sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Dois exemplos de uma mesma fé

Nesta semana em que a maior parte da imprensa nacional conferiu uma ênfase muito mais do que exagerada a um assunto que, convenhamos, é somente de interesse dos envolvidos diretamente com ele (a saber: o casamento, que alguns dizem ser de “conto-de-fadas” e, outros, de “faz-de-conta”, do astro de futebol e da modelo), houve espaço também para duas notícias que nunca ocupam as primeiras páginas dos jornais: a morte de duas freiras. Todavia, a coincidência cessa no fato de serem duas religiosas católicas que morreram, assunto, como dissemos, geralmente negligenciado pelos grandes meios de comunicação. Pois, quanto às duas irmãs, quanta diferença entre elas...
Uma era a freira carmelita Lúcia de Jesus dos Santos, de noventa e sete anos e que, entre 13 de maio e 13 de outubro de 1917, foi uma das três crianças que declararam ter visto a Virgem Maria em Fátima, Portugal — uma vez por mês naquele espaço de tempo — e que por meio destas visões foram-lhes revelados três segredos. O primeiro segredo era que a guerra iria terminar. O segundo era duplo, por assim dizer, e revelava que, se os homens não se corrigissem, haveria uma Segunda Guerra Mundial no tempo de Pio XI e que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo. Já o terceiro, mantido no mais absoluto sigilo até poucos anos, seria o atentado contra o papa João Paulo 2º, ocorrido em 1981.
O curioso nisso tudo, em primeiro lugar, é que Pio XI só ia começar a reinar em 1922 e, obviamente, em 1917, não havia ninguém chamado Pio XI... Em segundo lugar, dizer, em julho de 1917, que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo, era algo mesmo inconcebível, na medida em que a revolução Russa de Outubro de 1917, comunista, liderada por Lênin, ocorreria somente em 7 de novembro (outubro, no calendário russo de então) daquele ano. Quanto ao atentado contra João Paulo II, ao darmos crédito a esta explicação, seria igualmente prodigioso, pois como poderia uma simples menina portuguesa imaginar uma tentativa de assassinato a um Papa que sequer havia nascido? Então, se não foi um milagre, ninguém poderia arriscar dizer o que foi.
Mas o fato é que irmã Lúcia morreu por falência do coração, depois de anos reclusa num convento. E sua morte parou Portugal, tendo o governo decretado luto oficial e os principais partidos políticos cancelado campanha para as eleições do próximo domingo.
No mesmo dia também, os jornais estamparam, com maiores detalhes, mais precisão, a notícia da morte da freira Dorothy Stang, de setenta e três anos, missionária da congregação católica Irmãs de Nossa Senhora de Namur, comunidade fundada há 201 anos e que reúne mais de 2.000 freiras em missões humanitárias em 15 países. Vinha esta irmã atuando há pelo menos trinta anos junto aos movimentos sociais no Pará, sendo seus esforços reconhecidos em todo o país, ao ponto de receber o prêmio “José Carlos Castro”, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) daquele Estado, elogios por parlamentares no Senado, ser considerada uma referência na história da colonização amazônica e receber o título de Cidadã do Pará. Foi recebida até pelo atual Ministro da Justiça, que prometeu olhar pela grave situação de periculosidade encontrada na região em que a religiosa vivia, onde fora já ameaçada de morte. Ameaças que se cumpriram, e que tiraram sua vida por meio de seis tiros disparados por um pistoleiro.
Irmã Dorothy, até onde se sabe, não foi contemplada com uma tal prodigiosa visão da Virgem Maria qual a de que foi testemunha Irmã Lúcia. Se seu coração estava devotado aos céus, seus olhos contemplavam o triste quadro social do Pará, onde, unida às mulheres e aos agricultores da comunidade Sucupira vinha desenvolvendo projetos sustentáveis para geração de emprego e renda através do reflorestamento de áreas degradadas, pois sabia que era a vontade de Deus que nem a terra, nem o mar, nem as árvores deveriam ser danificadas (Ap. 7:3). E longe de viver reclusa, trabalhava intensamente na tentativa de diminuir os conflitos fundiários, pois sabia que “do Senhor é a terra e tudo quanto ela contém” (1Co 10:26), não de alguns poucos e poderosos que dela se apropriam até mesmo contra a lei.
Sua morte, por outro lado, não foi motivo de luto nacional — mesmo sendo ela brasileira naturalizada. Nem os partidos nacionais alteraram um movimento sequer de seu contumaz jogo político. Quanto ao governo, sentiu-se constrangido — afinal, a religiosa era de origem norte-americana — e tão somente isso, como de praxe.
Ambas as irmãs morreram nesta semana, cada qual com suas próprias trajetórias de vida, trajetórias aparentemente opostas, mas só na aparência. Amaram a Cristo, Suas obras, Seus ensinamentos e Seus filhos e praticaram Seu amor intensamente, como cada uma sabia ou podia praticar. Uma se foi em meio ao olor da santidade. A outra, carregando a palma do martírio. Mas ambas foram respeitadas e dignificadas pela Igreja e pelos fiéis por suas obras e por suas vidas de doação. E há ainda quem afirme que a comunidade dos católicos é um todo inerte, monolítico, no qual uma única forma de prática religiosa é tolerada... Que os exemplos de Irmã Lúcia de Jesus dos Santos e de Irmã Dorothy Stang brade nas consciências destes críticos afobados e ignorantes.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de fevereiro de 2005].

Nenhum comentário:

Postar um comentário