
O estudo da história conduz muitas vezes a áreas bastante curiosas. Uma destas é a que trata da crença em valores, práticas, tradições, as quais a ciência, em seu curso, acaba pondo por terra – em mais uma prova de que as próprias ciências são históricas...
Um caso exemplar é o da fisiognomonia, ou fisiognomônica, que seria a arte, ou ciência, de conhecer o caráter de uma pessoa a partir de seu rosto, de seus traços faciais. Em linhas gerais, muita gente acredita nela até hoje. Basta pensar na pronta associação que a maioria das pessoas faz entre à visão de alguém de testa alta, atribuindo-lhe uma grande inteligência. Ou uma tendência aos instintos baixo frente a olhos miúdos, à semelhança dos porcos. E alguns tipos excêntricos chegam a afirmar que, enquanto prática científica, tais constatações ainda são válidas. Poucas mentes de juízo, entretanto, levam-nos a sério.
Desacreditada hoje, esta interpretação do caráter pelas feições de seu dono, sobretudo associando-se eventuais semelhanças entre homens e determinados animais, notórios por tal ou qual comportamento, vem de longo tempo. Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) acreditava nela (como pode ser visto na História dos Animais – 491b8-9;492a10 – e em Analíticos anteriores – 2.27), e um tratado (Physiognomonica) versando sobre o tema foi durante muito tempo atribuído a ele. Os romanos lhe deram crédito e a Idade Média os seguiu. Mas seu amplo florescer se deu a partir do Renascimento, graças a Giambattista della Porta (1535–1615) e suas comparações entre humanos e animais (como no caso da primeira ilustração, em que a crueldade da águia, expressa em seu bico voraz, seria também visível na face do imperador romano Sérvio Galba, graças ao seu nariz adunco). E muitos outros os seguiram ao longo dos séculos. O pintor Charles Le Brun (1619-1690), deixou alguns impressionantes desenhos e uma conferência apresentada na Academia Real de Pintura e Escultura tratando do assunto.

Já no século XVIII e princípios do XIX, graças ao espírito do tempo, tais teorias foram proclamadas ciências graças a obra de três homens: Johann Kaspar Lavater (1741-1801), Franz Joseph Gall (1758-1828) e Johann Kaspar Spurzheim (1776-1832). O primeiro, em sua L’Art de connaître les hommes par la physionomie (escrita entre os anos de 1775-1778, mas somente publicada integralmente em 1820), fez um apanhado das idéias já conhecidas e sofisticou-as à luz de suas próprias observações. Mas os dois seguintes criaram a Frenologia, uma ciência capaz de conhecer o caráter dos homens (e seu grau de criminalidade) pelo formato da cabeça, analisando caroços ou protuberâncias localizados em determinadas partes do crânio (veja-se o mapeamento das áreas na ilustração acima).
A popularidade de tal teoria foi imensa, no tempo e no espaço. O mundo letrado inteiro a conheceu e por todo globo cientistas passaram a medir crânios dos mais diversos indivíduos, da Patagônia à China, do Congo ao Alasca. Algumas vozes, entretanto, já naquela época, levantaram-se contra tais idéias – curiosamente um dos primeiros críticos foi o Imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821), que, segundo a Duquesa de Abrantes, Laure Junot, considerava o sistema de Gall “uma loucura”, “destruidora de toda a ordem e de toda lei” (Memoirs of Napoleon, his court and his family. Londres, 1836, vol.2, p. 256).
Uma prova de sua influência no mundo moderno, é que as próprias teorias de Cesare Lombroso (1835-1909), o “pai da criminologia”, derivam da Frenologia. E esta, sobretudo em certos países, vicejou por muito tempo.
Como estudo este tipo de interpretações, dentre outros temas, adquiri recentemente um livro, A System of phrenology (c.1820), de George Combe (1788-1858), um advogado escocês que acreditava piamente nas idéias de Gall e Spurzhein. E chama a atenção que a edição de que disponho tenha sido publicada em Nova Iorque ainda em 1886, época em que médicos como Jean-Martin Charcot (1825-1893) já revolucionavam o estudo dos comportamentos (criminosos, inclusive) e das doenças mentais em termos muito mais científicos: menos em termos de predestinações anatômicas e mais em estudos caso a caso de disposições particulares e dos efeitos do meio. E é realmente curiosíssimo o sucesso que a Frenologia conheceu nos Estados Unidos da América, e do qual parece ainda desfrutar. Creio que tal se deva à forte origem calvinista das mentalidades locais: é mais fácil atribuir o desvio a uma predestinação, a uma marca divina distintiva, do que como resultado da pressão de homens bons tementes a Deus sobre um pobre coitado... Porém, curiosamente, Gall era católico, e provavelmente Spurzheim também. Mas Lavater foi pastor na Suíça e Combe, natural de Edimburgo, com quase toda certeza era calvinista.
Uma nota divertida do livro de Combe, na edição que adquiri, ficou por conta de um de seus antigos donos. Na última folha do volume, em caligrafia bastante clara, encontra-se a seguinte anotação:
property of that –
good for nada.
MR Livingston
August 6 1887.
Não imagino quem seja este MR Livingston, que não encontrou propriedade alguma na obra, considerando-a “boa para nada”, mesclando o inglês ao português em seu comentário. O que vale, além da impressão do referido senhor, é a data em que foi registrada. É mais uma prova de que os espíritos críticos existem, nadando contra a corrente das modas e loucuras de seu tempo.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de fevereiro de 2011].
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