O ano nem bem começou e já tivemos duas sextas-feiras treze. Para quem acredita que a data traz consigo uma carga de azar, que ponha suas barbas de molho: haverá ainda mais uma, no mês de novembro. No ano passado, que foi bissexto, tivemos uma só, em junho; 2007 teve duas, em janeiro e outubro; o mesmo número de coincidências e nos mesmos meses em 2006; uma só, em maio de 2005; e, para fecharmos com outro ano bissexto, 2004 contou com duas, em fevereiro e agosto.
A superstição envolvendo o número treze e associando-o à sexta-feira como índice de azar parece que é bem antiga. De uns tempos para cá, querem associá-la aos Cavaleiros Templários, aquela mistura de guerreiros e monges surgida na Primeira Cruzada, em 1096, e dissolvida em 13 de outubro de 1307 – não é preciso dizer que tal se deu numa sexta-feira. Heróis para várias pessoas, adoradores do demônio para outras, muito se fala sobre os membros da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (o nome completo da seita) e muito mais ainda se publica, sobretudo nos últimos tempos, a respeito deles. A grande maioria, não passa de sensacionalismo ou bobagem. E vendem-se amuletos, e objetos a eles alusivos, livros e mais livros tratando deles, associando-os à Maria Madalena, à Maçonaria, ao continente perdido da Atlântida, às runas viquingues, ao tarô, em suma, ao que a imaginação quiser e mais além. Ainda veremos o dia em que surgirão livros com títulos tais quais O Segredo dos Templários para a sua vida amorosa, ou Como a sabedoria dos Templários podem salvar a sua empresa...
Na minha modesta opinião, acredito que o mito da sexta-feira treze, enquanto data agourenta, associa-se, na verdade, à Sexta da Paixão que, de fato, caiu no dia 13 de Nisã (correspondente a Março-Abril) no calendário judaico, ou 13 de Martius no calendário Juliano (romano). Pois, convenhamos: a morte de Jesus é um episódio muito mais nefasto, e marcante, e de muito maior divulgação e conhecimento no Ocidente, do que a extinção de uma seita no século XIV.
Mas permanece o mistério de treze, para além de simples registro histórico (assinalar, precisamente, a morte do Salvador). Pois, para muita gente, aquele é um número considerado imperfeito. Está bem, antes que alguém comece a rir, lembremos que o estudo dos números, visto sob uma esfera mística, foi algo levado a sério por pessoas das mais respeitáveis, e num período que vai desde os tempos do sábio grego Pitágoras (570 – 497 a.C) até, seguramente, o do físico e matemático inglês Isaac Newton (1643 – 1727). Durante este intervalo, reis, cientistas, filósofos, papas, juízes, todo o mundo culto e inculto acreditava no alegado poder dos números. Assim, determinadas cifras eram consideradas perfeitas, como o um (por ser indivisível), o dois (por sua simetria), o três (pela completude, já que a partir dele é que se forma o triângulo, associado à Santíssima Trindade), o quatro (são quatro estações, quatro eram os continentes, quatro os evangelistas), o cinco (as chagas de Cristo, o número de pontos necessários para se traçar a Cruz), etc. Do cristianismo primitivo até o século XVIII a correspondência entre as coisas e os números era crença geral. Aliás, todas as coincidências atraíam a atenção. Muito da autoridade do Novo Testamento baseava-se na concordância com a tradição do Antigo Testamento (lembremos da serpente de bronze de Moisés e da Cruz de Cristo, o sacrifício de Isaac e o de Jesus – os exemplos são muitos). E não devemos nos esquecer que, durante todo aquele mesmo período, acreditava-se que Deus legara ao Homem dois livros: a Bíblia e o Livro do Mundo (o próprio mundo, que poderia ser lido e interpretado como as Escrituras). Por isso, doze eram os apóstolos assim como doze eram os meses do ano e doze os signos do zodíaco). Portanto, o treze era imperfeito. Por exceder aquele número. Lembremos que havia treze à mesa da Santa Ceia – um estava a mais, portanto: o traidor. Daí minha teoria.
Agora, seria o treze um número efetivamente maléfico? O curioso é que quase ninguém se recorda que as aparições de Nossa Senhora do Rosário, em Fátima, ocorreram, justamente nos dias 13 de maio, de junho e de julho (este numa sexta-feira!) Em agosto, seria no dia 19 – mas o encontro havia sido marcado, pela própria Virgem, para o dia 13 –, em setembro, novamente um dia 13, assim como em outubro. Como explicar um fato desses? Complicado, muito complicado...
Concordo que toda superstição é perda de tempo – salvo como curiosidade cultural, antropológica, licença poética ou algo do gênero. Quem se estriba na Fé ou na Ciência, não precisa de amuletos, números mágicos, adivinhações – isto é para quem apenas tem fé, com efe minúsculo. Acreditar em dias aziagos, hoje, parece um verdadeiro contrassenso. Mas ainda creem, como creem... Afinal, é bom para muita gente. Lucra-se muito com isto, dos leitores de sortes aos estúdios cinematográficos. É fácil atribuir os desastres não à incompetência ou a cegueira e, sim, a fatos externos. Aliás, ficam aqui duas perguntas: o que disseram os videntes de plantão em 2007 quanto a 2008? Algum previu a crise econômica? E olhem que, no ano passado, tivemos apenas uma sexta-feira 13. Neste ano, com três, o que deveríamos esperar? O fim dos tempos? Convenhamos...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de março de 2009].
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