Talvez um dos principais problemas com que se defronta um historiador ao lidar com seus alunos, ou com o público em geral, seja aquele relacionado às ditas e decantadas “verdades históricas”, aquelas várias informações cristalizadas em nossas mentes desde a infância, e sustentadas pelos mais diversos interesses, ainda hoje, quer pela força do Estado, ou do apego à tradição, as quais têm logrado um grande sucesso graças, temos que concordar, à enorme eficácia de seus divulgadores. Vejamos alguns exemplos.
Quando pensamos na decadência do Império Romano, a primeira imagem que nos ocorre é a de um bando de senhores de toga, obesos, calvos, se entregando ao pleno usufruto dos prazeres gastronômicos e sensuais. Errado! Tal imagem pertence ao apogeu da República e do Império. Nos estertores daquele regime, suas figuras de prol haviam já abraçado o Cristianismo, e, com ele, uma certa morigeração, algum recato, um pouco do ascetismo previsto pela nova Fé. Não eram, absolutamente, modelos de castidade e temperança. Mas também não eram o estereótipo de luxúria e glutonaria que neles somos levados a enxergar tantas vezes.
Imaginamos a Idade Média como uma era de castelos sombrios, com torres altíssimas, um período em que as pessoas – analfabetas na totalidade, sem conhecimento do Passado ou reflexão sobre o Presente –, quando não se batiam em torneios cavalheirescos, lançavam-se às Cruzadas, ou torturavam hereges das maneiras mais bizarramente sofisticadas, ao mesmo tempo em que eram presas das mais vulgares superstições. Tudo não passa de exagero! Os castelos sinistros e as torres inalcançáveis são criações da literatura gótica inglesa (de meados do século XVIII) e do Romantismo (quase coevo àquela). Os índices de leitura talvez nem fossem tão diferentes dos atuais, visto que o analfabetismo funcional é uma praga moderna, e que muita gente, hoje, tem preguiça de ler, independentemente da classe a qual pertença – conheço moradores de favelas, roças, grotões, que são melhores leitores do que muitos universitários, doutores, autoridades, bem-nascidos... Para encerrar o bloco, gostaria de acrescentar que os torneios são de fins da era medieval, ou seja, não são uma constante no desenrolar daquele período. E no que fiz respeito às covardes violências exercidas intramuros, à abjeta, imunda e infame tortura, seu pleno desenvolvimento deu-se a partir da muito mais que louvada, com exageros, muitas vezes, Renascença, ou Renascimento. E quanto às superstições, pois, hoje, até muita gente instruída não acredita na influência dos cristais, em magos, duendes, auras e bruxedos vários, ao invés de crerem nas doutas palavras nos medievais Santo Agostinho e São Tomás de Aquino?
Permitam-me os leitores, agora, um salto de alguns tantos séculos quanto ao período abordado na última frase e que, graças a tal acrobacia, nos remeterá ao tema desta crônica. Saltemos para o ano de 1823, para o dia 2 de julho. O cenário? A cidade da Bahia, Salvador. Ali, naquela data, o povo e a nobreza da terra finalmente baniram as tropas portuguesas do território que, só então, se tornaria nacional. Muito sangue correu por conta disto. E, por muitas décadas, foi esta a principal efeméride e celebração baianas, até que um caudilho local quase a aboliu, e chegou mesmo a rebatizar o aeroporto da cidade, cujo título homenageava aquela data, com o nome de seu filho morto. Morto também o velho cacique, o 2 de julho volta a ser enaltecido na Bahia. E fica a pergunta: por que não no resto do Brasil? Ora, se lá correu sangue, tal fato comprova ser aquele movimento muito mais heróico do que um simples desembainhar de uma espada, às margens de um córrego, por um príncipe português cercado de asseclas. E, no entanto, ficou este cerimonial, quase que se diria de corte, como a grande data nacional. Aos heróis e mártires da Bahia, restou um mero feriado local. O mesmo pode ser dito, de uma certa maneira, acerca da Inconfidência Mineira, um movimento tão bonito quanto inócuo: a pernambucana Confederação do Equador, do Frei Caneca, tinha um programa político, econômico e social muito melhor do que sonharam os mineiros, seus predecessores.
Concluindo, o que quero dizer é só um acréscimo à velha máxima que diz que a História é feita pelos vencedores. Mais do que isto, a História pode ser facilmente manipulável por certos interesses. Daí um Instituo Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado sob as benesses de D. Pedro II, enaltecer tanto à figura de nosso primeiro imperador. Da mesma maneira, passados vários anos, os paulistas, reunidos no seu próprio, e influente, Instituto, alçarem aos píncaros da glória a atitude de D. Pedro, visto que a mesma se deu em terras piratiningas. E a mesma parcela de responsabilidade cabe aos historiadores mineiros de antanho: bem articulados, influentes politicamente, e seduzindo os militares, conseguiram emplacar um descuidado conspirador como herói nacional. E foram bem competentes nesta empreita: o alferes tornou-se quase uma nova encarnação, brasílica, do Cristo!
Costumo dizer que os fatos históricos não podem ser encarados como se passíveis de serem resumidos, e cabalmente explicados, por um meio direto como, digamos, uma fotografia, uma instantânea captura de um dado evento. História é pintura. Demorada, sujeita a ajustes, correções. A pose do retratado é uma, num dia; outra, na manhã seguinte e, portanto, deve ser submetida a um longo escrutínio de um olhar experiente, para que não se torne algo por demais idealizado e, evidentemente, falso. História é paciência: pontualidade, é para o jornalismo. Daí vermos tantas celebridades, ídolos com pés de barro, que não sustentam seu próprio peso. Se, no campo mundano, isto é bem conhecido – ainda que certas efêmeras personagens careçam de um mínimo conteúdo, a ponto de poderem prescindir da necessidade de uma sólida base – no campo da História, também, tal situação se verifica. Toma-se, muitas vezes, a importância do homem pelo tamanho de sua estátua, e imagina-se que fosse ele da têmpera do bronze, quando estava muito mais para a firmeza do papelão. E, em nome de tais equívocos, organizam-se festas, feriados, celebrações de faz-de-conta. O que é uma vergonha, mas que se perpetua a séculos, décadas, anos, meses, dias, horas e minutos, e por toda parte.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de julho de 2008].
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