecer pessoas que rejeitam os mistérios religiosos, os milagres, as legendas dos santos, considerando-os meras superstições, e que não abrem mão, todavia, de chupar sementes de romã para dar sorte, que evitam comer a carne de animais que “andem para trás”, para não dar azar, tudo isto na ceia de reveillon. E que não vêem nada de contraditório em tais práticas.
Há quem diga que é hipocrisia, farisaísmo, “servir a dois senhores” ou “ter um pé em cada canoa”. Pode ser. Em muitos casos, acho que é isto mesmo. Mas é preciso dar um desconto, também. Boa parte destes hábitos, acredito, deve-se àquilo que Gilberto Freyre e Câmara Cascudo chamavam de “a maleabilidade do brasileiro”, herança da plasticidade do colonizador luso em contato com as culturas índia e negra, resultando no que se chama, à grosso modo, de “sincretismo”. O termo é meio equivocado, mas não propriamente errado. Dá a impressão de que pegamos tais influências e fizemos uma espécie de salada de frutas de uma maneira que cada qual delas entrasse de forma igual na mistura, o que, evidentemente, não ocorreu. Por outro lado, uns e outros modificaram-se, trocaram e assimilaram experiências, em maior e em menor grau, e tornaram-se, ao fim, completamente diversos do que eram no início. Mas isto já daria outra crônica...
Ao mesmo tempo, se esta dupla crença não é hipocrisia, e sim um tanto aculturação, que não pensem os mais afoitos que seja alguma forma de “decadência”. Não se trata daquilo que se conta numa velha anedota, atribuída a um engraxate do Rio de Janeiro ali pelos anos 1964-1968, segundo a qual o homem dizia, em relação ao golpe militar: “Deixem este comunismo se instalar logo no Brasil que, rapidinho, a gente avacalha com ele”. Não, senhores, não se trata disto. Podemos ser maleáveis, às vezes até mesmo moles, mas avacalhados, apesar de todas as tentativas, do mais comum dos cidadãos até de nossos dirigentes, avacalhados, ainda não.
Penso nisto porque já vejo muita gente abjurar muitas, se não todas, de suas resoluções tomadas na passagem do ano que findou para este, mal transcorridos dez dias. Ora é um que, batendo no peito, jurou parar de fumar e que ainda está com o seu cigarrinho pendendo dos beiços. Ora é outro que jurou, “pelo amor de seus filhos”, diminuir a bebida, e que continua a esvaziar copos e copos — “afinal, estou de férias: quando tudo voltar ao normal, eu cumpro a promessa”, disse-me um deles. Sem falar em tantas outras palavras dadas que já se tornaram letra morta, tantas outras verdades que não passaram de fanfarronices ao cabo de pouco mais de uma semana.
Em vista disso, paira no ar a pergunta: são casos para se execrar? Seriam eles merecidos alvos de uma censura impiedosa? Seriam todos mentirosos? Falsos? Cínicos? Seriam fracos? Ou acomodados? Que nada! Acredito que todos — ou, pelo menos, a imensa maioria — são inteiramente sinceros. Só que, ao mesmo tempo, são afoitos. E exagerados. Além de um tanto quanto orgulhosos, porque acham que a simples vontade, invocada às pressas, de um dia para outro, será capaz de operar maravilhas que não foram possíveis de vir à luz durante trezentos e sessenta quatro dias de preparação. Ou de negação. Mas, ainda assim, creio, e os leitores certamente concordarão, que, exceto no caso dos que mentiram sem dó, nem piedade, nem vergonha, todos os outros manifestaram o que seus corações, ardentemente, desejaram. O problema é que não é possível mudar toda a vida de um minuto para o outro, numa data arbitrariamente assinalada na folhinha, cercada por festas e de justo repouso por todos os lados: uma ilha de faz-de-conta subtraída do real por uma mera convenção do calendário.
Sejamos mais humildes em nossas pretensões e mais atuantes em nossas determinações. Pois o Ano Novo não precisa se prender a cerimônias e dias específicos. Ele se celebra, na verdade, com todos os seus novos votos, quando nós, de fato, o invocamos como “o novo”, seja no Natal, seja na Páscoa, seja na data do aniversário de qualquer um: no dia que possamos vislumbrá-lo e segui-lo. E desde que não o adiemos demais, nem que deixemos que ele passe, e que nós fiquemos, estará tudo bem.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de janeiro de 2008].
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