Não faz muito tempo, discutíamos, entre amigos, que o quê falta, de verdade, neste país, é uma Educação verdadeiramente digna do nome. Ou seja, uma análise profunda da situação educacional, que gere propostas realistas e investimentos concretos do Governo que as ponham em prática. Mas, também, a contrapartida familiar: pois a escola não pode, nem deve, resolver tudo o que concerne à formação de um jovem. Neste assunto, o principal diz respeito à família. Pois escola não é abrigo, reformatório, cárcere ou teatro de marionetes. Seu papel é ensinar o que se determinou como o indispensável — ainda que possa ir mais além, e algumas vão — para o desenvolvimento do intelecto, da cultura, da civilidade. Já os bons hábitos de higiene, de conduta em sociedade, de boa-educação, de respeito à lei e aos costumes devem ser, antes de tudo, instigados pela família. E que esta assuma a plenitude de suas responsabilidades, para que seus filhos não tenham que vir a assumir a completude dos erros decorrentes da fraqueza, preguiça ou descaso de seus pais.
Um amigo contou-me, recentemente, um episódio muito curioso e bem elucidativo a tal respeito. Não, mais que curioso. Mais que isto. Um sintoma de fato alarmante de uma “doença” sócio-cultural cujos efeitos a toda hora presenciamos e que, no entanto, muitas vezes ignoramos, e que muitos acham melhor ignorar... Mas vamos a história. Professor do Ensino Médio num colégio, dentre vários, de classe-média — ainda que seus alunos e pais considerem-se de classe-média para alta, quando não ricos —, eis que ele estava pacificamente dando uma aula quando, por um motivo qualquer, perguntou a um dos rapazes da sala qual a profissão de seu pai — dele, aluno. E o jovem respondeu que não tinha a menor idéia do que o próprio pai fazia: desde que bancasse seus gastos, “estava pouco se lixando”: os termos empregados não foram bem estes mas, por respeito ao leitor e ao bom-gosto, finjamos que o foram.
Surpreso meu amigo ficou. E, mais ainda, quando outro, e outro, e ainda mais um outro, disseram em alto e bom som que ignoravam as profissões dos pais ou ramo de atividades aos quais se dedicavam. Mal podendo acreditar no que ouvira, instruiu a classe para que todos aqueles que soubessem em que seus pais trabalhavam, levantassem a mão. E pasmado ficou ao ver que bem mais de um terço de seus alunos ignorava completamente a vida profissional de seus genitores! Assombrado, repetiu a mesma pergunta noutras salas, noutras escolas, de mesmo público, em que dá aula. E ainda noutras, cujos estudantes não são filhos da “classe-média-média empedernida” — quase-pobres que se acham quase-ricos — e, sim, filhos de operários, lavradores, empregados do comércio e funcionários públicos cujos cargos situam-se junto à base do sistema. Para sofisticar a análise, registrou também aqueles cujos pais pertencem àquela categoria, mais histórica e cultural do que econômica, hoje em dia, dos profissionais liberais (médicos, advogados, dentistas, arquitetos, engenheiros, etc.). Bem como os filhos de membros de servidores públicos cuja função requer mais preparo e confere mais status.
E por meio do rápido balanço que fez, chegou a conclusões dignas de nota, para não dizer surpreendentes. Em primeiro lugar, descobriu que o desconhecimento frente à atividade profissional, etc., paterna, é muito maior do que quanto à materna: todos aqueles cujas mães trabalhavam fora de casa, sabiam exatamente a que elas se dedicavam — por outro lado, entre aqueles cujas progenitoras eram simplesmente “do lar”, avultava-se a ignorância quanto ao trabalho paterno. Refinando seu breve estudo, notou que há um conhecimento muito maior das profissões dos pais quando estes (pais e mães) trabalham fora, sejam eles proletários ou altos funcionários públicos, sem falar nos profissionais liberais, que também se encaixam neste campo de análise. Já a incógnita quanto à origem do dinheiro que abastecia certos lares, e os meios para obtê-lo, concentravam-se apenas em dois grupos: entre aqueles cujos pais, infelizmente, viviam de “bicos”, em razão da trágica falta de empregos que assola o país há décadas, e entre os filhos de alguns industriais e comerciantes, pequenos e grandes, e prestadores de serviços muito específicos. Essas categorias, portanto, lideravam a lista. Só que uma outra informação, também crucial, podia ser apreendida naquela pesquisa, que não é propriamente “cientifica”, mas que produziu, ainda assim, inesperadas revelações. Pois segundo a conclusão de meu amigo, a maior parte dos jovens que se achavam ricos — “riquinhos”, se tanto, e na medida do que isto representa numa cidade pequena ou média frente a uma grande — ou aqueles cujos hábitos e idéias tentavam fingir tal situação, ignoravam completamente os ofícios ou atividades paternas.
Dito isto, retornamos ao velho tema: não há paternidade sem responsabilidade — o resto é cria de chocadeira ou fruto de vadiagem. Conheço dezenas de pais que não se encontravam preparados para sê-los, e, não obstante o foram. Desde casais adolescentes, até mesmo alguns bens maduros. Não queriam, ou não podiam ter filhos e, no entanto, os tiveram. E, melhor, que isto, deram-lhes sólidas e ótimas educações: dá gosto conversar com muitos deles, que vi nascer e que se tornaram boa gente na vida.
E que não se culpe o excesso de trabalho por isto: não há compensação financeira que dê jeito numa educação descuidada — mesmo porque, se “os meninos” não forem bem preparados, não darão conta do balcão que herdarem de seus pais... É isto que se quer?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de março de 2007].
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