Tratamos, na semana passada, daquelas listas e votações inúteis — salvo para uma minoria — feitas sob medida para um público pouco exigente que imagina que, com seu voto, participará de alguma coisa grande, de algo importante, que sua opinião é a coisa maior que existe — quando, na verdade, não é: se o fosse, os nomes para as listas surgiriam de forma espontânea, e não provocada pelo marketing, revistas, sites, etc. E a mais nova bobagem do gênero é esta eleição das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Substituindo as sete maravilhas da Antigüidade (as Pirâmides de Gizé, os Jardins Suspensos da Babilônia, o templo de Ártemis, em Éfeso, o Mausoléu de Halicarnasso, o Colosso de Rodes, a estátua de Zeus, em Olímpia, e o Farol de Alexandria), querem exaltar outras sete, de uma lista de vinte e uma. São elas: a Acrópole de Atenas, na Grécia; o misto de cidade e palácio do Alhambra, em Granada, Espanha; a cidade-templo de Angkor Vat, no Camboja; a basílica de Santa Sofia, em Istambul, Turquia; o castelo de Neuschwanstein, em Füssen, Alemanha; as ruínas de Chichén Itzá, no México; o Coliseu de Roma, Itália; o Cristo Redentor, do Rio de Janeiro; a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, Estados Unidos; as estátuas da Ilha de Páscoa, no Chile; a Grande Muralha da China; o Kremlin de Moscou, Rússia; as ruínas de Machu Picchu, no Peru; o teatro de ópera de Sydney, na Austrália; as ruínas de Petra, na Jordânia; as Pirâmides de Gizé, no Egito; o círculo de pedras de Stonehenge, na Inglaterra, o palácio-túmulo do Taj Mahal, em Agra, Índia; o templo Kiyomizu-dera, em Quioto, Japão; a cidade de Tombuctu, no Mali; e a Torre Eiffel em Paris, França.
Os motivos alegados para tal empreita são os mais variados e, todavia, pouco convincentes. Vá lá que os organizadores afirmem que o dinheiro arrecadado pela campanha seja revertido para sítios arquitetônicos ameaçados pela degradação do tempo, pelo descaso das autoridades ou pelo vandalismo. Mas quais seriam eles? Até agora, não ouvi uma só palavra. A coisa toda parece, mesmo, um grande golpe de propaganda, cuja finalidade é valorizar certos destinos turísticos, e render alguns cobres aos organizadores. É uma coisa a se pensar, aliás, como a Unesco — aquele braço da ONU que trata do patrimônio histórico e cultural — foi seduzida pelo projeto...
A própria concepção que o norteia, diga-se, é muito boba. Tal tipo de lista tinha sentido na Antigüidade, quando o conhecimento era, muitas vezes, submetido a rígidos esquemas de memorização, que incentivavam a reunião de informações em grupos fechados e excludentes, enfeixados por números “mágicos” — as três graças, os quatro elementos e os quatro temperamentos, as sete artes, as nove musas, os doze signos do zodíaco e por aí afora, tudo forçado a se relacionar entre si e explicar um ao outro. Que se fizesse tal coisa nos tempos de Antípatro de Sídon e Fílon de Bizâncio, autores das primeiras listas, compreende-se. Que se repita o mesmo procedimento, hoje, quando nada parece se relacionar com nada — porque, desde o Iluminismo do século XVIII, ninguém mais necessita de uma síntese suprema, completa, sobre tudo e todos —, creio que não passa de pura tolice. Ou má-fé dessa gente de propaganda, que cria necessidades que não existem, e tenta passar por reportagem o que é simples anúncio.
Quanto à sucessão de equívocos nesta história toda, ela é impressionante. Os leitores duvidam? Pois vejamos. A locução Sete Maravilhas do Mundo Moderno pressupõe, na opinião de qualquer pessoa mais atenta, que se refere a novas maravilhas a serem louvadas. Ou seja, monumentos erigidos posteriormente àqueles da Antigüidade clássica, posteriores aos que faziam parte das primeiras “listas”. Então, pergunta-se, por que incluir entre os “novos” as pirâmides de Gizé, que, aliás, já faziam parte das “velhas” maravilhas? Por que o círculo de Stonehenge, na Inglaterra, tão antigo, se não mais, que as próprias pirâmides? E a acrópole de Atenas? Que é belíssima, não resta dúvida. Mas ela já existia quando da primeira seleção e, curiosamente, não foi inclusa nela. É mais velha que o Mausoléu de Halicarnasso, que o Colosso de Rodes e o farol de Alexandria, tão antiga quanto a estátua de Zeus, em Olímpia, e só um pouco mais nova que o templo de Ártemis, em Éfeso; em suma, contemporânea de cinco das sete maravilhas “antigas”.
Poderíamos gastar muita tinta sobre outras impropriedades quanto à escolha, discutindo as razões que levaram à inclusão deste ou daquele monumento e à exclusão de outros. Pensei mesmo em fazer minha lista pessoal das novas maravilhas, que incluiria construções que admiro e que não foram contempladas (como o santuário de Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal), ao lado de algumas retificações (o Fórum romano como um todo, e não só o Coliseu) e até outras de que particularmente não gosto, mas que são muito mais grandiosas do que algumas das relacionadas (o Plano-piloto de Brasília, o estádio do Maracanã, a hidrelétrica de Itaipu — com a vantagem, ainda, de serem brasileiras).
A questão, no fundo, é que tudo isto não passa de uma grande bobagem. E, o que é pior, nem um certo cuidado com as referências históricas está sendo tomado. Veja-se o caso do Cristo Redentor, o “representante brasileiro”. Inúmeros sites, inclusive um da Câmara dos Deputados, dão como autores do monumento o brasileiro Heitor da Silva Costa (1873-1945) e o escultor francês Paul Landowski (1875-1961), omitindo quem verdadeiramente desenhou o projeto da estátua, o artista brasileiro Carlos Oswald (1882-1971), um dos maiores nomes da gravura nacional. Este é nosso candidato, esses são seus cabos-eleitorais, e a quanto à qualidade da disputa... não digo mais nada...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de junho de 2007].
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