sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Filosofia e Sociologia contra a apatia

O Brasil é considerado um fenômeno dentre as nações modernas por sermos capazes de criar inúmeras legislações que não têm eficácia. Tente-se, por exemplo, explicar a um estrangeiro porque determinadas leis “pegam” e outras, não. É praticamente impossível. Vemos não só que nossos argumentos não param de pé como reconhecemos, ao mesmo tempo, o absurdo desta nossa excêntrica situação — que nem é legal, mas moral, principalmente.
Veja-se, por exemplo, a lei que instituiu — e está em plena vigência — o ensino da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio. Ela existe, foi aprovada segundo os conformes e, no entanto, contam-se praticamente nos dedos as escolas que oferecem aquelas disciplinas aos alunos neste início do ano letivo por todo o país. Mas por que motivo não o fazem? Ou melhor, o que alegam estes contraventores penais — que é no que acabam se tranformando ao descumprirem a lei?
Quanto aos Estados, saem-se pela tangente. Alegam que não há mão-de-obra suficiente e que não há recursos. Ora, recursos sempre há. A prova é que dia sim, dia não, mas principalmente no encerramento das administrações, descobre-se algum desvio de recursos nalgum Estado do país. Pela Lógica — um dos campos da Filosofia que, enquanto disciplina, não querem as autoridades que seja adotada — chega-se facilmente pois à conclusão de que os recursos existem e que devem ser muitos, a ponto de sua saída fraudulenta ser tão pouco notada pelas autoridades competentes. Os cofres devem estar realmente abarrotados, pois só isto explica que os freqüentes descaminhos de somas consideráveis sejam notados somente muito tempo depois que ocorreram. Quanto à falta de profissionais, é de se perguntar: se estão fazendo PPPs (Parcerias Público-Privadas) para todo tipo de obras — pagas com uma rigidez e pontualidade que os precatórios alimentares nunca conheceram — por que não tentar alguma coisa do gênero na Educação? Por que não criar convênios com universidades, cooperativas de ensino, etc?
Da parte da iniciativa privada, as críticas, absolutamente, não procedem. Não propaga esta a sua “excelência de ensino”? Então, que provenha o melhor para a formação de seus educandos. Mas isto implica custos, é verdade. Pois a família dos alunos que arquem com eles! Afinal, o que mais os pais podem legar aos filhos do que uma sólida educação intelectual e moral? Dinheiro? Se o filho for um doidivanas, gastará o que herdar antes mesmo de conhecer o montante. E se o inventário se arrastar demasiado, conhecerá só dívidas, ou restos. Além disso, aluno bem preparado é o que entra numa boa universidade e que se torna um bom profissional, de renome, de projeção. Quantos não padecem em áreas como o Direito, a Economia, a Propaganda e o Jornalismo, por exemplo, em virtude de seus parcos conhecimentos quanto à Sociologia e à Filosofia? E quantos outros mais não naufragam pelo absoluto desconhecimento da Lógica em todas as funções?
As críticas, todavia, mais questionáveis, e olhem que abundantes, vêm de muitos profissionais do ensino. Tome-se, por exemplo, a de uma ex-conselheira do MEC, que disse recentemente a uma revista que a introdução da Sociologia e Filosofia na grade “[...] é uma pena [...]. Toda a orientação é para que não existam disciplinas, mas, sim, competências para que as escolas possam escolher sua proposta pedagógicas. [...] Esses conhecimentos [Filosofia e Sociologia] podem ser trabalhados em História, Geografia e Literatura”. Assim sentenciou a ilustre educadora...
Mas como é que se espera que os professores já existentes consigam suprir tais informações durante a exposição de suas disciplinas, já que mal há tempo para o básico, por assim dizer?
Pensemos, por exemplo, no caso de um professor de História que esteja ensinando a chamada Idade Moderna (para quem não lembra, estabeleceu-se que ela teve início em 1453, ou 1492, e seu fim em 1789). Pois bem, como é que se resume mais de 300 anos de história, e de história conturbada, num único ano, e tratando também das variadas correntes filosóficas surgidas ou aprimoradas naquele período? Nem por “decoreba” do tipo “catecismo” — P: Quem foi Voltaire? – R: Filósofo francês do século XVIII. – P: Que grande evento ocorreu poucos anos após sua morte? – R: A Revolução francesa... É isto que se quer? Porque seria isto, no máximo, o que o tempo permitiria, e o que, convenhamos, não é educação, mas, sim, adestramento de papagaios.
O mesmo também não poderia ser feito por um professor de Literatura. Se um estudante — por deficiências várias que vão desde um mau ensino de origem, passando pelo desestímulo à leitura por parte dos pais e da sociedade, e culminando na preguiça — mal e mal entende, tropeçando no vocabulário, algo como, digamos, um romance realista qual O Cortiço, de Aluíso Azevedo, de que maneira o professor da área pode ensinar-lhe a respeito de Marx e Durkheim, que foram contemporâneos do autor? Impossível!
Em suma, que venham a Filosofia e Sociologia para a grade. Ou melhor, que encha-se o horário escolar de toda a sorte de disciplinas, por que lugar de estudante é na escola. Chega dessa farra de ficar vadiando na rua, matando tempo em frente da televisão ou trocando banalidades pelos orkuts e que tais. E, por outro lado, basta de menores de idade trabalhando, que é péssimo para eles e para a Economia. Assim, que retorne a Educação Artística, com Música, Desenho, História da Arte e até Trabalhos Manuais. Que se estudem as religiões nas suas origens, desenvolvimento e nos seus valores. Que retorne a Educação Moral e Cívica, menos rançosa, mais arejada, ensinando que há leis no Brasil e que é nosso dever obedecê-las, concordando ou não. Mas que também ensine aos nossos jovens os meios democráticos de alterá-las, ao mesmo tempo em que os faça execrar a burla, a contravenção e o crime.
Que se ponha o aluno na escola, por seis, oito, dez horas. Com aulas, esportes, tempo para a leitura, reflexão e descanso. Que se reescreva a história da educação no Brasil. Mas, antes, que defendamos, todos, a aplicação da Filosofia e da Sociologia no currículo do ensino médio. É um direito consagrado pela lei. E uma aposta garantida no futuro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de fevereiro de 2007].

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