O motocontínuo (moto-contínuo na antiga ortografia) é uma máquina de movimento perpétuo, auto-alimentada, ou que necessitaria de uma única ação, desencadeada por um fator externo, para colocar-se em eterno, contínuo movimento (daí o nome). Ainda que tenha sido um grande sonho acalentado na Antiguidade, Idade Média, Renascimento e mesmo depois, são construções hipotéticas e, acredita-se, impossíveis, pois feririam a primeira e a segunda lei da termodinâmica e, parece, a Lei Áurea da Mecânica – esta é a única de que me lembro, a que diz que nenhuma máquina pode realizar trabalho maior do que aquele recebido. Em todo caso, o motocontínuo foi uma obsessão que consumiu muito tempo dos estudiosos, dentre eles o célebre Leonardo da Vinci (1452-1519). No Brasil, era comum, como se pode ler nos jornais do século XIX, gente que se aplicava a tentar criar a sua máquina partindo daqueles preceitos. E ainda hoje, vez ou outra, escuto falar de algum tipo excêntrico, em lugares ermos de nosso país, disposto a criá-la.
Impossível na física, o motocontínuo parece estar por trás de certas notícias que vemos através da grande imprensa.
Creio que foi no ano passado – mas isto pouco importa – que escrevi neste espaço, escrevi sobre algumas notícias que se repetem com uma frequência sazonal, como as cheias do Sul e as secas do Nordeste. Disse que pouco importa ter escrito no último ano ou no anterior porque a sucessão, a repetição dos mesmos fatos – ainda que chocantes – tornou-se quase banal.
O primeiro exemplo que citei foi o das enchentes em São Paulo. Entra ano, sai ano, mudam-se os governantes e suas inclinações políticas, e o panorama é sempre o mesmo: a cidade imersa em caos e lama, qual na canção da Nação Zumbi. Foi assim com Maluf, Pitta, D. Marta, com o Chirico, “o Breve”, e agora com Kassab. E podemos recuar tal fenômeno para muito, mas muito antes mesmo. Uma aquarela, de 1821, de Armand-Julian Pallière (1784-1862), já então mostrava os transbordamentos na Várzea do Carmo. Cerca de setenta anos depois, cabe ao pincel de Benedito Calixto (1853-1927) representar a Enchente na Várzea do Carmo (ca. 1892), quadro que se encontra no Museu do Ipiranga. O curioso é que se trata do mesmo local – as margens do Rio Tamanduateí, por onde passa a Avenida do Estado – que até hoje padece de tais caprichos, menos causados pela natureza, e mais pela omissão dos poderes públicos.
O segundo exemplo, creio, foi um massacre promovido por um aluno numa escola. Nem me lembro em que país isto ocorreu. Aliás, é bem possível que nem tenha ocorrido no ano passado: quem sabe mesmo deu-se no anterior. Pelo que me recordo, era um jovem de origem asiática que matou alguns colegas numa escola norte-americana. Mas isto, também, pouco importa. Tantos outros eventos destes ocorreram desde então que somente um colecionador destes casos, um perito em segurança escolar – profissão que, sou capaz de jurar, sequer é concebida em nosso país – ou um estudioso do assunto, seriam capazes de afirmar, com certeza, quantas vítimas envolveram e onde se deram. O mais recente, ou, pelo menos, o mais chocante, aconteceu na Alemanha. Mas não é de se duvidar que, entre o período que escrevo esta crônica e o acesso dos leitores a ela – dois ou três dias, mais ou menos – outros casos venham a público, talvez na Finlândia, Holanda, ou nos “suspeitos de sempre”, os EUA. Chora-se ali, lastima-se aqui, “especialistas” tratam do assunto exaustivamente e, quando menos se espera, a coisa se repete.
De escândalos no Legislativo Federal, sequer os citarei como exemplo. Num semestre é na Câmara, noutro, no Senado, e assim sucessivamente. Sua repetição é certa e sua periodicidade, portanto, é menos que anual. O mesmo pode ser dito quanto à Educação no Estado de São Paulo. Um descalabro, progressivo, auto-alimentado, desde que umas aves agourentas pousaram no Palácio dos Bandeirantes: sabemos de tais mazelas a cada início de ano letivo, e já lá se vão, seguramente, uns treze anos.
Como vemos, tais cadeias de eventos, para nossa tristeza, sempre ocorrem: replicam-se, ano após ano. E nelas, acabo de verificar, há também um outro fator em comum, não sei se como “fonte externa de energia”, ou se como consequência do moto-contínuo. Trata-se do “mote contínuo”, um falar desprovido de sentido, a repetição de lemas vazios, palavras de ordem ocas, justificando isto ou aquilo dos problemas e em nada os solucionando. Deixando que tudo permaneça como está, para ver como é que fica, até a próxima repetição, etc., etc., etc...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de março de 2009].
A vaca estradeira
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