sábado, 5 de dezembro de 2009

"As Fortunas" do Chirico

Numa crônica intitulada Sexta-Feira treze, outra vez, publicada neste mesmo espaço no dia 14 de março último, alertei aos leitores que acreditam no azar para que pusessem suas barbas de molho, visto que teríamos mais uma efeméride semelhante em novembro. Pois o nefando dia passou e seu saldo foi realmente digno de nota nos anais da urucubaca! Nele, eis que um viaduto, sequer ainda concluído, veio abaixo, destruindo dois automóveis e um caminhão. Pareceria até música de Aldir Blanc, na voz de Elis Regina, mas o tombo do viaduto foi concreto, com perdão do trocadilho.
E não foi em qualquer obra, não. O caso não se deu numa estradinha vicinal de Ariquemes-RO, ou em Brejolândia-BA, numa obra de algum prefeito sem experiência. Ocorreu, isto sim, no bilionário Rodoanel, a menina dos olhos da administração tucana e um trampolim político para muita gente. É uma coisa de espantar. Um viaduto caiu graças, simplesmente, ao peso do ar, já que nenhum outro esforço lhe foi imposto. Imaginem, então, quando se trafegasse por cima dele: talvez ruísse todo o complexo!
Já numa outra crônica, cujo título era Tempos interessantes, publicada em 27 de abril de 2008, vejam o que escrevi:
De fato, nós, brasileiros e, sobretudo, paulistas, temos vivido tempos ‘muito mais do que interessantes’. Assistimos a crimes mal-solucionados, ao desmanche do ensino público, ao superfaturamento de obras públicas que resulta em buracos, tragando gente, carros, moradias. E, agora, até mesmo um terremoto entrou para o rol das mazelas paulistas. Já disse, noutras ocasiões, da urucubaca que cerca um dos maiores próceres da política paulista. Portanto, frente à possibilidade de que tal insigne tribuno galgue — um poleiro por vez, mas com uma velocidade acintosa — outras posições de relevo, sobretudo nacionais, temos de nos precaver. Pois azar tem nome. E, no caso, nome e sobrenome — seu raio de atuação mostrou-se, mais uma vez, bastante claro”.
Como podem ver, o Ilustríssimo Governador do Estado de São Paulo, o Chirico, parece que tem mesmo urucubaca. Tanto que, nome forte da disputa à Presidência para o próximo ano, tem caído nas intenções dos eleitores e sua proeminência é cada vez mais sombreada pela de Aécio Neves. O patinho feio – feio não, medonho – ao invés de ir se tornando um gracioso cisne, vai é dia a dia se convertendo num ganso desajeitado.
Resta saber, agora, se as fortunas do Chirico vão pesar ao seu favor, ao nosso, ou ao de quem quer que seja. Pois se ele é eleito Presidente, São Paulo livra-se dele, mas o Brasil inteiro arca com sua desdita. Se, por outro lado, for o Governador de Minas o escolhido de sua agremiação como candidato, os paulistas correm o risco de ter de enfrentar mais quatro anos de uruca. Isto se, retomamos, as fortunas do homem não contribuírem, mais uma vez, para um lado ou para o outro. Com a sua reforma intentada na Saúde, que lembra tanto o funesto PAS, de Maluf; com sua mania por grandes obras viárias (parece com quem? Maluf, novamente); perde, no entanto, o atual Governador, na comparação: pois até onde se sabe nenhum túnel do metrô aberto nos tempos de Maluf ruiu, tragando gente. Nem viaduto caiu. E o preço das obras, então, parecem bagatelas se comparados aos de hoje.
Vejam só como as coisas são: numa destas idas e vindas da sorte, de herdeiro eleitoral de Maluf, o Chirico acaba por se tornar seu principal cabo eleitoral, por contraste! Em todo caso, veja o peso do azango do homem: ou ele, ou Maluf: aut Caesar aut nihil (“ou César ou nada”)! Que tremenda urucubaca!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de novembro de 2009].

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