sábado, 5 de dezembro de 2009

Oklahoma,1935. Brasil, 2010?

Faz muito tempo que li o romance de John Steinbeck (1902-1968), As Vinhas da Ira (1939). Tanto tempo, aliás, a ponto de acreditar que me recordo mais de sua adaptação cinematografia – o excelente filme do mestre John Ford, de 1940, com Henry Fonda como protagonista – do que do livro em si.
Para quem não conhece a trama, ela conta a saga de uma família de agricultores do Oklahoma, EUA, que perde suas terras durante a Grande Depressão (1929-1939). Como a produção da fazenda ficara aquém do esperado, no ano anterior, o clã hipotecou as terras, e sem ter como pagá-la, foi executado. Assim, eles partem em busca de um lugar hipoteticamente melhor, na Califórnia. É claro que a história não se resume a isto. É movimentada, cheia de elementos, trata da questão da terra, da violência policial, e de uma série de outros temas interessantes, e tudo muito bem escrito. Mas a lembrança que mais se agarrou em minha memória, é a dos constantes ventos de poeira que acompanham os personagens, até eclodirem numa verdadeira tempestade de pó. Pensei, à época, que o fenômeno fosse uma certa licença poética do escritor. Ledo engano. Foi um evento real, como descobri esta semana, num programa do History Channel.
A tempestade ocorreu no dia 14 de abril de 1935, um domingo que se tornou conhecido pelos norte-americanos como o “Domingo Negro" (Black Sunday). Ventos de quase cem quilômetros por hora sopraram do Oklahoma à capital, Washington, levantando um volume de poeira que, dividido por cada habitante daquele país, corresponderia a três toneladas por pessoa. E quais foram as causas da catástrofe? O mau uso do solo.
Os especialistas, à época, já tinham conseguido identificar os motivos. O Oklahoma era um estado cujo solo era seco, ainda que coberto de pasto. Fôra, a região, por longo tempo, voltada à criação de gado, com bastante sucesso, alimentada pela rude flora local. Porém, no começo do século XX, acreditou-se, erroneamente, que se poderia plantar naquelas terras. Um programa de emissões de títulos de terras, equivocado, vendeu propriedades a milhares de famílias empobrecidas do Sul dos EUA, que às pressas, ocuparam o lugar. As pastagens foram arrasadas, os terrenos, arados – não como deveria ser para aquele tipo de solo, mas, sim, como os colonos estavam acostumados a fazer. O resultado? As terras tornaram-se inférteis, as chuvas lavaram as plantações e, depois, sobreveio uma tremenda seca. E como o estado era em grande parte desprovido de florestas, as ventanias foram se tornando cada vez piores. Até culminarem naquela do Domingo Negro. As autoridades tomaram suas providências, e o evento não mais se repetiu. Até agora. Ou, pelo menos, não lá.
Esta história me fez pensar no que o Brasil anda fazendo com o seu Cerrado, este imenso e frágil bioma que começa em São Paulo, chegando até as franjas da Amazônia, e que se tornou, pela cupidez e incompetência, um novo pólo de produção agrícola, uma nova fronteira do agronegócio. Seu desmatamento ocorre em ritmo muito maior do que o sofrido pela Floresta Amazônica em seus momentos mais críticos. Ipês, macaúbas e onças, tiveram seus espaços tomados por cana, soja e gado. E tal invasão, e destruição, não conta sequer com um motivo social para, senão abrandá-las, ao menos tolerá-las, pontualmente: ali não há o assentamento de famílias, de trabalhadores, mas de grandes grupos, mega-empresas – a exploração que não ousa dizer seu nome.
Os efeitos deste equívoco, mais do que isto, desta verdadeira má-fé, parecem que já se fazem sentir. Lembremos da tempestade de poeira que varreu Uberaba e outras cidades próximas em meados do mês passado. Não é um claro sinal de que com o Cerrado não se mexe?
Mas, no Brasil, parece que nunca aprendemos com os erros dos outros: fazemos questão de recriá-los, de repeti-los, desde que seja à nossa maneira. Erramos? Sim. Mas nosso erro... é do Brasil-sil-sil...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de novembro de 2009].

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