A Campanha da Fraternidade deste ano surpreendeu a muitos fiéis, como também a muitos que não professam o catolicismo ou deles se afastaram. De fato, à primeira vista, a defesa da Amazônia parece ser um assunto muito mais ecológico do que teológico, e a Igreja, salvo os casos de São Francisco de Assis, Santo Huberto, São Brás e Santo Antão, nunca mostrou uma vocação para a defesa da Natureza, digamos assim. Pois o que se queria salvar era o homem — o resto, estava isento da graça de Deus, visto que não poderia conhecer Sua Palavra: afinal, as árvores não escutam, o jabuti e o urso nada tiveram a ver com o Pecado Original e os povos da floresta, fossem os bárbaros da Europa e Ásia, os negros da África e os índios da América, foram, por muito tempo, suspeitos de não terem a mesma origem sagrada dos civilizados, que se julgavam descendentes de Adão. Os outros, chegou-se a cogitar, ou eram filhos do demônio, ou gerados pelos piores pecadores que a história bíblica pudesse registrar e, dessa maneira, condenados de antemão e com agravantes. Erros graves, é verdade, mas que época não cometeu os seus?
São bem conhecidos vários episódios dos primórdios da Igreja, enquanto religião oficial do Império Romano, relacionados à destruição de bosques consagrados aos deuses pagãos (aqueles sob a invocação de Apolo eram os mais visados), mas também a outras formações florestais, por suspeita de serem ambientes de culto das divindades que deveriam ser proscritas. Com a expansão de sua área de influência, chegando às regiões germânicas e setentrionais, grande número de florestas foi derrubado por conterem, supostamente, em seu interior praticantes de “velhas religiões”. A história de carvalhos e bétulas tidos como sagrados por seus adoradores — por remeterem, de alguma maneira, a uma divindade local ou regional — e que foram derrubados por algum santo ou missionário, são freqüentes nas crônicas monásticas da Alta Idade Média (sécs. V-X).
Da mesma maneira, o interesse pelos povos que viviam nas florestas — muito mais comuns do que supomos, mesmo na Europa de até meados do século XVIII — era tão somente despertado na medida em que eram julgados como praticantes de hábitos condenáveis. “Focos de heresia”, “baluartes da feitiçaria”, “pontos de resistência da superstição”, assim eram chamadas aquelas comunidades que viviam alheias às cidades, no seu eterno cumprir e repetir de velhas práticas. Daí serem alvos de tantas perseguições, serem o principal objeto de suspeitas quando se perseguia a bruxaria e as heresias. O historiador italiano Carlo Ginzburg escreveu farta e esplendidamente sobre o assunto, mas não precisamos ir tão longe: basta pensarmos que, na maioria dos contos de fadas, as bruxas vivem nas florestas...
A partir do século XVI, por meio do Padre Bartolomé de Las Casas (1472-1566), do nosso Beato Padre José de Anchieta (1534- 1597), e de muitos outros pregadores na América, a imagem do índio vai sendo assimilada, compreendida, respeitada, a ponto de, na bula Veritas ipsa (1537), o papa Paulo III reconhecer o estado de liberdade natural dos índios e a sua condição humana, proibindo a sua escravização.O que, todavia, não impediu que muitos religiosos reduzissem os indígenas àquele estado. Não falo dos aldeamentos jesuíticos, que ainda que submetessem seus índios a uma situação quase semelhante à da escravidão — penso que, na verdade, tratava-se de uma adaptação da antiga servidão tal como experimentada pelas abadias e mosteiros medievais — ao menos buscavam trazê-los para a fé católica. Mas, sim, das conhecidas fazendas franciscanas da Bahia, que escravizavam o indígena sem dó nem piedade, ainda que afirmassem não o fazer. Mas quanto à proteção à natureza, como a entendemos hoje, nem uma palavra.
Somente na centúria seguinte, com o nosso Padre Antônio Vieira (1608-1697), o respeito ao indígena cresce em volume e em eficácia. Então veríamos a promulgação da bula Comissum Nobis, de Urbano VIII, de 1639, que estipulou a excomunhão e outras censuras canônicas para os que maltratavam os índios. Mas quanto ao dito meio-ambiente, como se diz, silêncio pétreo.
No século XVIII, alguns missionários jesuítas na Amazônia — todos eles, em grande medida, vozes isoladas em seu tempo — defenderam um certo cuidado com a Natureza, e muitos outros religiosos dedicaram sua vida ao seu estudo. Mas tais iniciativas foram vistas, em parte, como um pouco suspeitas de deísmo, uma voga filosófica de então que enxergava a graça divina para além dos homens, e presente também nas coisas, nas árvores, nos rochedos, nos rios, etc. Por isto a Igreja, mais uma vez, silenciou sobre o assunto. Somente sob o pontificado de João Paulo II o tema voltaria a ser tratado com destaque e compreensão.
Voltando à Campanha da Fraternidade deste ano, e seu tema, é preciso levar em conta que a Igreja Católica do Brasil optou, desde algumas décadas, por tratar de interesses econômicos, sociais e políticos, durante a Quaresma, como uma oposição à postura meramente reflexiva, contemplativa, que muitos fiéis desenvolvem durante o período. Jejum é bom, abstinência, seja do que for, também, e principalmente para a elevação da alma e compreensão das dificuldades sofridas pelo próximo. Mas não basta isto. A militância por um mundo melhor também é possível e, mais do que isto, indispensável. Se as privações da Quaresma nos educam e nos previnem quanto à avareza, fonte de todos os males, segundo muitos teólogos, que abramos nossos olhos aos comportamentos avaros do mundo, que ora campeiam com excepcional rigor na Amazônia. Quer finjam suas pretensões sob a capa de uma “nova fronteira do agro-negócio” — que na maioria das vezes é mero, e escamoteado, sinônimo de grilagem, formação de latifúndio, devastação ambiental, violência contras as populações autóctones e não cumprimento dos mais elementares direitos trabalhistas previstos em lei —, quer, ainda, como “um novo foco de estudos científicos” — abrindo a região à bio-pirataria de ervas, frutos, poções e do próprio sangue de indígenas (estes, utilizados quais cobaias).
É, pois, preciso, dar um basta nisso tudo. Portanto, foi muito feliz a iniciativa da Campanha da Fraternidade deste ano. Porque nos conclama a salvar uma boa parte de nosso território, os recursos naturais ali existentes, o povo que o habita, e a nossa integridade, a nossa honradez. Em suma, a nossa alma.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de abril de 2007].
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