O sítio de buscas Estante Virtual (www.estantevirtual.com) é uma ótima oportunidade para quem procura livros usados, baratos ou raros, ou ainda semi-novos por um bom preço. Graças a ele completei diversas coleções ou séries que, havia anos, lançavam-me sorrisos banguelas das prateleiras. Tal se deu com as obras completas de Gil Vicente, as Reminiscências da Academia, de Almeida Nogueira, os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, o Palmeirim de Inglaterra e As Vidas de Vasari – incompleta na tradução. Hoje ostentam um belo sorriso colgate lá das seções em que se encontram. Exagero. Livros novos, ou bem cuidados, ao lado de velhos, brilham quais dentes postiços numa boca veneranda.
Por meio do referido serviço virtual ainda quero conseguir os volumes que faltam do Movimento Academicista Brasileiro, já mencionado, da minha própria L’art de connaitre les hommes par la physionomie (citada anteriormente, da qual tenho cinco dos oito volumes, da primeira edição), os números que ainda me faltam da revista Barroco (quase impossíveis, sobretudo o 6, 7, 9 e 11), bem como do Correio Braziliense ou Armazém Literário, de Hipólito José da Costa. Sem falar no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, já que o Brasileiro, de Sacramento Blake, é impossível de se encontrar. Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai estão a três cliques de se formarem em ordem unida numa estante de casa. E minha História da Caricatura no Brasil, deixará em breve de se apresentar, caricatamente, sem o primeiro volume.
Tanta praticidade tem seus custos.
O primeiro é uma certa perda no prazer do garimpo em sebos, quando vislumbramos, sob pilhas de livros pouco interessantes, a obra, aquela que procuramos há décadas, ou de cuja existência meramente suspeitávamos, quando não desconhecêssemos novas edições para além das primeiras, inencontráveis. Um caso destes, de grande felicidade, ocorreu-me quando encontrei uma edição portuguesa de 1942 do Palito Métrico e correlativa Macarrónea latino portuguesa (em 1792 encontrava-se já na quarta edição). Trata-se de um coletânea de poemas em português e latim aportuguesado (macarrônico) escritos pelos estudantes de Coimbra, no século XVIII, muito conhecida na história da literatura e, todavia, pouco lida, junto à qual, possivelmente, nossos poetas árcades mineiros Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto e Francisco de Melo Franco, deixaram suas contribuições – ou foram influenciados por ela.
Já o segundo custo é no bolso mesmo. Como vários sebos são cadastrados no sítio, tão logo um deles encontre um livro com ar de raridade, põe-se a pesquisar os preços do mesmo junto à concorrência. E daí inflacionam-se os custos e deflaciona-se a sorte do leitor que busca por uma raridade por uma pechincha – o que não se trata de má-fé, mas de regra do jogo. Uma situação destas ocorreu-me há menos de um mês num sebo desorganizado e mal gerido. Descobri, numa pilha de livros em petição de miséria, junto ao chão, uma primeira edição do romance Caetés (então grafado Cahetés), de Graciliano Ramos. Dado o desleixo à que o volume fora relegado, pensei que desconhecessem o seu valor, e que poderia pagar uns vinte ou trinta reais, se tanto. De fato, ignoravam completamente do que se tratava, mas depois de uma consulta ao referido sítio de buscas, ofereceram-me o livro por 400 reais, muito além do que vale. Ou seja, uma boa parte do prazer da descoberta dissipou-se no ar. Só não lamentei mais porque já li livro e não sou bibliófilo. E por tal valor encomendo verdadeiras raridades da Europa e que me são de fato úteis e proveitosas. E sem fetiche: plenas na sua utilização.
O mesmo ocorre com alguns livros nem tão raros assim de Direito. Declaro que esta não é a minha praia, felizmente, há muitos anos, mas, para uma melhor compreensão de como pensavam, e o que liam, por exemplo, os poetas-bacharéis do século XVIII, achei por bem possuir algum conhecimento a respeito. E procurem-se nomes como Heineccius, ou Pufendorf – celebrados como modelos de pensamento jurídico depois da reforma pombalina da Universidade de Coimbra (1772), e vejam-se os preços que atingem suas obras – geralmente disponíveis em traduções não muito fiéis do alemão para o francês. Chegam aos milhares de reais. Fico pensando quem compra tais livros, frente ao estado geral das leis, da jurisprudência, e da qualidade teórica e estilística que se nota nos processos em geral. Acredito que devam ser advogados e juízes aposentados, todos eles milionários, por volta dos 89 e 120 anos de idade – alguns, talvez, graças à maquilagem e outros reforços da química, ainda na lide.
Mas é um fato que, no quadro geral, o ônus submete-se ao bônus. Pois a possibilidade de se encontrar o mais procurado dos títulos se torna real, sem termos de percorrer corredores escuros, estantes mal arrumadas, erros na classificação das áreas de interesse, etc.
Desde há muito tempo, por exemplo, eu procurava um guia de viagens Baedeker – em vários países da Europa, Baedeker é tão sinônimo de guia de viagens quanto Gillete é de lâmina de barbear. Mas eu queria um anterior à Primeira Guerra Mundial, pelo menos. Vaguei anos entre poeira e mofo atrás de algum. E, graças ao site, basta digitar Baedeker, e me apresentam todas as ocorrências. Pense, portanto, o leitor, no título mais esdrúxulo ou raro, e tente a sorte ali. Dificilmente não há de encontrá-lo.
Um outro aspecto curioso, que se verifica tanto nos sebos reais quanto virtuais, é seu aparente desconhecimento de que o brasileiro letrado não é mais monoglota. Dessa maneira, livros em outras línguas, em geral, são vendidos a preço de banana. Procure-se uma tradução, até mesmo do inglês, que quase toda gente lê desde os anos 1980, e veja-se o preço da versão original. Já vi, estas, serem vendidas por um terço do que era pedido pela obra traduzida.
Em suma, para quem gosta de livros, há várias possibilidades de adquiri-los, sem ter que pagar por eles os olhos da cara. Não há mais motivo, portanto, para certos leitores alegarem que não compram livros porque são caros demais ou por morarem longe das capitais: as obras de estudo e trabalho tem seus preços cada vez mais baixos, assim como certos bestsellers – que, passado algum tempo, servem apenas para calço de porta, desde que sejam graúdos.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de fevereiro de 2001].
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