Naquela tão conhecida peça de Shakespeare, Romeu e Julieta, na célebre cena do balcão (segundo ato, cena II), o bardo faz com que a jovem diga a seguinte frase: “Que há num simples nome? Isto que chamamos rosa, sob um outro nome, teria o mesmo doce perfume” (What's in a name? that which we call a rose / By any other name would smell as sweet). Este trecho da peça, aliás, é um dos mais populares do poeta inglês, sendo muito citada nos países de língua inglesa, de propaganda de tudo que se possa imaginar até episódio de Jornada nas Estrelas. Mas é uma bela frase e, melhor do que isto, muito precisa. Pois um nome, muitas vezes, é só um nome, já que um objeto, nomeado pela palavra que se queira, não tem suas características alteradas em detrimento do nome que o mesmo recebe.Um lobo não deixaria de ser feroz ainda que tivesse o nome de cordeiro e um cordeiro continuaria um símbolo da doçura ainda que se chamasse lobo. Isto, embora pareça óbvio, durante séculos não o foi, nem pela ótica da filosofia, nem, principalmente, pela teologia. Até o Renascimento, mas mesmo depois dele, julgou-se que o nome resumia a essência do objeto e lhe dava suas principais características. Basta pensar nos inumeráveis nomes de Deus (seja o Javé cristão, o Alá islâmico ou o Jeová dos hebreus), cada um deles O definindo e cada um deles se referindo a um aspecto de Seu poder, um Seu atributo, etc.
Deixando as plagas celestes, baixando ao nível da terra, baixando muito mesmo, vimos, no final do ano passado, o PL (Partido Liberal) unir-se ao Prona (Partido da Reconstrução da Ordem Nacional), e dessa união darem à luz uma nova agremiação que chamaram de Partido da República (PR). Considero que a escolha de tal nome foi duplamente infeliz. Em primeiro lugar, porque só tem sentido um partido republicano num país cujo regime é a monarquia, ou onde existe um partido monarquista. Caso contrário, é redundância. Ou penduricalho, como colocar “democrático” numa sigla que funciona já sob os auspícios da democracia. Em segundo lugar, porque flagrantemente se trata de uma cópia servil do Partido Republicano dos Estados Unidos da América. Dá até para imaginar a volúpia com que seus membros referem-se a si mesmos como republicanos...Devem até se imaginar companheiros de fileira de George W. Bush, herdeiros de Abraham Lincoln e Ted Roosevelt... E, no entanto, nada mais são do que os divisores do espólio do falecido senador Alvaro Valle, que manifestava-se publicamente a favor do liberalismo econômico, e do notório Enéas Carneiro,conservador assumido, estatizante e nacionalista. E ainda assim, montou-se o partido. É possível que tal antagonismo possa viver sob o mesmo teto? Que manifesto em comum podem assinar pessoas de campos tão radicalmente opostos?
Agora, nesta semana, a poucos dias do aniversário do golpe militar de 1964, eis que o PFL, Partido da Frente Liberal, que coleciona entre seus quadros inúmeros defensores, incentivadores e beneficiários do regime de exceção naquela data instaurada, também mudou de nome. E qual foi o escolhido? Democratas, assim, seco, sem ao menos um Partido dos o precedendo. Á primeira vista, parece um daqueles nomes de partidos que vemos em países como a Turquia, Romênia, Casaquistão, etc., que se intitulam coisas como “Paz e Trabalho”, “Renovação e Liderança”, “Nossa Casa”, e que não dizem absolutamente nada quanto à sua plataforma, quanto ao ideário que os guia. Mas a manobra é mais esperta. Chamado assim, ele fica tão vago na sua face pública quanto os exemplos acima citado. Mas, ao mesmo tempo, procura sugerir que seu modelo é o Partido Democrata estadunidense, noutro caso de flagrante cópia, senão pura macaquice. Fico imaginando ACM Neto (todo mundo sabe de quem ele é neto) e Rodrigo Maia (filho do prefeito do Rio de Janeiro, César Maia), batendo no peito, e se intitulando “democratas”, quais fossem pares de tantos deputados e senadores norte-americanos que se bateram pelo fim das oligarquias familiares na política e na economia, pelo fim do liberalismo sem tréguas, pela inclusão social. E também, é impossível não pensar, por analogia, em Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen, discursando suas idéias de sempre no Senado e julgando-se discípulos de Franklin Delano Roosevelt e John F. Kennedy...
Imagino, também, como fará a grande imprensa agora para se referir à agremiação sem cometer ambigüidades. Pois uma coisa é escrever, por exemplo, que “os Democratas votaram contra o governo”, outra é dizê-la: vai parecer que os outros são anti-democratas, e que aquele partido é o único defensor da democracia. Ou seja, esta foi a grande jogada do novo partido: tomar posse da própria palavra democratas. E se usurparam do jogo político uma palavra tão capital, é de se pensar o que ainda veremos neste país. Quem sabe, talvez, vejamos ainda César Maia — que, segundo a revista Piauí (edição de março de 2007), defende as milícias homicidas do Rio de Janeiro — alçado como um paladino da paz, qual o presidente democrata norte-americano Woodrow Wilson, que lutou o quanto pode para manter seu país longe da Primeira Grande Guerra e que depois de metido nela, à sua revelia, ainda assim buscou o armistício. Mas sabe-se lá o que pretende o prefeito carioca....Em relação a ele, aliás, lembro-me sempre de uma máxima mais do que clássica: “acautelai-vos dos Césares!”.
Mas nosso assunto hoje é o PFL, que está em baixa, alheio ao governo há cinco anos (um recorde histórico para o partido, cuja vinculação ao poder sempre fez dele “mais realista do que o rei”), e que talvez tenha mudado de nome como jogada de marketing —qual o cantor norte- americano Prince, que agora é chamado de ex-Prince (já que a nova alcunha adotada é impronunciável), e que, todavia, faz o mesmo tipo de música que sempre fez (o que não reverteu sua decadência, frise-se).
Em suma, mudou o nome, mas mudou a essência? Deixará de ser um partido defensor das oligarquias dos grotões, uma legenda de aluguel em certos rincões, como dizem, e um franco aliado dos grandes interesses do capital, intitulando-se liberal, mas pregando, ao mesmo tempo, o intervencionismo estatal (vide o caso de um certo banco baiano) quando lhe convém? Façamos votos que sim, ainda que me pareça que um partido que não ousa dizer a que vem, ou, parafraseando Oscar Wilde, que “não ousa dizer o seu nome”, não inspire muitas esperanças. Pois até o momento, e remetendo à citação shakesperiana do início, tudo indica que, não obstante o nome, o cheiro permanecerá o mesmo. E não acredito que seja o de rosas...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de março de 2007].
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