Há muito tempo se diz, meio que em tom de gracejo, que a televisão faz mal à saúde mental das pessoas. “Máquina de fazer doido”, ou de “amestrar macacos”, são apelidos que a ela dão, o que não é de hoje. Não existe, inclusive, uma música que diz que “a televisão me deixou burro, muito burro demais”? É verdade que o conjunto musical que é autor da referida canção ganha rios de dinheiro com a televisão, o quê, à primeira vista, tornaria a afirmativa um paradoxo: na verdade, a televisão tê-los-ia tornado espertos, muito espertos demais...Só que tal questão não pertence ao campo da filosofia e, sim, da hipocrisia. O falso ataque a certas coisas rende fortunas a algumas pessoas. Pensemos no rock, que critica o Capitalismo há décadas, sem que este se abale um só palmo sequer: pelo contrário, ele se robustece na mesma medida em que as contas bancárias de muitos de seus mais renhidos críticos. Lembremos de um grupo norte-irlandês, de suas “polêmicas” e suas grifes...
Mas o tema de hoje não é este e, sim, uma questão de saúde pública. Pois o que se nota por meio das peças publicitárias exibidas no meio televisivo para os espectadores cativos, fiéis, é que a saúde deles está sofrendo sérios riscos. Mas por quê, exatamente? São tantas as notícias de que vivemos num paraíso, ou semiparaíso, que é difícil crer em males.
Por meio dos anúncios, o público é “informado” de que existe um “banco que nem parece banco”, de tão acessível, amigo, que ele é. Logo, devemos presumir que o mesmo cobra “juros de amigo”, ou seja, nada, ou quase nada. Há um que diz estar “fazendo mais que o possível”. Tal assertiva leva-nos a crer, portanto, que o dito cujo paga aos seus investidores altíssimos, estratosféricos rendimentos. É o mesmo que garante, aliás, que protege o “meio-ambiente”. Que bom! Adeus, efeito-estufa, adeus, aquecimento global, que viva a restauração do Éden original! Um garante que “ele é feito para você”, outro, que é “todo seu”, leitor. Ótimo, basta pedirmos a eles que nos tornem acionistas regiamente pagos, e tal será feito na hora. Lógico, pois o que é feito para nós, o que é todo nosso, não pressupõe exatamente isto? Há aquele que diz que é completo”. Obrigado! Jamais esqueceremos a gloriosa revelação de que não precisamos de coisa alguma mais no mundo, família, amores, fé, lei ou rei. E é evidente que podemos incluir neste rol, também, dinheiro. Afinal, a completude não nos livra de todas as outras necessidades, prazeres e desvios mundanos? Portanto, vivemos num país onde os bancos são verdadeiras divindades, oferecendo-nos tudo que necessitamos, e que jamais causariam aos seus clientes esgotamentos nervosos, úlceras estomacais, problemas cardíacos, etc. Logo, os causadores de doenças são outros.
Sou levado a acreditar, também, de acordo com o que nos revela a publicidade, por meio da televisão, que os transtornos de ansiedade, o estresse, etc, que provocam tantos males, podem ser facilmente evitados se consumirmos as coisas certas. Automóveis novos, apartamentos de luxo, terrenos em condomínios exclusivos, títulos de clubes, mini-adegas, home theaters, eletrodomésticos, a “cadeira do papai”, câmeras e filmadoras digitais, “mangueiras flat”, e muitas outras coisas que “facilitam nossas vidas”. Tais prodígios do desenvolvimento humano, tal gama de objetos de conforto, e que diminuem o esforço físico, seriam, pelo que nos dizem, se não o máximo da evolução da humanidade, pelo menos um imenso, colossal alívio às nossas fainas quotidianas. A posse de tais bens, e o efeito de ambos em nossas vidas, combinados às delícias oferecidas pelos bancos nossos amigos, refutariam a velha máxima bíblica “comerás [ou “ganharás”, conforme a versão] o teu pão com o suor do teu rosto” (Gn 3. 19). Pois, afinal, tudo está aí, basta estalarmos os dedos. Se o leitor deseja um barco, uma obra de arte, jóias, um caríssimo touro reprodutor ou um tapete persa, “basta ligar” ou “fazer o lance da parcela”.
Da mesma maneira, é incompreensível o fato dos brasileiros sofrerem tantos problemas advindos da má-alimentação. Como tal seria possível, com tantas lanchonetes nos oferecendo coisas tão saudáveis a ponto de levar um cantor e compositor de rap — “polêmico”, como o pretende o ser seu ritmo e as letras de sua música — a dizer que “amo muito tudo isto”? Como praticante de um gênero musical, que afirma defender as questões sociais, sua declaração quanto ao caráter nutritivo dos alimentos servidos pela rede e a sua acessibilidade aos consumidores de baixa renda, reverberam como um hino ao livre acesso à alimentação de qualidade! Depois, temos ótimos alimentos oferecidos por grandes expoentes dos estudos sobre nutrição do país. Houve uma “rainha dos baixinhos” que anunciava ótimos condimentos, balas, etc.. Um desenhista infantil que empresta sua pena, ou franquia, a uma marca de “macarrão instantâneo” e hambúrgueres congelados e empanados de inequívocas qualidades nutritivas. Além de um nadador olímpico que aparecia, freqüentemente, mergulhando numa piscina repleta de iogurtes “sabor chocolate”. Como visto, não podemos imputar a estes monumentos pátrios, nem à publicidade, altas taxas de colesterol junto à população, infantil ou adulta, nem as decorrências advindas de tão insignes ensinamentos, de tais saberes, dos quais são guardiões.
Mas as provas de que as agências publicitárias se preocupam com a possibilidade, remota, de que os maravilhosos produtos que anunciam possam vir a fazer mal aos consumidores são freqüentes. Daí anunciarem tantas máquinas para exercícios, grills saudáveis, fórmulas mágicas de emagrecimento. Outra prova de tal preocupação do meio publicitário, é a ênfase em aprimorar nossos hábitos de higiene. Daí anunciarem tantos xampus, sabonetes, colônias, cremes. Deve ser porque temos, apesar de tantas benesses, hábitos de higiene que, parecem dizer, seriam deploráveis.
Não obstante, tudo indica que vamos mal, muito mal. Podemos viver num “paraíso tropical”, à luz de uma “eterna magia” e imunes aos “sete pecados”, com bancos camaradas, ótimos bens de consumo e alimentação de primeira, mas não estamos livres de problemas digestivos, como nos mostram as propagandas de iogurtes que nos fornecem o “equilíbrio necessário”, os reclames de laxantes e de “expectorantes”, por assim dizer, de outras partes que não o peito e por outras vias que a boa educação que recebi de meus pais impede-me de mencioná-las em público.
Diante do exposto, poucas conclusões nos restam. Pois como, no “país do esporte”, padecemos de tantos males típicos da mais perniciosa vida sedentária? É por quê assistimos mais aos esportes do que os praticamos? È por quê vivemos mais as vidas dos personagens de telenovelas do que as nossas próprias? Então, a televisão faz mal. Ou a propaganda mente. Ou o esporte não serve para nada. Que o leitor decida quais são os culpados.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de agosto de 2007].
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