Nesta semana, seria impossível tratar de outro assunto que não relacionado aos cinqüenta anos da morte de Getúlio Vargas. Pois além de ser uma das efemérides mais importantes da história recente do Brasil, todos se viram frente a frente com esta questão, em razão dos inúmeros comentários e alusões nos meios de comunicação, com cadernos e edições especiais de jornais e revistas. Em suma, foi tal o volume de informações, tantos os testemunhos de quem viveu a época, tantas as cronologias, da vida de Getúlio, de seu governo, da crise em que foi envolvido nos seus últimos dias, tanto e tanto foi dito, que seria por demais pretensioso, neste breve espaço que nos cabe, procurar resumir quer o personagem, quer seu governo, quer o que representou para a história. Seria, talvez, o trabalho de toda uma vida.
Se as pessoas, por mais próximas de nós, pessoas por vezes muito comuns, apresentam-se como insondáveis mistérios, que dizer de homens públicos? E que dizer, então, de um grande homem público? Sim, pois para o bem ou para o mal, ninguém pode negar o imenso papel desempenhado por Getúlio Vargas em nossa política e em nossa história, e — poderíamos ir ainda mais longe — na própria história mundial, esta em que parecemos só querer entrar pela porta dos fundos ou como material anedótico. Sim, da história mundial, pois seu apoio aos Aliados, tenha sido ele relutante, ou não, foi importantíssimo durante a Segunda Grande Guerra. Ou alguém acha que se o Brasil, com todos os seus recursos e seu imenso litoral, se aliasse às forças do Eixo, o resultado seria o mesmo? Imaginemos a Alemanha com bases no nosso território, com o controle do Atlântico Sul, com possíveis novos cenários para batalhas aéreas e navais, com um trampolim para a África? Teria a guerra terminado do mesmo jeito?
Depois, há outros aspectos na trajetória política e de vida de Getúlio Vargas que o fazem único na história do mundo. Um latifundiário que derruba um Regime que era a mera representação dos interesses de outros latifundiários. Um conservador que se alia a rebeldes e um legalista que faz uma revolução. Um aristocrata que será chamado de “pai dos pobres”. Um representante do capitalismo que cria as férias, o salário-mínimo e a previdência social para a totalidade dos trabalhadores. Um ditador que será reconduzido ao poder nos braços do povo, depois de uma imensa quantidade de votos justamente de um Estado da União onde, dizia-se, ele era detestado. Um homem que se vinga de seus inimigos não com a morte deles, mas com a sua própria morte. Um homem que governou um país de 1930 a 1945, com plenos poderes, de vida e de morte, e de 1950 a 1954, com amplos poderes, e não ficou um só centavo mais rico — dizem mesmo que ficou, sim, menos, muito menos rico. Como pode ser compreendido um homem assim?
Milhares de artigos, monografias, teses, livros, tomos e tomos de estudos sobre Getúlio Vargas jamais explicarão a sua tremenda singularidade.
Mas, ainda assim, arrisco aqui uma modesta opinião, que certamente não explicará nada, pelo contrário, só irá se somar a outras tantas mais e mais abalizadas. Trata-se de um simples registro pessoal, crítico, levando-se em conta a geração à que pertenço e a este ponto da história no qual nos encontramos.
Não consideraria errado dizer que Getúlio, aos olhos de hoje, parece encarnar uma somatória de virtudes do passado e defeitos do presente, ou melhor, de virtudes do século XIX e defeitos do século XX. Ou melhor ainda, virtudes e defeitos que atribuímos a estes dois séculos. Nele convivem, lado a lado, a honestidade pessoal e apego ao Poder, a modéstia e o culto à personalidade, o respeito à ordem e a tentação em perturbá-la — a intempestividade de um caudilho gaúcho e a frieza de um moderno chefe de Estado.
Se há, de fato, mais um outro consenso que pode ser atribuído à figura pública e pessoal de Getúlio Vargas, à “Esfinge de São Borja”, como já foi chamado, seria o quanto ele foi contraditório, o quanto ele foi enigmático, o quanto ele ainda nos intrigará por muito e muito tempo.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de agosto de 2004].
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