Na semana passada [28 de fevereiro de 2009], prometi que o próximo assunto deste espaço seria a reforma ortográfica, um tema sobre o qual talvez eu não possua grande autoridade para tratar, mas do qual não posso me eximir quanto a tecer alguns comentários.
A autoridade me falta porque não sou linguista (ai, essa nova ortografia!) e nem gramático. Não cursei Letras, nem sou membro da Câmara dos Deputados, esta máxima autoridade em tudo o que concerne à vida humana: das células-tronco (ou seria já celulastronco, tudo junto e sem acento?) ao ensino religioso; da taxa de juros pré-fixada (préfixada?) à ocupação racional da Antártida; da propaganda de bebidas alcoólicas à Teoria da Evolução; das armas nucleares à ortografia. Sou, muito modestamente, mais um usuário da boa e velha língua portuguesa, talvez um tanto quanto aplicado em seu estudo, mas só isto.
Tenho alguma familiaridade, confesso, com as várias intervenções que nosso idioma já sofreu. Transcrevi muitos documentos do século XVIII, cuja ortografia ainda era a fonética (Joaõ, Joam, em lugar de João, por exemplo, e todas estas formas no mesmo texto). Ávido leitor – nunca negarei esta minha qualidade, ainda que sob a acusação de falta de modéstia – li sem qualquer dificuldade vários livros impressos ainda nos tempos da ortografia pseudo-etimológica (ou pseudoetimológica: é isto agora?), aquela da pharmácia, egreja, adjumpto, sciencia, etc. E quanto às reformas de 1943 e 1971 – que minimante operaram na língua portuguesa e, ainda menos, no meu letramento – posso dizer que em nada embaraçaram minha leitura dos textos produzidos naquelas três décadas.
Diante do exposto, gostaria de registrar que acho em grande parte uma imensa bobagem esta nova reforma do idioma. Vá lá que as mudanças não sejam muito grandes, mas algumas são complicadas e, outras, esdrúxulas. Por exemplo: k, w e y voltam a fazer parte de nosso alfabeto. Assim, a partir de agora não cometeremos nenhum atentado à língua quando grafarmos km (quilômetro), W (watt) ou XY (os cromossomos que determinam o sexo masculino). Francamente, é uma besteira...
Quanto à queda do trema, é o tipo da coisa difícil de argumentar sem resvalar na questão pessoal. Pois, é serio, há gente que gosta dele, como se gosta de uma bebida em particular, de uma flor, dentre outras, de usar o nó meio-Windsor na gravata (o mais utilizado no Brasil) em vez do de Windsor (aquele que vemos em banqueiros, políticos DEMOS e bajuladores em geral). Eu mesmo tenho simpatia pelo trema, ainda que, convenhamos, a vida muda muito pouco sem ele. O que também pode ser dito com o fim do acento em palavras como vôo, crêem, que passam a voo e creem.
Já a questão dos acentos, cassados, dos ditongos tônicos ei e oi das paroxítonas, vão dar um pouco mais de trabalho. Sei que idéia (doravante ideia), não se será lida como “idêia”. Mas não duvido eu que, em breve, veremos muitos meninos lendo na escola “assemblêia” em lugar de assembléia (ora assembleia). Aliás, isto até me recorda uma velha brincadeira, um trocadilho, que ouvi de um colega há muito tempo. Queixava-se ele à professora por ela ter tirado-lhe meio ponto num exercício graças a ele ter escrito jiboia (hoje estaria certo), sem acento. “Ora,” argumentou, “se cobra não tem assento, porque jibóia tem que ter?”, provocou. Mas será difícil, acredito, acostumar com feiura em lugar de feiúra, argui por argúi, etc.
O grande problema, na verdade, são as alterações com o hífen, até agora não muito claras. Os graciosos nomes bem-te-vi e couve-flor, por exemplo, permanece assim, conforme determina o acordo, porque são palavras compostas que designam espécies zoológicas e botânicas. O mesmo vale para a flor-de-lis (ou flor de íris: Iris pseudacorus). Mas não vale para a flor-de-lis (agora flordelis: já dá para imaginar gente lendo “flordélis”) enquanto símbolo heráldico e motivo decorativo. Ou seja, loucura das loucuras. Outro absurdo é que algumas palavras passam a ter dupla grafia: será aceito, por exemplo, tanto o emprego de pára-quedas como de paraquedas, e o argumento é que no caso desta última, podem ser assim aglutinados os dois termos quando o falante contemporâneo perdeu a noção de aglutinação. Ora, e o saber do faltante contemporâneo é garantia de alguma coisa num país de analfabetos funcionais?
Em suma, tudo não parece uma grande bobagem? Mas, infelizmente, não é. A nova ortografia foi planejada por especialistas. Aprovada por diversos governos. Tem tanto efeito de lei quanto qualquer outra. O que não a impede, também de, assim como as outras, não pegar. Não ser digerida: o que é de se esperar de um prato que consegue, ao mesmo tempo, ser tão insosso e tão indigesto.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de março de 2009].
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