sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Masp, exemplo da grandeza e da miséria

A Pinacoteca do Estado foi o primeiro museu de São Paulo cujo acervo foi integralmente voltado às artes plásticas. Consolidada nos primeiros anos do século XX, num tempo em que a instituição conjugava as atividades de escola de artes e coleção de obras artísticas, ela amealhou importantes pinturas e esculturas produzidas a partir do século XIX. O ingresso das obras à sua coleção deu-se, muitas vezes, por meio de doações. Mas era comum, desde então, a compra de quadros e obras de estatuária pelo poder público. Muito menos raras do que se supõem, quando se pensa no passado, eram as ocorrências de certas transações bastante suspeitas neste comércio. Assim, há registros de pintores que tiveram uma ou mais obras suas pagas pelo erário estadual, e acolhidas naquele instituição como exemplares do que melhor se produzia no país, e só mais tarde descobriu-se que seus patronos — aqueles que indicaram a compra pelo Estado, ou mesmo os que a autorizaram o pagamento — eram colecionadores de arte e proprietários de várias obras daqueles mesmos artistas: ou seja, o patrocínio tornava-se meio para a especulação.
A partir de meados da década de 1930, Getúlio Vargas intenta um projeto de construção de um ideário brasileiro de cultura e de país, que deveria de sobrepor às influências européias. A idéia, aliás, não era dele: requentou um pouco os discursos modernistas, adicionou algumas pitadas de Gilberto Freyre, algumas raspas de fascismo e realismo-socialista e mandou alguns intelectuais cozinharem tal excêntrico refogado para ser servido àqueles desejosos crônicos de um patriotismo sem medida: e a conta fosse mandada a alguns capitalistas e ao Estado, este saco de ouro sem fundo. Não por acaso, nesse período surgem grandes coleções públicas, e privadas, também. Portinari pontifica como nosso Picasso — um comunista como o artista oficial do Estado Novo! — e suas obras engrossam as coleções de notáveis do regime, empresários, etc., gente que também dispunha sobre o que os museus deveriam comprar. E nesse ambiente surge o embrião do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, etc.
Já a história do Masp, Museu de Arte de São Paulo, é bem conhecida. Sua existência se deve à iniciativa do magnata da imprensa Assis Chateaubriand, então dono dos Diários Associados, da revista de maior circulação no país e de emissoras de televisão, dentre vários outros negócios: um homem cujo procedimento validava a expressão, então recente, de que a imprensa era um quarto poder, para além dos três já tradicionalmente consagrado. Decidido que estava a montar um grande museu no Brasil, e não querendo arcar com o total das despesas, não teve escrúpulos em chantagear alguns grandes empresários nacionais, com a finalidade de levar a cabo seus planos. Argumentava ele que a nata do capitalismo local, que procurava imitar o jet set internacional, deveria também se igualar àquele no mecenato artístico, ao invés de gastar apenas e tão somente em suntuosas festas para deleite próprio. E para que abrissem a carteira para seu museu, ameaçou os plutocratas da época de expor todos os podres dos negócios deles ao público, através de seus jornais. A manobra deu muito certo, e eis que o Masp não só existe até hoje, como seu acervo é o maior, e melhor, da América Latina, no que se refere à arte ocidental compreendida entre o Renascimento e as vanguardas do princípio do século XX — há obras posteriores, também, quer pertencentes a novos movimentos artísticos, quer porque ingressaram mais recentemente na coleção, e muitas delas excepcionais, ainda que em boa parte sem o brilho das primeiras aquisições, como veremos, e por causas que adiante apresentaremos.Mas que ninguém tenha dúvida: as obras que vemos neste museu são de primeiríssima qualidade e invejadas por inúmeros colecionadores e instituições no mundo todo, inclusive norte-americanas, às quais o dinheiro não falta.
Não muito depois do Masp tomam corpo o Museu de Arte Moderna de São Paulo e o de Arte Contemporânea. O primeiro, tem seu acervo formado por esporádicas doações de colecionadores, ditadas pela mesma e velha política de valorização das coleções particulares por um contrapeso nas instituições públicas: numas e noutras são os mesmos nomes a fulgurarem como grandes artistas. Já o segundo, é um verdadeiro exemplo, ainda que poucas vezes seguido, à montagem de um museu pelo capital privado: o acervo do MAC, em quase sua totalidade, se deve à coleção pessoal de Ciccilo Matarazzo, doada por ele em vida, feito único, por seu vulto, no mecenato nacional. Mas, desde então, quase nada foi visto no gênero: os verdadeiramente ricos do Brasil, que gastam quase tanto quanto os ricos norte-americanos, contentam-se em satisfazerem tão somente aos seus prazeres pessoais.
O Masp teve sua luz cortada por falta de pagamento e vem apresentando deficiências crônicas em muitos setores. Se fosse nos Estados Unidos, Europa, ou mesmo na Argentina, garanto que algum magnata local pagaria a conta. Aqui, nada. Financiam peças teatrais — sofríveis — que eles mesmos escrevem, editam alguns caros livros de arte para brindar seus pares, pagam a alguns maganos para que lhes escrevam suas biografias e coisas que tais. Emanoel Araújo, escultor de renome, e que sozinho, e às suas próprias custas, montou aquela bela instituição que é o Museu Afro Brasil — e que luta para sobreviver ante o descaso dos tucanos paulistas e de seus herdeiros do PFL (a mesma carne, o mesmo sangue) — contava que quando dirigiu a Pinacoteca do Estado freqüentemente era sondado por gente da sociedade endinheirada, que se mostrava interessada em utilizar os salões daquele museu como cenário para alguma festa. Até aí, nada demais: é prárica comum em Nova Iorque, Paris e Buenos Aires. Só que ao invés do que acontece naquelas plagas — uma considerável soma é desembolsada neste “aluguel” — os de cá queriam pagar muito menos do que cobrava um simples bufê!
Por meio de todos estes exemplos, é surpreendente pensar que existe gente ainda que escuta as “idéias” dos milionários brasileiros, e votam em seus candidatos ao governo — meros gerentes de seus interesses — e dão as costas à crua realidade. E depois acham estranho quando o Estado implode!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de junho de 2006].

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