Mostrando postagens com marcador Viagem Sentimental à roda de meus livros - a série. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Viagem Sentimental à roda de meus livros - a série. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – VI – O Ódio emburrece

As pessoas, em geral, têm o hábito de considerarem as palavras equívoco, engano e erro como mais do que sinônimos, as consideram, praticamente, como termos de idêntico significado, o que, é claro, não são. Há toda uma gradação entre elas, para dizer o mínimo. Por exemplo, podemos dizer que uma mulher se equivoca ao escolher um mau sujeito como marido. Que ela se engana ao pensar que ele pode melhorar, e que ela erra ao continuar vivendo com ele. Ou melhor, pensemos em Cristóvão Colombo. Quando chegou ao Novo Mundo, ele equivocou-se ao julgá-lo ser a Índia. Mais tarde ele enganou-se ao considerá-lo pouco distante da Ásia, e errou, renitentemente, ao não considerá-lo um novo continente. Último corolário: metade do mundo se equivocou com a ascensão do nazifascismo nos anos 1920-1930, julgando-o uma alternativa aceitável à inepta democracia liberal (francesa, alemã e norte-americana), ao odioso imperialismo (britânico) e ao temível comunismo (russo). Metade daquela metade se enganou ao não perceber os horrendos ataques movidos por aqueles regimes contra a liberdade e contra os direitos humanos em geral. E uns tantos ainda erram ao julgarem tais formas de poder como viáveis e justas – sim, é de pasmar, mas há ainda quem pense assim.
Fazendo-nos valer do último exemplo, ele traz à memória o Integralismo, a nossa versão tapuia do Fascismo, encarnado na figura de Plínio Salgado (1895-1975), um bom escritor que se tornou um mau político. Todo mundo associa, prontamente, os galinhas verdes (como eram chacoteados, pelo uso das camisas daquela cor, e por seu comportamento de bando, cacarejando as verdades ditas pelo galo,) ao seu líder máximo, mas muita gente tida como boa foi integralista ou flertou com aquele movimento. Tais foram os casos, dentre outros, dos escritores Augusto Frederico Schmidt, Gerardo Mello Mourão, Ribeiro Couto, José Lins do Rego, Adonias Filho e Madeira de Freitas (o Mendes Fradique, autor da História do Brasil pelo método confuso), dos historiadores Hélio Viana e Américo Jacobina Lacombe, do jurista Miguel Reale (ideólogo máximo do Integralismo, além de conterrâneo de Plínio Salgado) e de quatro insuspeitáveis senhores: o político San Tiago Dantas, o mais tarde cardeal Dom Hélder Câmara e o poeta Vinícius de Morais. Desta claque fazem ainda parte o folclorista Câmara Cascudo e o escritor e historiador Gustavo Barroso.
Câmara Cascudo, como escritor e pesquisador, assemelhava-se a um caçador que encontra um coelho minúsculo, onde ninguém avistou nada, desentoca-o e o abate com um tiro de fuzil! Foi um caso raro de alguém que se equivocou, se enganou e errou politicamente até o fim da vida, apoiando, até seu último sopro como vivente, a Ditadura Militar de 1964. Mas Gustavo Barroso foi ainda mais além. Se não viveu para assistir ao golpe, morreu como um empedernido defensor das ditaduras (a última foi a de Salazar) e um declarado antissemita. Seu caso é muito mais de um erro, permanente e reiterado, do que de equívoco ou engano. Duvidam? Pois vejam. Dizem que o Diabo é o pai do erro. Prefiro a máxima que afirma que “errar é humano, perdoar [ou corrigir-se] é [dom] divino, e persistir no erro é diabólico”. Porque o ódio por uma etnia, cultura, religião é tão certamente um erro quanto igualmente diabólico. E, o que é quase tão grave quanto, o ódio emburrece. E o antissemitismo, ou antijudaísmo de Gustavo Barroso, certamente o emburreceu.
Li, recentemente, o primeiro volume de sua obra História Secreta do Brasil, no qual ele atribui todas as mazelas sofridas por nosso país, do descobrimento às vésperas da Independência, a uma conspiração judaica para a dominação do mundo e exploração dos povos. Os mesmos argumentos defendidos pela imbecil e criminosa falsificação literária (já largamente demonstrada enquanto tal) que são Os Protocolos dos Sábios do Sião (nem um pouco coincidentemente editados e publicados por Gustavo Barroso, em 1936, um pouco antes de livros de sua autoria com escancarados títulos tais como A Sinagoga Paulista (1937), A Maçonaria: Seita Judaica (1937) e Judaísmo, Maçonaria e Comunismo (1937).
Pois bem, a burrice odiosa, ou o ódio burro de Gustavo Barroso, subverte o que de mais importante ele pretendia na sua História Secreta: o convencimento do leitor. Porque, de fato, ele, em grande parte, nos convence da presença judaica nas terras do Brasil muito antes mesmo que este recebesse o seu nome. Tal seria o caso, por exemplo, de João Ramalho, genro do cacique Tibiriçá (demonstrado, anteriormente, por Teodoro Sampaio, Orville Derby e Horácio de Carvalho, dentre outros, na Revista do IHGSP, v. VII, 1902, pp. 255-368 – meu exemplar da mesma edição pertenceu ao ex-governador/presidente estadual de São Paulo Bernardino de Campos, mineiro de Pouso Alegre). Barroso também afirma (baseado quase que exclusivamente em Solidônio Leite, que ele considera um defensor entusiástico dos judeus – e, no entanto, o cita...) que o capital empregado na exploração do pau-brasil e, posteriormente, na produção da cana-de-açúcar, bem como seu comércio e distribuição pela Europa, além do utilizado no tráfico de escravos era proveniente dos cristãos-novos (judeus batizados à força e que, não necessária ou suficientemente, abraçaram a fé cristã). Aos judeus também atribui, de um lado, os planos da invasão holandesa no Nordeste, e, por outro, a facilitação para tal fim promovida pelos cristãos-novos da mesma região, que atuavam como espiões. E mais ou menos conclui o primeiro volume, alegando que os judeus, controladores do comércio de diamantes no mundo – que, se não é um fato completo, é 99% dele) – desvalorizavam os brilhantes brasileiros, pagando por eles uma mixaria aos portugueses e faturando alto nos mercados europeus.
Não há como discordar de muitos dos argumentos apresentados por Barroso. Salvo que, em primeiro lugar, onde ele vê cobiça, podemos entender como pioneirismo. Onde enxerga exploração, talento empreendedor. Conspiração? Por que não uma eficiente organização comercial? Depois, tanto o tráfico negreiro, quanto a baixa avaliação das gemas e brilhantes, que não provindas das possessões orientais inglesas – como até hoje tal se verifica, no caso das pedras – se deram por responsabilidade absoluta dos ingleses (e, note-se, os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290, retornando somente por volta de 1656 – o personagem Shylock, de O Mercador de Veneza, de Shakespeare, portanto, foi construído estritamente na base de um estereótipo, não da observação factual do autor).
Por fim, o que mata a intenção – maléfica – de Gustavo Barroso são os seus recorrentes comentários à perfídia dos judeus, à sua covardia, usura, despotismos, crueldades, canalhices várias, seus complôs demoníacos, suas degenerações morais supostamente plasmadas em seus corpos e feições. Em suma, não dá para engolir. Quando estamos quase convencidos de sua tese, ele nos afronta com as generalizações mais grosseiras e vulgares, avessas figadalmente à ética científica e moral, à lógica, à História enquanto disciplina, enquanto registro dos fatos e gênero literário, em suma, a toda e qualquer retórica plausível. Seu ódio o emburreceu.
É lamentável o esquecimento a que foram relegadas as obras de Barroso relativas à colonização portuguesa na Ásia, ricas de informações e análises. Por outro lado, se um homem pode ser medido por sua obra, ele recebeu aquilo que merecia. Um tácito esquecimento. E que assim seja!


[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP,em 26 de março de 2011].

domingo, 12 de junho de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – V – Os salvados de naufrágios

Acredito que uma das principais funções de um historiador, ou interessado na História, é não tanto conhecer, em minúcias, o mundo em que vivem, mas, sim, o mundo que os precedeu. Explicando melhor: de que adianta saber das mais novas descobertas da Física, por exemplo – que podem vir a ser questionadas na próxima semana, no mês vindouro ou no ano que vem – se desconhecemos todo o cabedal que a precedeu, por décadas, séculos, milênios? É muitíssimo mais útil ao estudioso da História, portanto, compreender a Física aristotélica e ptolomaica, bem como a longa vigência das mesmas e, destas, à sua passagem para as teorias de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton (bem como a repercussão de suas obras no tempo em que se tornaram públicas) do que, pontualmente, conhecer a mais nova teoria em vigor. Saber que estrelas, satélites e planetas foram, mui antigamente, vistos como deuses, depois como corpos celestes não muito diferentes da Terra, presos a esferas fixas de cristal (os globos armilares, equivocadamente chamados de astrolábios pelos decoradores, que adornam tantas são reflexos ainda deste pensamento), interessa muito mais a um estudioso dos fatos passados, e da cultura que estes geraram, do que a massa de Marte, a órbita de Saturno e se Plutão deve ou não ser considerado um planeta: estes são assuntos para os historiadores do Futuro.
Assim, retornar às fontes, desentranhar o passado por meio de seus testemunhos documentais e compreender a repercussão dos mesmos em seu período, é a verdadeira função do historiador ou do estudioso da História. Além de, é claro, situar o âmbito de certas influências. Por mais moderno que possa ter sido um texto, no passado, se ele pouco circulou, evidentemente não pode ser tomado como súmula do pensamento de toda uma época, como um formador de opiniões. São indícios, não índices. O mesmo vale para certas teorias que, de tão polêmicas, foram rechaçadas em seu nascedouro, sendo somente adotadas séculos depois: sinalizam, de fato, tais ou quais correntes de pensamento num dado período, mas, evidentemente, não são provas de que todos compartilhavam delas. A importância de um livro, portanto, é muito mais útil quando sabemos de seu impacto em seu tempo, do que por acharmos que o mesmo já antevia algo de nossa própria época. Ou, pior ainda, quando julgamos que ele já nasceu como um clássico, foi lido e relido por séculos, num contínuo até os dias atuais.
Tive a feliz oportunidade de adquirir, há poucos anos, um famoso livro do qual somente ouvira falar. Trata-se de uma versão espanhola moderna (Madri: Editora Nacional, 1983 929p.: il.) da "Genealogia dos deuses pagãos" (Genealogia Deorum gentilium, 1374), de Giovanni Boccaccio (1313-1375), autor do célebre Decamerão (1371). O livro é um verdadeiro manual de mitologia grega e romana, que reúne os principais deuses e heróis daquelas culturas – ou melhor dizendo, da cultura clássica e, obviamente, ocidental. E graças ao seu índice remissivo, moderno, funciona também como uma espécie de dicionário. Nele, Bocaccio não só compõe um resumo daquelas antigas deidades, como revela duas importantes informações. A primeira é que, apesar de Homero ter sido a base da educação moral e gramatical dos antigos gregos, suas obras não foram traduzidas para o Latim. E as cópias no idioma original que circularam no Ocidente, desapareceram com a queda do Império Romano Ocidental (476 d.C). Ou seja, desde então, e por quase toda a Idade Média, sabia-se de Homero, da "Ilíada" e da "Odisséia", mas ninguém mais o lera na íntegra, só excertos, mal e mal traduzidos. E, em segundo lugar, que a primeira versão latina – considerada péssima, aliás – devia-se justamente a Bocaccio e ao seu professor de Grego, o calabrês que viveu na Grécia, ou ateniense de nascimento, Leôncio Pilato – o qual, até onde sei, nada tem a ver com aquele que entrou à força no Credo.
Por outro lado, outras fontes preciosas quanto à mitologia greco-romana puderam sobreviver aos séculos. Foi o caso d’A Argonáutica, de Apolônio de Rodes (c. 295-230 a.C.), texto em grego que sabe-se lá porque foi conservado; das Metamorfoses, do latino romano Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C) – talvez o maior bestseller de todos os tempos, em virtude de suas inúmeras cópias, impressões e reimpressões por quase dois mil anos; e também da obra do romano Cícero (106-43 a.C) – Sobre a natureza dos deuses – , supremo mestre da língua latina, cuja influência apavorou tanto Santo Agostinho (354-430), quanto São Jerônimo (347-420), que por vezes se consideravam, quanto aos seus escritos, como mais de origem ciceroniana do que provinda do Verbo Divino. E ambos estavam entre os primeiros Doutores da Igreja, e ao último coube, nada mais nada menos do que a versão da Bíblia, do grego e hebraico, para o latim. Sinta-se, daí, a importância de Cícero.
Um caso ainda mais interessante quanto à sobrevivência de certos documentos, que tinham tudo para desaparecer, é o que envolve o filósofo grego Celso (séc. II d.C.), e sua obra Discurso verdadeiro, que passou para a posteridade como Contra os cristãos. A versão original de seu texto – no qual ataca as crenças dos judeus e dos cristãos (estes, vistos como pertencentes a uma mera seita judaica, cismática: quase prevendo a futura piada que diz que, onde há dois judeus, há três sinagogas) e tece horripilantes comentários acerca da origem de Jesus e do caráter dos apóstolos – foi não só pouco lida em sua época, como desapareceu por completo. Todavia, suas principais ideias, quase que palavra por palavra, foram guardadas para a posteridade por Orígenes (c.185-253), Padre da Igreja, numa obra intitulada, justamente, Contra Celso. Ou seja, com o fim de combater Celso, Orígenes acabou, paradoxal e ingenuamente, conservando as teorias de seu opositor!
Já li, e conservo, as obras aqui citadas, com exceção da última, de Orígenes, da qual conheço somente alguns excertos. Não me sinto à vontade para endossar muitas das idéias do Discurso verdadeiro – como o fez Voltaire, citando-o quase textualmente em seu Dicionário filosófico e nas Questões sobre os milagres, já mencionadas – mas até onde as compulsei, salvo algumas terribilíssimas suposições de Celso que não cabem aqui, concordo que seu discurso é essencialmente lógico, passível de ser aceito como uma contraprova histórica às provas religiosas, cujo fundamento é todo teológico. Mas é preciso ler Orígenes, portanto, chega de especulações.
O curioso nestas circunstâncias é que tudo parece retornar ao Logos, à palavra, ao discurso. Seja ele lógico, adquirido e aperfeiçoado pelo Homem, ou teológico, ditado por Deus, e apreendido pelos homens sabe-se lá de que forma. E depois dizem que as ciências exatas é que são as verdadeiras adversárias da religião...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – IV – Editores à força

Na semana passada, tratei de sebos, físicos e virtuais, que têm ótimos acervos, enriquecidos por muitos títulos. São, todos eles, alternativas eficientes para quem procura verdadeiras raridades, ou até livros mais comuns, e não têm como pagar por eles, nem acesso à bibliotecas que os emprestem, até mesmo por não terem exemplares da referida obra.
Mas aqueles que procuram raridades fora de catálogo, devem recorrer a sítios interessantes como o www.books.google.com e o – na minha opinião, muito melhor – www.archive.org. O primeiro tem dois defeitos: um de natureza moral, outro de natureza técnica. Do ponto de vista moral porque sua ação sobre os acervos, e seu critério de cópia, são altamente excludentes e monopolistas. Robert Darnton, historiador americano que é, atualmente diretor da biblioteca da prestigiadíssima Universidade Harvard, tem falado exaustivamente quanto a isto. E, do ponto de vista técnico, ressente-se, o books.google, do fato de que muitos dos livros que anuncia só podem ser visualizados (por que não lidos?) parcialmente. Já o segundo, além das riquíssimas obras que possui, tem uma apresentação impecável e total dos volumes, que podem ser baixados de várias maneiras. A ponto de, para quem tenha certa preguiça ou desconforto em ler na tela do computador, poder imprimi-las e, quem sabe, encaderná-las, rumo à coleção incompleta que grita nostálgica da estante. Ou, também, a uma nova a ser criada, naquele nicho onde se abrigavam Ian Fleming, a Enciclopédia do Comércio, etc.
Caso alguém queira optar pelas reimpressões, elas não saem muito caras, graças às novas técnicas e à concorrência entre quem oferece tais serviços. Há, inclusive, uma editora norte-americana – Kessinger Publising Rare Prints (www.kessinger.net) – que publica um sem fim de raridades, a grande maioria em língua inglesa, as quais podem ser adquiridas pelo próprio sítio ou por outras de importação. Mas o preço sobe às alturas, graças ao envio e à tributação. O irônico da coisa toda é que muito do que eles publicam é retirado diretamente do Google books, imagem por imagem, e com as falhas que este sistema de cópias de livros reproduz ad nauseam.
Neste ponto poderia ser concedida uma trégua aos pesquisadores. Eu mesmo já me meti em arquivos, fotografando livros, cujas condições eram das mais infelizes. Tente-se manusear um livro de trezentos anos, calçado de luvas cirúrgicas. No rosto, uma máscara de mesma função. A temperatura ambiente elevada, fazendo a testa porejar o suor adquirido durante dias de má alimentação e pior hospedagem. O tempo correndo até o quase sempre iminente fechamento do acervo – decorrente da espera, interminável, até que se encontrem a obra, e do horário do almoço dos funcionários, sempre dilatável. A mesa, ou atril, onde o volume que nos é exposto, não correspondendo às mínimas noções de ergonometria ou conforto. E a iluminação, parca. Misture tudo isso e acrescentem a dificuldade no manejo de uma sensível câmera fotográfica digital, pelas mãos cujo tato foi prejudicado pelas luvas . Sem falar que não se manuseiam livros tão antigos como se fossem uma lista telefônica. Moral da história: passado um certo tempo, qualquer um pensa em se dedicar a outro ramo de atividades. São raros, aliás, os pesquisadores de acervos religiosos que não se tornem ateus ou agnósticos – e violentamente anticlericais – depois de um certo tempo, tal o montante de imposições, restrições e suspeições que são levantadas em torno de quem pesquisa. Os poucos que se livram de tais achaques são os membros da famiglia. Mas pouca gente lê o que eles escrevem, tal o aspecto ínfimo de seus trabalhos, em geral sonsas e soníferas cronologias das ordens religiosas, encômios a um Frei Fulano ou Bispo Beltrano de quem ninguém mais lembra e só.
Porém, retornando aos sítios provedores de obras raras, as quais são essenciais para o conhecimento geral de nossa cultura ocidental, recomendo a todos que busquem tais fontes. Um sem fim de documentos encontram-se ali, à nossa disposição. A bibliografia mais rara, os estudos mais distintos e vários, encontram-se ao alcance de poucos “cliques”.
Não há, portanto, qualquer motivo para que se diga, em nosso país, que os livros são inacessíveis pelo seu custo. Que compreendam isto os leitores, mais ou menos relapsos, os professores preguiçosos, os bibliotecários ineptos e os administradores da coisa pública iletrados, diante das verbas que têm de gastar nas pastas de “Educação e Cultura”. Livros são caros apenas para aqueles que não gostam de ler. Quem gosta, de fato, troca a picanha e a cervejada por eles. Um bom livro é melhor do que a melhor iguaria servida à mesa, e sustenta uma pessoa, moralmente, muitíssimo mais do que mil porcos no rolete, destes que são assados em cerimônias políticas, para o contento do eleitorado...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 05 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – III: De Sebos e afins

O sítio de buscas Estante Virtual (www.estantevirtual.com) é uma ótima oportunidade para quem procura livros usados, baratos ou raros, ou ainda semi-novos por um bom preço. Graças a ele completei diversas coleções ou séries que, havia anos, lançavam-me sorrisos banguelas das prateleiras. Tal se deu com as obras completas de Gil Vicente, as Reminiscências da Academia, de Almeida Nogueira, os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, o Palmeirim de Inglaterra e As Vidas de Vasari – incompleta na tradução. Hoje ostentam um belo sorriso colgate lá das seções em que se encontram. Exagero. Livros novos, ou bem cuidados, ao lado de velhos, brilham quais dentes postiços numa boca veneranda.
Por meio do referido serviço virtual ainda quero conseguir os volumes que faltam do Movimento Academicista Brasileiro, já mencionado, da minha própria L’art de connaitre les hommes par la physionomie (citada anteriormente, da qual tenho cinco dos oito volumes, da primeira edição), os números que ainda me faltam da revista Barroco (quase impossíveis, sobretudo o 6, 7, 9 e 11), bem como do Correio Braziliense ou Armazém Literário, de Hipólito José da Costa. Sem falar no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, já que o Brasileiro, de Sacramento Blake, é impossível de se encontrar. Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai estão a três cliques de se formarem em ordem unida numa estante de casa. E minha História da Caricatura no Brasil, deixará em breve de se apresentar, caricatamente, sem o primeiro volume.
Tanta praticidade tem seus custos.
O primeiro é uma certa perda no prazer do garimpo em sebos, quando vislumbramos, sob pilhas de livros pouco interessantes, a obra, aquela que procuramos há décadas, ou de cuja existência meramente suspeitávamos, quando não desconhecêssemos novas edições para além das primeiras, inencontráveis. Um caso destes, de grande felicidade, ocorreu-me quando encontrei uma edição portuguesa de 1942 do Palito Métrico e correlativa Macarrónea latino portuguesa (em 1792 encontrava-se já na quarta edição). Trata-se de um coletânea de poemas em português e latim aportuguesado (macarrônico) escritos pelos estudantes de Coimbra, no século XVIII, muito conhecida na história da literatura e, todavia, pouco lida, junto à qual, possivelmente, nossos poetas árcades mineiros Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto e Francisco de Melo Franco, deixaram suas contribuições – ou foram influenciados por ela.
Já o segundo custo é no bolso mesmo. Como vários sebos são cadastrados no sítio, tão logo um deles encontre um livro com ar de raridade, põe-se a pesquisar os preços do mesmo junto à concorrência. E daí inflacionam-se os custos e deflaciona-se a sorte do leitor que busca por uma raridade por uma pechincha – o que não se trata de má-fé, mas de regra do jogo. Uma situação destas ocorreu-me há menos de um mês num sebo desorganizado e mal gerido. Descobri, numa pilha de livros em petição de miséria, junto ao chão, uma primeira edição do romance Caetés (então grafado Cahetés), de Graciliano Ramos. Dado o desleixo à que o volume fora relegado, pensei que desconhecessem o seu valor, e que poderia pagar uns vinte ou trinta reais, se tanto. De fato, ignoravam completamente do que se tratava, mas depois de uma consulta ao referido sítio de buscas, ofereceram-me o livro por 400 reais, muito além do que vale. Ou seja, uma boa parte do prazer da descoberta dissipou-se no ar. Só não lamentei mais porque já li livro e não sou bibliófilo. E por tal valor encomendo verdadeiras raridades da Europa e que me são de fato úteis e proveitosas. E sem fetiche: plenas na sua utilização.
O mesmo ocorre com alguns livros nem tão raros assim de Direito. Declaro que esta não é a minha praia, felizmente, há muitos anos, mas, para uma melhor compreensão de como pensavam, e o que liam, por exemplo, os poetas-bacharéis do século XVIII, achei por bem possuir algum conhecimento a respeito. E procurem-se nomes como Heineccius, ou Pufendorf – celebrados como modelos de pensamento jurídico depois da reforma pombalina da Universidade de Coimbra (1772), e vejam-se os preços que atingem suas obras – geralmente disponíveis em traduções não muito fiéis do alemão para o francês. Chegam aos milhares de reais. Fico pensando quem compra tais livros, frente ao estado geral das leis, da jurisprudência, e da qualidade teórica e estilística que se nota nos processos em geral. Acredito que devam ser advogados e juízes aposentados, todos eles milionários, por volta dos 89 e 120 anos de idade – alguns, talvez, graças à maquilagem e outros reforços da química, ainda na lide.
Mas é um fato que, no quadro geral, o ônus submete-se ao bônus. Pois a possibilidade de se encontrar o mais procurado dos títulos se torna real, sem termos de percorrer corredores escuros, estantes mal arrumadas, erros na classificação das áreas de interesse, etc.
Desde há muito tempo, por exemplo, eu procurava um guia de viagens Baedeker – em vários países da Europa, Baedeker é tão sinônimo de guia de viagens quanto Gillete é de lâmina de barbear. Mas eu queria um anterior à Primeira Guerra Mundial, pelo menos. Vaguei anos entre poeira e mofo atrás de algum. E, graças ao site, basta digitar Baedeker, e me apresentam todas as ocorrências. Pense, portanto, o leitor, no título mais esdrúxulo ou raro, e tente a sorte ali. Dificilmente não há de encontrá-lo.
Um outro aspecto curioso, que se verifica tanto nos sebos reais quanto virtuais, é seu aparente desconhecimento de que o brasileiro letrado não é mais monoglota. Dessa maneira, livros em outras línguas, em geral, são vendidos a preço de banana. Procure-se uma tradução, até mesmo do inglês, que quase toda gente lê desde os anos 1980, e veja-se o preço da versão original. Já vi, estas, serem vendidas por um terço do que era pedido pela obra traduzida.
Em suma, para quem gosta de livros, há várias possibilidades de adquiri-los, sem ter que pagar por eles os olhos da cara. Não há mais motivo, portanto, para certos leitores alegarem que não compram livros porque são caros demais ou por morarem longe das capitais: as obras de estudo e trabalho tem seus preços cada vez mais baixos, assim como certos bestsellers – que, passado algum tempo, servem apenas para calço de porta, desde que sejam graúdos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de fevereiro de 2001].

Viagem sentimental à roda de meus livros – II



O estudo da história conduz muitas vezes a áreas bastante curiosas. Uma destas é a que trata da crença em valores, práticas, tradições, as quais a ciência, em seu curso, acaba pondo por terra – em mais uma prova de que as próprias ciências são históricas...
Um caso exemplar é o da fisiognomonia, ou fisiognomônica, que seria a arte, ou ciência, de conhecer o caráter de uma pessoa a partir de seu rosto, de seus traços faciais. Em linhas gerais, muita gente acredita nela até hoje. Basta pensar na pronta associação que a maioria das pessoas faz entre à visão de alguém de testa alta, atribuindo-lhe uma grande inteligência. Ou uma tendência aos instintos baixo frente a olhos miúdos, à semelhança dos porcos. E alguns tipos excêntricos chegam a afirmar que, enquanto prática científica, tais constatações ainda são válidas. Poucas mentes de juízo, entretanto, levam-nos a sério.
Desacreditada hoje, esta interpretação do caráter pelas feições de seu dono, sobretudo associando-se eventuais semelhanças entre homens e determinados animais, notórios por tal ou qual comportamento, vem de longo tempo. Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) acreditava nela (como pode ser visto na História dos Animais – 491b8-9;492a10 – e em Analíticos anteriores – 2.27), e um tratado (Physiognomonica) versando sobre o tema foi durante muito tempo atribuído a ele. Os romanos lhe deram crédito e a Idade Média os seguiu. Mas seu amplo florescer se deu a partir do Renascimento, graças a Giambattista della Porta (1535–1615) e suas comparações entre humanos e animais (como no caso da primeira ilustração, em que a crueldade da águia, expressa em seu bico voraz, seria também visível na face do imperador romano Sérvio Galba, graças ao seu nariz adunco). E muitos outros os seguiram ao longo dos séculos. O pintor Charles Le Brun (1619-1690), deixou alguns impressionantes desenhos e uma conferência apresentada na Academia Real de Pintura e Escultura tratando do assunto.




Já no século XVIII e princípios do XIX, graças ao espírito do tempo, tais teorias foram proclamadas ciências graças a obra de três homens: Johann Kaspar Lavater (1741-1801), Franz Joseph Gall (1758-1828) e Johann Kaspar Spurzheim (1776-1832). O primeiro, em sua L’Art de connaître les hommes par la physionomie (escrita entre os anos de 1775-1778, mas somente publicada integralmente em 1820), fez um apanhado das idéias já conhecidas e sofisticou-as à luz de suas próprias observações. Mas os dois seguintes criaram a Frenologia, uma ciência capaz de conhecer o caráter dos homens (e seu grau de criminalidade) pelo formato da cabeça, analisando caroços ou protuberâncias localizados em determinadas partes do crânio (veja-se o mapeamento das áreas na ilustração acima).
A popularidade de tal teoria foi imensa, no tempo e no espaço. O mundo letrado inteiro a conheceu e por todo globo cientistas passaram a medir crânios dos mais diversos indivíduos, da Patagônia à China, do Congo ao Alasca. Algumas vozes, entretanto, já naquela época, levantaram-se contra tais idéias – curiosamente um dos primeiros críticos foi o Imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), que, segundo a Duquesa de Abrantes, Laure Junot, considerava o sistema de Gall “uma loucura”, “destruidora de toda a ordem e de toda lei” (Memoirs of Napoleon, his court and his family. Londres, 1836, vol.2, p. 256).
Uma prova de sua influência no mundo moderno, é que as próprias teorias de Cesare Lombroso (1835-1909), o “pai da criminologia”, derivam da Frenologia. E esta, sobretudo em certos países, vicejou por muito tempo.
Como estudo este tipo de interpretações, dentre outros temas, adquiri recentemente um livro, A System of phrenology (c.1820), de George Combe (1788-1858), um advogado escocês que acreditava piamente nas idéias de Gall e Spurzhein. E chama a atenção que a edição de que disponho tenha sido publicada em Nova Iorque ainda em 1886, época em que médicos como Jean-Martin Charcot (1825-1893) já revolucionavam o estudo dos comportamentos (criminosos, inclusive) e das doenças mentais em termos muito mais científicos: menos em termos de predestinações anatômicas e mais em estudos caso a caso de disposições particulares e dos efeitos do meio. E é realmente curiosíssimo o sucesso que a Frenologia conheceu nos Estados Unidos da América, e do qual parece ainda desfrutar. Creio que tal se deva à forte origem calvinista das mentalidades locais: é mais fácil atribuir o desvio a uma predestinação, a uma marca divina distintiva, do que como resultado da pressão de homens bons tementes a Deus sobre um pobre coitado... Porém, curiosamente, Gall era católico, e provavelmente Spurzheim também. Mas Lavater foi pastor na Suíça e Combe, natural de Edimburgo, com quase toda certeza era calvinista.
Uma nota divertida do livro de Combe, na edição que adquiri, ficou por conta de um de seus antigos donos. Na última folha do volume, em caligrafia bastante clara, encontra-se a seguinte anotação:

property of that
good for nada.
MR Livingston
August 6 1887.

Não imagino quem seja este MR Livingston, que não encontrou propriedade alguma na obra, considerando-a “boa para nada”, mesclando o inglês ao português em seu comentário. O que vale, além da impressão do referido senhor, é a data em que foi registrada. É mais uma prova de que os espíritos críticos existem, nadando contra a corrente das modas e loucuras de seu tempo.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de fevereiro de 2011].

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – I

Quem me conhece, ou lê minhas crônicas, sabe que gosto de livros. Todavia, digo de antemão, não me considero um bibliófilo, ao contrário. Pois, na verdade, tenho sincero horror a esta palavra, que me soa como uma espécie de patologia sexual, uma parafilia, como chamam os especialistas a certas manias naquele campo. Porque, na maioria dos casos, diga-se, os bibliófilos são meio que voyeurs dos livros, fetichistas em busca de um objeto mais por sua procedência ou aspecto do que por seu conteúdo. Para muitos, aliás, este sequer interessa. Vejamos alguns casos.
Conheci um, por exemplo, que colecionava livros do século XVII independentemente dos assuntos. Em sua biblioteca, em lugar de destaque, viam-se diversos in-planos (livros cujo tamanho de página mede por volta dos 60 x 90 cm) em latim (língua que ele ignorava totalmente) e versando sobre teologia (assunto que lhe era absolutamente estranho). E que, claro, jazeriam para sempre sem serem lidos.
Outros têm o fetiche da primeira edição. Só vale esta, e nenhuma outra. Se vier autografada ou com alguma anotação ou ex-libris de uma pessoa ilustre, então seu gozo é incomensurável. Não critico, mas acho meio besta. Primeiras edições têm grande valor econômico, são um tremendo pé-de-meia, sobretudo com autógrafos ou marca de pertencimento a alguém conhecido, mas, em geral, e graças aos cochilos dos tipógrafos, vêm cobertas de erros, que seriam corrigidos na segunda, às vezes terceira edição. Em suma, como costumo dizer, são cadeiras de museu: lindas de se ver e impróprias para sentar, para usar.
Já um outro escolhia seus livros pela encadernação. Fosse ela bonita, adquiria a obra, não importando se o tema fosse jardinagem, pediatria ou jurisprudência. Soube ultimamente que anda passando por apuros para continuar sua coleção, visto que agora os sebos e alfarrábios têm seções específicas de “belas encadernações”, vendidas aos metros para decoradores e pessoas que querem ostentar às visitas seu “apreço pela leitura”. Em suma, tornaram-se disputadíssimos os seus objetos de desejo.
Há outros, da mesma linha, que enchem suas estantes com livros norte-americanos e ingleses, de editoras especializadas em “belos livros” (a Folio Society – www.foliosociety.com – é uma delas), preenchendo suas estantes com belas lombadas e ignorando completamente o que há dentro delas. Algo não muito diferente do que faz uma certa associação de bibliófilos daqui de Pindorama, reeditando em capa dura, com gravuras especiais, monumentos literários como Gabriela, cravo e canela, ou raridades como Iracema, vendidos a preços escorchantes e com a garantia de serem poucos e numerados os exemplares: ou seja, é mais apego ao sentido de grife, exclusiva, do que amor ao livro – que comprem cães com pedigree ou obras literárias dá no mesmo.
E há ainda aqueles cuja volúpia se projeta sobre os livros intonsos, muito comuns até algumas décadas, sobretudo em Portugal, cujos cadernos vinham unidos pelas bordas, sendo necessária uma faca ou régua para separar as páginas (intonso remete à tonsura, o corte de cabelo no alto da cabeça dos clérigos: ou seja, “não cortado”). Um caso que, como se vê, grita aos céus sua proximidade com alguma parafilia.
Não digo, entretanto, que todos os bibliófilos sejam condenáveis. Os que doam seus acervos para instituições públicas merecem um lugarzinho no Céu. Os que vendem, com sorte, acredito, hão de ganhar uma quitinete no Purgatório. Há os que abrem seus acervos para consultas e estudos – merecedores de um apartamento digno junto ao Altíssimo – e os que não só permitem o acesso, mas também publicam fac-símiles de obras raras, ou monografias interessantes à bibliografia e à história dos livros, ou ainda estudos sobre a circulação e divulgação das obras (como foi o caso do excelente Rubens Borba de Moraes), que merecem habitar as mansões celestes com vista para o mar. Já todos aqueles que contam, ou contavam, com uma legião de empregados ou bajuladores, ávidos no garimpo de obras raras em prol de seus senhores, que entesouram, ou entesouravam livros para seu único deleite, retirando-os do contato dos leitores honestos, aqueles, e seus acólitos, não tenho dúvida, hão de residir em barracos no Inferno, vizinhos do próprio Satanás.
Meu amor pelos livros, entretanto, não ignora nenhum dos delitos acima. Simplesmente ele não é exclusivista nos detalhes, nos quais, dizem, é onde o Diabo espreita ou mora. Gosto de livros bem encadernados, com belas estampas ou tipos. De livros antigos e raros. Mas, principalmente, do conteúdo dos mesmos. Que pode relacionar-se, também, com os fatores antes mencionados. Um caso flagrante é o das Fábulas, de Jean de La Fontaine (1621-1695), que todo mundo conhece. Pessoalmente, tenho quatro edições da mesma obra. Uma bilíngue (péssima, aliás, mas como tem o texto em francês, vale como fonte), outra com ilustrações do insuperável mestre do desenho Gustave Doré (1832-1883) – gravadas pelo ótimo Adolphe-François Pannemaker (1822- 1900) –, com traduções das fábulas por Bocage (1765-1805) e demais literatos, outra ainda com uma definição mais nítida das estampas e em tamanho maior, e uma cópia desta para empréstimo. Sim, tenho, nalguns casos, duplicatas de ótimos livros para emprestar aos amigos, o que é uma dupla garantia de não perder nem o livro, nem o amigo.
Também não me furto ao gosto pelos livros de papel de linho ou seda, mas não sou capaz de depreciar um outro impresso naquela péssima celulose dos anos 1940-50 (cujas páginas literalmente se quebram com o passar do tempo) enquanto objeto: seu conteúdo é o que me fez comprá-lo, não sua apresentação. Se a única maneira que tenho de ler suas informações é aquela, que seja!
Meus livros são, portanto, em sua imensa maioria, objetos reais de pesquisa, trabalho e lazer. Gosto de saber que os tenho – ainda que alguns deles só sejam lidos meses depois de sua compra – ao alcance de minha mão, na hora que desejar, sem ter que procurá-los em bibliotecas públicas desorganizadas, ou que não permitem a consulta ou empréstimo de certos títulos; ou ainda tentar comprá-los e descobrir que estão esgotados, que viraram raridades, ou que simplesmente desapareceram – o que, pasmem, é muito mais real do que se imagina: que o diga quem procura, assim como eu, o 2º volume do 2º Tomo d’O Movimento Academicista no Brasil–1641-1820/1822.
E pretendo contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições nas próximas crônicas. Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis. Aguardem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de fevereiro de 2011].