sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Copa de 2014 não há de dar samba....

Sempre achei detestável aquela prática de muitos políticos que consiste na inauguração de uma obra ainda antes de sua conclusão. O oposto, montar toda uma solenidade para inaugurar algo que já está em funcionamento, se, por um lado, não é tão grave quanto o exemplo precedente, não deixa, por sua vez, de ser patético, zombando dos eleitores, de todo o mundo. E o que dizer então de um homem público que participa de uma cerimônia na qual seria “revelado” algo de que o planeta inteiro já tinha ciência? Será que só ele não sabia? Em se tratando do Presidente Lula, é possível. Afinal, não sabemos que é comum ele afirmar que “nunca soube disto”, “jamais teve conhecimento daquilo”, etc, etc?
Pois é, foi num episódio desta natureza em que ele se envolveu nesta semana, ainda que uma multidão negue o fato. E os mal-intencionados também lhes fizeram coro. Sabemos muito bem o porquê. Podemos perdoar uns. Porém nunca os outros. Pois má-fé travestida de patriotismo, ou melhor, patriotada, o que tem sido verificado no caso em questão, é imperdoável.
Mas qual foi o episódio, em suma? Pois bem, eis que nosso Exmo Sr. Presidente da República abalou-se, na última terça-feira, acompanhado de um séqüito de dezenas de pessoas, para a pacífica Zurique, na Suíça. Já de antemão fica a pergunta: qual o objetivo de tão apressada visita? Seríamos levados a julgar que seria algo de muito grave, certamente. Pois o que levaria nosso Chefe de Estado, acompanhado de tantos ministros e dos governadores dos três Estados mais ricos da Federação, ao lado de outros, a deixar o país com tanta pressa?
Sabemos que os tempos não são dos melhores. O Brasil vê-se assolado por uma epidemia de dengue. A crise aérea é ainda uma realidade tangível. O governo tem dificuldade de aprovar a CPMF, sem a qual, segundo ele, nossa nação seria ingovernável. O Senado atravessa uma das piores crises de sua história. O Sr. Vice-Presidente da República encontra-se hospitalizado, e em razão da ausência do titular, eis que assume o posto de primeiro mandatário, interinamente, o Presidente da Câmara, alvo de investigações recentes. Convenhamos, é uma péssima ora para que Sua Excelência, tantos ministros e governadores deixem nossa nação. Qual seria o motivo, então de tamanho açodamento? Um golpe de Estado? A tentativa de evitá-lo, granjeando apoio externo? Um empréstimo monetário de altíssima monta, a ser ratificado pelos governadores, a maior parte deles da oposição, o que legitimaria o ato, frente ao caos que procurariam combater? Não, senhores, nada disso. Correram para a Suíça para fingir surpresa durante uma cerimônia cujo resultado já era sabido: por ausência absoluta de concorrentes, eis que o Brasil irá sediar a Copa do Mundo de 2014. Resumindo: a nação e os Estados mais ricos do país ficaram em boa parte acéfalos porque seus titulares decidiram “criar um clima” para uma resposta que já era de conhecimento de todos! Não há dúvida que a coisa toda começa mesmo muito mal.
E que séqüito foi aquele que acompanhou o Presidente Lula? Não falo dos Ministros de Estado, que por serem seus diretos prepostos, vão para onde o homem os manda. Mas que raios foi aquilo, dos governadores da oposição, alguns deles seus mais encarniçados rivais, tomarem uma carona com seu arqui-rival?! Guardadas as devidas proporções — que são imensas, e mais no sentido da desproporcionalidade entre os modelos do passado e os exemplares do presente —, meter o Presidente Lula e o governador José Serra de Chirico, juntos, num avião seria o mesmo que colocar Jango e Carlos Lacerda no mesmo vôo. Ou — numa alegoria que seria cara ao líder petista e ao prócere tucano, e consoante a muitos de seus atos e pensamentos — equivaleria a botar o líder da Gaviões da Fiel, lado a lado com o da Mancha Verde, no mesmo ônibus, acompanhados de suas claques. Impossível, portanto. Mas não aqui, não nos dias que se correm, não com os partidos que temos.
E já que falamos das cabeças da comitiva, temos que falar também das caudas. Não falo de uma específica parcela de tal caravana que, por direito, convenhamos, deveria ali estar. Romário, o mais controvertido dos craques nacionais, tem lá a sua história, e não podemos dizer que sua presença em tal cerimônia seja absurda.O mesmo quanto ao técnico da seleção brasileira, e ao presidente da CBF. Ainda que mereçam toda a sorte de críticas — levantadas pelo público, pela imprensa e pelos poderes constituídos — são, indiscutivelmente, símbolos e representantes oficiais do futebol nacional. Gostemos deles ou não. Mas o que dizer daqueles governadores que, antes de apresentar uma partida da Copa deveriam, no mínimo, exibir os índices mais elementares de desenvolvimento social em seus Estados? Sabemos que não quiseram perder uma boa boca-livre, mas o que fazem ali? Sem falar nas pencas de acompanhantes — mulheres, maridos, secretários, secretárias — que também lá desembarcaram. Acho que só ficaram faltando mesmo, em tal oba-oba patrioteiro, o Galvão Bueno, in loco, aquele corneteiro e aquele tocador de bumbo, que são pagos pelo Banco do Brasil para animar qualquer competição esportiva de que se tenha notícia. E, claro, o Ministro da Cultura, que poderia abrilhantar ainda mais a cerimônia com uma “canja” musical. Desde que não cantasse, evidentemente, o samba Pela internet, que o ministro-cantor vendeu para o Itaú, permitindo que fosse reproduzida em comerciais daquele banco por um cantor cuja voz era excessivamente parecida com a sua, atitude que recebeu uma severa reprimenda do Conselho de Ética vinculado à Presidência da República — samba, aliás, marotamente inspirado no clássico Pelo telefone, de 1917, de autoria de Donga (eu disse Donga, gigante do samba e não Dunga, um dos anões da Branca-de-Neve, nem, muito menos, o Dunga técnico da seleção, que parece, a cada dia, menos feliz, nada dengoso, pouco propenso a sonecas e espirros, com muito pouco de mestre, e mais e mais zangado).
Resumo da ópera: dificilmente veremos um belo balé de chuteiras, como dizem. É mais provável uma farsa protagonizada pelos poderes públicos que, posteriormente, em discursos dramáticos, tentará justificar a tragédia que se abaterá nas contas públicas nacionais, que serão levadas, certamente, em ritmo de samba: um samba ruim, aliás.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de novembro de 2007].

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