Circula há certo tempo uma piada envolvendo o Sr. Presidente, piada que o coloca num aeroporto perguntando a um assessor: “Diz uma coisa aí, meu filho: eu estou indo ou estou voltando?”.
Pois bem, conversando com um amigo meu um dia desses, veio à tona a idéia de que o Sr. Presidente viaja tanto que, de fato, deve mesmo se confundir vez ou outra. Pois são mais de vinte e sete viagens internacionais nestes dois anos e meio de governo. E não se trata só de Mercosul, ou Venezuela, ou Cuba, estes, a um pulinho daqui. Não, foram também terras longínquas. Ora, o Sr. Presidente foi até à Índia e à China! E em viagens diferentes, que talvez seja para mostrar que ele não é o líder de um país pobre, mas de uma potência, já que isto de engatar dois destinos distantes na mesma viagem é coisa de governante de república das bananas, e não de um líder com sua indiscutível estatura. Mas temos de concordar que deva ser muito cansativo. Estafante mesmo. Capaz de exaurir as capacidades mentais de qualquer um, até mesmo as de nosso preclaro chefe do governo. Assim, não é difícil que possa vir a dar provas de não saber em que país está.
Não quero dizer aqui que desconfio da extensão e profundidade dos conhecimentos geográficos do Sr. Presidente. Sabemos que, à diferença de alguns chefes de Estado, ele sabe, sim, e muito bem, que a capital do Brasil é Brasília, e não Buenos Aires. Mas nunca podemos nos esquecer que, no ano passado, na capital da Namíbia, Windhoek, em plena África, referiu-se à cidade como se ela não parecesse fazer parte da África. Seria mais ou menos o mesmo que o governante do México, de passagem por São Paulo, dizer ter estranhado não ver cobras, antas e hordas de índios seminus atravessando as ruas de nossa metrópole.
De modo que talvez seja mesmo para evitar a possibilidade de se confundir que o Sr. Presidente tenha comprado o novo avião, este mimo de R$ 170 milhões — quase nada, como vemos, pouco mais de 22 mil Fuscas 1.6, modelo 96 à gasolina. É verdade que nesses Fuscas poderiam ser transportados todo o Executivo e o Legislativo, mas sabemos, e o Sr. Presidente também, que Fuscas agüentam qualquer terreno, mas não podem cruzar o oceano. Logo, um avião era indispensável. Compre-se, então, um avião. Mas não pode ser qualquer um.
O Sr. Presidente, um homem viajado, não é afeito a provincianismos reles, ao chauvinismo, ao ufanismo sem crítica — tem dado contínuas provas de que é aberto ao Mundo e às suas influências. Vimos como se relacionou muito bem, desde o início, com aquele grande líder mundial, George W. Bush. Vimos também seu apreço pelos carros australianos e roupões de algodão egípcio. Vimos, recentemente, como perdoou parte da dívida externa que a Bolívia contraíra com o Brasil, e como sugeriu que nosso país importasse produtos acima do preço de mercado para colaborar com a economia de nações mais pobres. Sendo pertinente a tais atitudes, provas insofismáveis da sua grande visão de mundo, na hora de escolher “o” avião que o transportaria pelo globo, não poderia dar um gesto de bairrismo, de visão paroquial. Nada mais justo que importasse um avião!
Porque também, é bom que se diga, o modelo brasileiro era um bocado aquém do que acabou sendo escolhido. Ao que parece, o similar nacional não teria uma banheira dentro da suíte presidencial, e uma banheira, como todo viajante sabe, é indispensável para reduzir o estresse durante as viagens transcontinentais. Outro problema seria a relativamente pequena autonomia de vôo do avião nacional. Se o Sr. Presidente quisesse, por exemplo, ir a Paris a bordo da aeronave brasileira, seria obrigado a fazer uma escala técnica em Lisboa, o que só desgastaria o seu bem-estar físico. E que diabos, ora, o homem tem de chegar descansado! É direito do Presidente! Depois, este negócio de chefe de Estado viajar em avião fabricado no próprio país só dá certo nos EUA. O ex-líder russo Boris Yeltsin, por exemplo, só voava em avião russo, que de tão instável, vivia deixando-o enjoado. Então, quando chegava nalgum país, se demorava a desembarcar, todos diziam que estava de pileque! Calúnia, simples calúnia. Não podemos querer que digam o mesmo do Sr. Presidente, porque, como todo o Brasil sabe, não há o menor motivo para tal suspeita.
De forma que concordo, sim, com todas as razões que venham a ser apresentadas para manter a razão do Sr. Presidente, para livrá-lo de possíveis e indesejáveis confusões. Que envide todos os esforços, é o que desejamos, para que não repita mais frases infelizes como aquela recente — dentre tantas outras desde o início de seu governo — relativa ao seu estranhamento quanto àqueles cidadãos que tomam empréstimos a 12% ao mês. Se ante aos seus olhos este comportamento parece estranho, sem motivo, deve ser porque, mais uma vez, confundiu o país em que estava...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].
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