sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

“Greve de fome”, greve de idéias ou dieta rápida?

Quando Roma conquistou Israel, muitos hebreus retiraram-se para o deserto e impuseram-se violentos jejuns, que só teriam fim, pretendiam, quando a dominação estrangeira terminasse. Não sabemos quantos morreram de fome, ou quantos desistiram. Sabemos, isto sim, que a ocupação dos romanos durou séculos. Mais tarde, quando os muçulmanos conquistaram boa parte do Mediterrâneo, multidões em toda a Europa jejuaram para que os invasores deixassem aquelas terras. Todavia os grupos islâmicos permaneceram por várias centenas de anos, motivando as Cruzadas, durante as quais jejuou-se para que as empresas dos cristãos triunfassem. E triunfaram, num primeiro momento. Mas tudo desmoronou poucas décadas depois, independentemente de quantos jejuns fossem feitos. Naquela mesma Idade Média, vários romances galantes traziam também episódios onde se jejuava: o cavaleiro, para conseguir sucesso na aventura que lhe dará como prêmio a mão da dama de seus sonhos; a donzela, que jejua para que seu amado retorne, ou porque se opõe a um casamento que lhe querem impor, ou para provar que mantêm intacta sua honra; a mulher casada, também pelo retorno do marido ou para demonstrar que lhe permanecera fiel na ausência; e até mesmo o grande senhor ou rei, geralmente para espiar seus pecados.
Quando a Peste Negra assolou a Europa pela primeira vez, pela segunda, pela terceira, etc., milhares de pessoas se abstiveram de alimentos até que aquele flagelo fosse interrompido pela mão de Deus. E aos mortos pela peste, somaram-se os mortos pela fome. Pois a peste só acabou quando Deus quis e quando os homens adquiriram melhores hábitos de higiene. Durante muitos séculos, aliás, o jejum foi uma prática religiosa mais do que comum. É rara a vida de santo na qual não se encontrem passagens referentes às mortificações que incluíam a privação voluntária de alimentos. Às vezes, nem tão voluntária assim: nas ordens religiosas era comum que um superior determinasse tal prática a um neófito ou membro meio preguiçoso, fraco na disciplina, teimoso ou inconstante. E de uma maneira geral, a abstinência de comida é ainda praticada no mundo todo. Fazem-no os judeus, os muçulmanos, e teoricamente os católicos: na Sexta-Feira Santa é comum substituir-se a carne por peixe, não raro, aliás, um modesto bife por uma soberba bacalhoada — e depois dizem que é jejum...mas isto não vem ao caso.
Nos tempos modernos, mais precisamente, de fins do século XIX para o XX, o jejum foi retirado de seu caráter sacralizado e acabou laicizado, como quase tudo naquele período. E como vivia-se, respirava-se e transpirava-se política por toda parte, eis que o venerando jejum tornou-se “greve de fome”. O maior praticante desta modalidade de auto-flagelação como forma de protesto político, como todos sabem, foi o líder indiano Mohandas Gandhi, que perpetrou nada menos do que quinze delas. É verdade que, graças a seu sacrifício, conseguiu, dentre outras coisas, a independência de seu país, mas para isso ajudou-o a imprensa, ávida por espetáculos — Gandhi tinha plena consciência disto e era um mestre em manipulá-la. Mesmo assim, a maior parte das pessoas sérias se opunha àquela prática. Pois as reivindicações políticas, como toda pessoa de bem o sabe, e como já o sabiam naquela época, devem ser compreendidas como um ato coletivo, movido pela sociedade, não por algum santo, ou mártir ou por alguém que anseia o foco dos holofotes.
Quanto à própria expressão “greve de fome”, ela é uma daquelas construções vernáculas que todo mundo entende à primeira vista, mas que é tão inexata quanto, digamos, “risco de vida”. Hoje em dia, todos os avisos alertando quanto a um perigo mortal, trazem, corretamente, a locução ”risco de morte”, pois é disto que se trata. Na linguagem sucinta de tais emblemas, sua sinalização é como que uma resposta a uma pergunta formulada pela pessoa que do perigo se aproxima: — Qual é o risco? — indaga-se. Risco de morte — esclarece a placa.
Só que com a expressão “greve de fome” não funciona do mesmo jeito. Ela é contraditória desde o princípio, e ainda mais grave quando aplicada a tão somente um indivíduo. Em primeiro lugar, se a greve é a cessação de alguma coisa, como prova qualquer dicionário, o correto, deveria ser “greve de comida”, pois é da comida de que alguém se abstêm, não da fome — esta, aliás, acompanhará a pessoa durante todo o processo. Mas ainda assim o termo seria inexato. Pois uma greve pressupõe uma ação coletiva — como, mais uma vez, explicam os melhores dicionários — e não um ato isolado. Logo é impossível uma “greve de fome” levada à cabo por um único indivíduo. “Jejum em protesto” talvez fosse melhor. Ou, para se manter o enfoque político, “greve de comida”, que é esquisito, todavia mais apropriado.
Voltemos agora ao nosso país, início do século XXI.
O recente e constrangedor espetáculo protagonizado pelo ex-governador Anthony Garotinho, que foi menos um protesto político do que uma anedota com ares de reality show — apresentado por ninguém menos do que a governadora do segundo estado mais rico do país! —, é mais um desses episódios sem sentido, sem razão e sem vergonha que somos forçados a assistir no Brasil. Um sujeito é acusado de falcatruas, queixa-se que a imprensa não lhe dá espaço para sua defesa — só que ele possuiu um programa diário de rádio, pobrezinho! — e parte para uma pantomima dessas que, aliás, não é nem original: ou melhor, é bastante original quanto aos motivos...
Em suma, a questão, portanto, não é a de uma “greve de fome” mas, sim, de uma verdadeira greve de idéias, de projetos, de responsabilidade. É de se surpreender que um partido com a tradição do PMDB mantenha em seus quadros tão histriônico filiado, e que cogite até em lançá-lo candidato à Presidência da República. Ou, pensando bem, pesando melhor as coisas, talvez tudo se explique exatamente por isto, este pode ser o motivo pelo qual o ex-governador tenha fechado a boca: notoriamente fora de forma, e ávido como é por um bom naco, talvez tenha resolvido aguçar ainda mais o apetite e, ao mesmo tempo, perder uns quilinhos, antes de atacar o formidável banquete que tanto anseia...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de maio de 2006].

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