Duas exposições, que certamente causarão um grande impacto junto ao público, foram abertas por estes dias no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, naquele local conhecido como Oca — assim apelidado em razão de suas formas possuírem uma vaga semelhança com a moradia de nossos índios tupis, mas cuja aparência remete mais à moradia dos esquimós, o famoso iglu (e, como este, impessoal e frio por fora, ao mesmo tempo que quentíssimo, um verdadeiro forno, por dentro).
A primeira tem como tema a vida e a obra do célebre artista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519), e dela trataremos em breve. Já quanto à segunda, que é o nosso assunto de hoje, trata-se da exposição “Corpo humano: real e fascinante”, que exibe ao público dezesseis cadáveres de homens e mulheres e duzentos e vinte e cinco órgãos dissecados e preservados graças a um processo conhecido como “polimerização”, o qual dá aos corpos uma aparência e textura semelhantes à do plástico, e que impede a sua decomposição.
Esta nova edição do tradicional Gabinete de Horrores — pois por este nome eram intituladas certas seções destinadas a tal temática ou assuntos correlatos nos museus de cera do século XIX — foi organizada por Roy Glover, professor de anatomia da Universidade de Michigan, EUA. Entretanto, não se trata, sequer, de uma idéia original: pois em Berlim, Alemanha, no ano de 2001, o médico Gunther von Hagens, inventor do tal processo de conservação dos corpos — à época chamado de “plastinação” — conquistou a atenção mundial graças a uma exposição semelhante e que se chamava “Mundo dos Corpos”. E nela não exibia os meros dezoito corpos de sua congênere paulistana, mas, sim, duzentos.
Todavia, por mais que as exposições se pareçam, elas possuem suas diferenças. A atual, da Oca, alega mostrar os restos mortais embalsamados sob uma ótica que se diz “científica”. Já a de von Hagens, ainda que alegasse ser igualmente “científica”, chegou a expor os corpos de uma maneira “dramática”: foram dispostos de tal maneira que sugeriam ao espectador desempenharem verdadeiras cenas teatrais (um corpo ajoelhado, com as mãos postadas como numa prece e, sobre elas, o coração, real, do “modelo”); ou, ainda, sob a aparência de uma explicação científica, uma horrenda linha da vida humana pelo método mais brutal: uma série de corpos dispostos qual se obedecessem a uma narrativa, e da qual faziam parte vários fetos humanos “plastificados” exibidos em seqüência até atingirem o estágio de um bebê. Ficou também famosa a adaptação que o médico alemão fez de uma pintura de Salvador Dalí cujo tema era a “Vênus de Milo”. Se, por um lado, o pintor espanhol fez uma releitura daquela estátua clássica, inserindo gavetas no corpo da figura (dizem uns que para criticar a mania ocidental de tudo reduzir a compartimentos fechados, dizem outros que para declarar que aquela obra de escultura, como referência cultural, banalizara-se a tal ponto que mais se assemelhava a uma cômoda), por outro, o médico alemão adaptou a idéia de Dali para fins mais “didáticos”: nas gavetas de seus corpos, viam-se os órgãos correspondentes. Homenzinho sutil este von Hagen, não?
Por maiores diferenças que a exposição de Berlim e a de São Paulo possuam, uma coisa elas têm em comum. Trata-se do fato das “peças” exibidas terem a mesma procedência: foram fornecidas por uma universidade chinesa que se vale de corpos de criminosos condenados à morte para seus estudos. Os organizadores negam, e alegam que os corpos são de pessoas que tiveram morte natural e, ainda em vida, optaram por doar seus restos em benefício da ciência e da educação na China. Mas você, leitor, acredita? Por mais que os afoitos de sempre acalentem, nos dias atuais, a adoção da pena capital na terra brasileira, não podemos nos esquecer de que as execuções chinesas são notórias pela sua falta de humanidade: o processo é perverso, o direito à defesa é mínimo e a família do condenado ainda arca com os gastos da execução: paga pela bala que deu cabo do infeliz. Isto lá é justiça? Dá para acreditar em “doação”? E, por outro lado, é moral exibir os corpos destes pobres diabos, quase que eternamente?
Autoridades religiosas várias, na Alemanha, condenaram o episódio. E a Igreja Católica naquele país resumiu as queixas numa declaração em que alegava que a exposição exibia a morte de maneira banal, como se nela estivesse excluída a presença de Deus. E está certa. Para milhões de pessoas no mundo, a morte não é só física. Claro que o direito de quem quer doar seu corpo para transplantes deve ser respeitado, ou até, melhor dizendo, incentivado. Mas para a ciência? Jeremy Bentham (1748-1832), filósofo e jurista britânico que provou a inutilidade da pena de morte enquanto noção coercitiva do crime (ou seja, que ela não funciona enquanto intimidação aos criminosos), doou seu corpo para a Faculdade de Medicina de Londres. Mumificado, ficou ele, ou o que restou dele, exposto numa vitrine até poucos anos atrás. E com que finalidade? Escrevam se souberem de uma.
Creio que seja indiscutível a necessidade dos estudantes de medicina terem contato e experiência com a dissecação de corpos humanos. Por maiores conhecimentos que possuam de anatomia, através de livros e imagens, o desafio de cortar a carne, sentir sua resistência, avaliar seu aspecto, e chegar a uma conclusão do que foi visto, é indispensável no saber médico. E, também, no fazer médico: pois por meio de tais pesquisas ajustam, desenvolvem, aprimoram o peso ou a leveza de suas mãos em quem não precisa reclamar de dor, e assim resguardam seus futuros pacientes. Pois alguém, por mais boa vontade que possua, ou alertado para o fato, cederia sua própria pele para a aprendizagem alheia?
O mesmo pode ser dito quanto aos estudantes de enfermagem e áreas afins, pois um suficiente conhecimento do assunto no seu aspecto mais “duro”, é ponto pacífico.Como também para os de Direito, já que a Medicina Legal é uma disciplina obrigatória nas boas faculdades. Mas, por outro lado, o que leva uma pessoa comum, alheia a estes campos do saber, a visitar uma exposição desta natureza? Curiosidade em relação à anatomia humana? Ou será que não se trata de uma completa falta de abstração ou poder de imaginação, para não falar em clara morbidez? Porque nada que esteja ali nunca deixou de ser mostrado — seja como ilustração ou fotografia, e até nos livros didáticos mais reles — ao redor do mundo e há bem um século. Assim, a questão, no fundo, não é proibir a exposição ao público, longe disso. É a de argumentar quanto ao tipo de público que está interessado nela.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de março de 2007].
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