A exposição Luz e sombra na pintura italiana: entre o Renascimento e o Barroco — abrigada na Pinacoteca do Estado por uma curtíssima temporada que se encerra neste domingo, 30 de abril — é até agora o grande evento do ano no campo das artes. Apresentando pouco mais do que sessenta pinturas formidáveis realizadas nos séculos XVI e XVII, e nunca antes expostas no Brasil — o que já era de se esperar — ou mesmo na América Latina, é uma pequena, mas significativa amostra do que se produziu no período. Mas ao mesmo tempo que ela é, como se diz, “imperdível”, muito bem organizada, apresentando um ótimo acervo, etc., ela também padece de alguns deficiências um tanto quanto graves. Mas vamos às boas notícias, em primeiro lugar, ainda que seja necessária, primeiramente, uma ressalva.
Já de antemão previno aos leitores e potenciais visitantes de que não há nenhuma obra ali exposta que tenha sido reproduzida em livros ou em outros meios de divulgação de maior escala. Quem quer que visite a exposição não vai se deparar com nenhuma pintura e pensar coisas como: “ah, esta eu me lembro de ver estampada num livro da escola”, ou “aquela ali eu já vi à venda numa loja de pôsteres”, ou ainda “aquela outra eu tenho reproduzida num calendário”. Não, nada disso. Nada de obviedades, por melhores que elas sejam, nem de unanimidades, por mais questionáveis que estas possam ser. O quê, acredito, é uma grande virtude num tipo de mostra marcadamente didática — na melhor acepção do termo — como a presente.
Por que didática? Porquê toda ela foi montada de uma maneira que se possa contemplar a produção de três dos principais centros irradiadores da arte do período, no caso Roma, Veneza e Bolonha, e de acordo com suas características próprias, ou seja, o predomínio da luz, na primeira, da sombra, na segunda, e um certo meio termo, na terceira.
Ela é bastante didática, também, na própria escolha dos artistas representados. Nela o visitante poderá ver não só algumas obras estupendas de grandes mestres italianos — como Ticiano, Veronese, Bernini, Lorenzo Lotto, Guido Reni, Guercino, Salvator Rosa, Paris Bordone e Palma, o Jovem — mas também pinturas de outros artistas igualmente sublimes que estudaram e pintaram na Itália durante certo período de suas vidas — El Greco, Ribera, van Dyck e Simon Vouet, para ficarmos somente nos mais famosos. E, ao mesmo tempo, pode ser vista a ótima produção de pintores menos conhecidos pelo grande público — e até por grande parte da crítica, salvo especialistas e colecionadores. Ainda que seus trabalhos sejam claramente inferiores aos dos grandes nomes citados, dão uma ótima noção do ambiente, do que se produzia então, e da razão mesma de certos vultos terem passado para a posteridade e outros figurarem ainda como meras silhuetas imprecisas: a diferença entre o gênio, por assim dizer, e um artista talentoso, esforçado, mas relativamente limitado em suas pesquisas, idéias, sensibilidade e autonomia.
Outro aspecto relevante da exposição é que ela, em sua grande maioria, é composta de retratos, e retratos de meio-corpo, um gênero de representação poucas vezes exposto nos museus nacionais com tal amplitude, pois a ênfase geralmente recai sobre os temas históricos, mitológicos ou bíblicos. Todavia, nada pertence mais claramente ao Renascimento e ao Barroco do que o retrato, na sua ânsia de individualizar o homem, de quase torná-lo sagrado, à semelhança das divindades e santos ao mesmo tempo que o revela tão humano.
Depois de tantos elogios, há que se fazer algumas censuras. Pois a crítica nada mais é do que um meio termo entre estes dois pólos.
Em primeiro lugar, o nome da exposição é um tanto quanto pretensioso, se não beirando uma certa megalomania. Sugere que apresentará tudo o que de mais expressivo, de mais característico, foi produzido contrastando a luz e a sombra, bem como os principais artistas que assumiram flagrantemente sua opção por um ou por outro termo desta antítese. Assim, clama aos sentidos e à razão a falta de Rafael, pintor luminista por excelência, e dos Carracci, seus seguidores, por um lado, e, por outro, de Caravaggio, o supremo tenebrista, e todos os caravaggescos, que acompanharam seus passos. Outro ausência inquietante, é a de obras produzidas em Florença, pátria da luz, e de Nápoles, que ainda que mais ensolarada que a primeira, produziu toda uma escola baseada na sombra.
Mas se tudo isto fosse contemplado, a exposição seria não somente ótima, e sim magnífica. Temos que recordar que seu acervo não foi montado escolhendo-se obras de grandes coleções públicas: tudo o que está ali pertence a um único colecionador e, portanto, o conjunto foi mais moldado por seus gostos particulares do que por uma diretriz sistemática, absoluta. Por este motivo, entendemos também porque as pinturas apresentam um aspecto como se fossem novas ou, no máximo, de um século atrás: a vulgar restauração de que foram vítimas livrou-as da pátina do tempo, e todas elas resplendem talvez mais do que no momento em que foram criadas — como se um Ford de 1920 fosse encerado à maneira dos carros atuais, com suas pinturas metálicas. Não sejamos, entretanto, tão críticos quanto ao dono da coleção. Muito mais digno, honrado, nobre, é colecionar grandes obras de arte e exibi-las ao público, do que amealhar automóveis luxuosos e entesourá-los em garagens, como fazem os ignorantes milionários do Brasil.
Em suma: domingo é o último dia da exposição e ela é um deslumbramento só. Mais erudição do que se pode imaginar, e por muito menos do que geralmente se paga. O custo total — ônibus, metrô e ingresso — é até menor do que o do rodízio dominical na churrascaria mais próxima. E, convenhamos, o que se come ao meio-dia, já foi esquecido às seis da tarde. O que se adquire de cultura, acompanha-nos para o resto da vida.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de abril de 2006].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana
Nenhum comentário:
Postar um comentário