Há pouco tempo, um amigo pediu-me uma sugestão de leitura. Mais especificamente, ele queria a indicação de “um bom livro de ficção científica escrito por um autor brasileiro”.
“Que coisa!”, pensei. “Está aí uma questão complicada”.
Seria tentador incluir numa relação do gênero a História do Futuro, do Padre Vieira (1608-1697), como obra precursora, aliás. Pois seu a autor a julgava científica, ainda que não passe de pura ficção. Mas seria errôneo, porque, na sua origem, era uma tentativa do douto Vieira de prever o futuro, o surgimento do Quinto Império, a conversão da humanidade ao catolicismo, etc. Assim, perdemos o posto de inventores do gênero para o francês Cyrano de Bergerac (1619-1655), com suas História Cômica dos Estados e Impérios da Lua e História Cômica dos Estados e Impérios do Sol (1657). Se o nome dele é familiar ao leitor é porque sua vida iria inspirar, séculos mais tarde, o escritor Edmond Rostand (1868-1918), resultando na peça Cyrano de Bergerac (1897), adaptada para o cinema inúmeras vezes.
Na verdade, o mais antigo texto brasileiro no gênero creio que foi o Doutor Benignus, do português radicado no Brasil Augusto Emílio Zaluar (1826-1882), publicado em 1875. Bem ao estilo das histórias de Júlio Verne (1828-1905), cheia de interpolações de termos técnicos em meio a cenas movimentadas, não tinha a graça das novelas do francês, mas a elas se assemelhava na medida em que eram mais um relato das possibilidades científicas do período do que uma obra que olhasse para o futuro, que antevisse maravilhas, horrores, novidades...
De Zaluar há um salto até um conto de 1895, de Aluísio Azevedo (1857-1913), intitulado Demônios. Trata-se de uma história bastante singular, contando o destino de um casal num mundo apocalíptico. Uma raridade. E deste, até a próxima obra mais conhecida – algo deve ter sido escrito mas pouco divulgado, acredito –, foram necessários mais trinta e um anos, até que Monteiro Lobato (1882-1948) publicasse o Presidente Negro, em 1926. O único romance escrito para adultos daquele autor era, em todo o sentido da palavra, uma narrativa de ficção científica. O livro, que conheceu dois nomes (O Choque das Raças ou O Presidente Negro e, mais tarde O Presidente Negro ou O Choque das Raças: romance americano do ano 2228), foi um grande fracasso de público e crítica. Ganhou uma sobrevida no ano passado por conta da eleição de Barack Obama à Presidência dos EUA – aliás, tratamos, neste espaço, então, a respeito desta coincidência. E embora cumpra todas as características do gênero, e tenha até algumas boas passagens, é muito fraco como um todo. O que não o impede de ser lido por muita gente hoje, como tenho visto, em vários lugares.
Salvo outras histórias pouco conhecidas, foi preciso chegar o ano de 1930 para que outro vulto literário produzisse sua contribuição para a ficção científica. Naquele ano, Menotti Del Picchia (1892-1988) publicaria o romance República 3000, mais tarde renomeado como A Filha do Inca. Este, confesso que nunca li. E me parece que bem poucos o leram, por sinal. Mas pelos títulos – que coisa curiosa esta, de se trocar de nome justamente quando se trata deste gênero... – não é difícil imaginar do que trata o enredo.
Com exceção, novamente, das possíveis histórias pouco conhecidas de autores quase desconhecidos, nada mais parece ter sido escrito até um argumento para balé, de 1942, de Oswald de Andrade (1890-1954), intitulado Princesa Radar. Não sei se o testo foi publicado, se o espetáculo foi encenado e menos ainda quanto à sua repercussão. Mas algo assim deve ter acontecido, pois sua trama seria adaptada para o cinema em 1992, como um episódio de mesmo nome do curta-metragem Oswaldianas (este, inclusive, um filme muito simpático que, infelizmente, pouca gente viu).
Nos anos 1950, 1960 e 1970, há um verdadeiro surto de narrativas de ficção científica publicados no Brasil, sobretudo em pequenas revistas de duração efêmera. Inspiradas por modelos norte-americanos, surgem histórias povoadas de robôs, ameaças alienígenas, viagens interplanetárias e coisas assim. Ouvi falar de uma, inclusive, que punha o cangaceiro Lampião às voltas com naves extraterrestres, mas acho que é lenda. Em todo caso, parece que o único escritor de maior peso – que chegou a ser por muitos, ainda que erroneamente, considerado apenas autor de ficção científica – foi Rubens Teixeira Scavone (1925-2007).
Para quem se interessa pelo assunto, há um livro que se chama Ficção científica brasileira, de Mary Elizabeth Ginway, publicado em 2005, que parece ser bastante bom. Só é curioso que, ainda que pouco se produza na área, que se importe modelos e tramas para as hisórias, caiba justamente a uma norte-americana tratar de nossa ficção científica...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de março de 2009].
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