sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Porque ler "As Aventuras de Asterix"

“Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Laudanum, e Petibonum”. Com estas palavras se iniciam todos aqueles episódios de histórias em quadrinhos que tem por protagonista o impagável herói de nome Asterix, habitante de uma parte de um vasto território, a Gália, que, milênios mais tarde, seria conhecido sob o nome de França.
Desde que a dupla composta pelo roteirista Goscinny e o desenhista Uderzo criaram aquela que é sua obra-prima no campo dos quadrinhos, a série As aventuras de Asterix, mais de quarenta anos se passaram. Mas não só. Foram publicados trinta e dois episódios originais, quatro adaptações de desenhos animados e mais seis edições especiais, fora de catálogo. Como também vieram à luz os quatro longas-metragens de animação já referidos, e um outro com protagonistas de carne e osso, anuncia-se que mais um já está em produção. Se foram mais de 280 milhões de exemplares das aventuras vendidos somente na França, os números no resto do mundo são praticamente incalculáveis. Mas os prodígios não param por aí: além de toda a sorte de subprodutos, desde brinquedos, roupas e videoames, etc., há o Parc Astérix, na França, um grande parque de diversões, meio que ao molde das várias Disney Worlds espalhadas pelo mundo, mas que é muito mais visitado que aquelas da Europa e Japão.
O leitor deve se perguntar a causa deste sucesso. Nosso povo não tem tanta familiaridade assim com nossa história a ponto de certos personagens tornarem-se suficientemente atraentes para serem vertidos à ficção. Os bons tempos dos romances ditos históricos já vão bem longe, e as biografias bem vendidas por aqui raramente se aventuram para além de um século, um século e meio atrás: se aquela relativa ao Barão de Mauá vendeu bem, não foi quase nada perto do sucesso de público de Chatô. Jô Soares, é verdade, no gênero do romance cômico, na paródia histórica, tem sido bastante vendido já há três livros, mas este último bem menos que os dois primeiros, talvez indicando que a fórmula seja de curto efeito.
A verdade é que um país como a França possui um suficiente conhecimento de sua própria história e uma saudável relação de eqüidistância entre a política, o patriotismo, a inteligência e o humor, a ponto de permitir a uma série de artistas a liberdade quase completa de reinventar seus personagens históricos, a rir deles e com eles, expondo suas mazelas presentes em roupagens do passado. E os erros, ou o que foi cômico no passado, à toda luz dos dias atuais.
Ou alguém seria capaz de pensar em como, por exemplo, e muito tangencialmente, brincar com uma possível dor de dentes atacando Pedro Álvares Cabral, deixando a costa brasílica rumo às Índias? O bandeirante Raposo Tavares marchando rumo ao interior bravio e padecendo em razão de possíveis sapatos apertados? Ou o poeta Cláudio Manuel da Costa improvisando seu levantamento topográfico de Minas por meio de toda sorte de traquitanas inúteis, disfarçadas por meio de nomes tão incríveis quanto imaginários? Por que não o Duque de Caxias ordenando involuntariamente, quiçá, um ataque porque, com a espada em mãos, espirrou, e aquela baixou, levando suas tropas à ação e à vitória? Ou o Marechal Deodoro, quem sabe constipado, não propiciando ao povo do Rio de Janeiro o eco de seu brado em prol da República...
A televisão de vez em quando tenta alguma coisa assim, basta pensarmos no que fez com Caramuru e com a família real portuguesa — ainda que fazer piada com esta seja fácil demais, por motivos vários e nem sempre reais. Mas no geral, temos uma visão por demais canônica do passado e que nos desautoriza a rir com ele.
Leiamos, portanto, Asterix, e aprendamos, se não tanto história, pelo menos a brincar com ela.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de outubro de 2005].

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