quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Banzai!

O Brasil, ou melhor dizendo, algumas cidades dos estados de São Paulo e do Paraná, comemoraram, nesta semana, os cem anos da imigração japonesa. Cerimônias, festivais, inaugurações de praças, exposições e festas celebraram, enfaticamente, tal data. E, de fato, é um episódio a se assinalar. Poucas comunidades asiáticas foram capazes de se assimilar em terras distantes com a mesma facilidade que a colônia japonesa o fez em nosso país. E, ao mesmo tempo, deixando influências tão marcantes em nossa cultura. Não conheço ninguém, das minhas relações, que não tenha feito judô ou caratê nalgum momento de sua vida. Nem, sequer, uma professora do ensino básico que não tenha noções do origami, as dobraduras de papel reproduzindo, engenhosa e esquematicamente, animais, personagens, flores, etc. A piscicultura e a jardinagem, o cultivo do chá e a revalorização da cerâmica e da porcelana artesanal devem seu influxo à presença nipônica em nossa terra. O mesmo pode ser dito quanto ao crescimento do consumo do peixe nos hábitos alimentares dos brasileiros, não só assado, como, também, cru: sashimis, finas fatias de peixe sem qualquer cozimento, fazem parte do cardápio tanto de bons bares e restaurantes, quanto de qualquer birosca, do Oeste paulista ao Norte mato-grossense, do Sul do Paraná até o mais reles pesqueiro de nossas vizinhanças. E, juntamente com tais iguarias, o emprego dos palitinhos para consumi-las: os hachis, como os chamam muitos, em detrimento da palavra fachis, que existe, em bom português, há quase cinco séculos: foram os portugueses os primeiros ocidentais a manterem um vivo contato com o Japão, ao qual chamavam, à época, de Cipango (nem um pouco por acaso, uma das primeiras Santas Casas de Misericórdia fundadas fora de Portugal o fora, justamente, na cidade de Nagasáqui, local este tornado célebre por outros motivos, causados por outras figuras... ).
A influência japonesa na cultura ocidental é marcante. Há quem diga que o uso do pijama, por nós, tenha a sua origem nela, ou melhor, numa adaptação do quimono. Da mesma maneira, há quem afirme que o robe, de chambre ou de banho, e até mesmo o peignoir feminino, apesar do nome francês, foram popularizados graças à beleza dos padrões de seus congêneres japoneses. Nas artes, o intercâmbio de idéias foi, também, notável. O Impressionismo, o Expressionismo e muitas vanguardas artísticas de fins do século XIX para começo do XX, beberam das fontes que jorraram das estampas japonesas. A gravura moderna, aliás, que tem como uma espécie de precursor o mais do que célebre O Grito, de Edvard Munch (1863-1944), não pode ser pensada sem tais referências. O próprio Art Nouveau, com seu apreço pelo dourado, pelas formas sinuosas, inspiradas na natureza, seria, segundo muitos, uma resposta ocidental às temáticas empregadas nas artes e no artesanato daquele arquipélago. E boa parte da arquitetura moderna, do americano Frank Lloyd Wright (1867-1959) à escola alemã de Bauhaus (1919-1933) fizeram suas leituras de vários conceitos tradicionais daquela matriz. Sem falar naqueles que sugerem que a mímica e as expressões empregadas no alvorecer do cinema, ainda mudo, sejam uma difusa referência às diversas práticas teatrais do Japão. Um clássico do faroeste americano, Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960), nada mais é do que uma adaptação de outro notável filme, Os Sete Samurais (1954), daquele genial diretor que foi Akira Kurosawa (1910-1998).Sem falar no novo fôlego dado ao atual cinema de terror, quase todo inspirado em complexas tramas do cinema japonês. E como falamos em intercâmbio, pressupondo uma troca, está aí a literatura japonesa, ótima, reformulada por seus contatos com o Ocidente: a cada dia mais lida e admirada, nomes exóticos como Junichiro Tanizaki (1886-1965), Ryunosuke Akutagawa (1892-1927), Yasunari Kawabata (1899-1972) e Yukio Mishima (1925-1970) vêm se tornando familiares, e justamente reverenciados pelos bons leitores: Musashi, a saga de um dos maiores guerreiros japoneses, escrito por Eiji Yoshikawa (1892-1962), é um dos livros mais lidos no Brasil e já conta com 120 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo.
No Brasil, para além das referências já citadas, a influência desta colônia foi pequena. O ambiente não permitia o desenvolvimento da arquitetura tradicional, salvo, em raríssimos casos, no Sul. E nossa terra, em diversas ocasiões, foi inóspita aos súditos do Império do Sol Nascente. Em sua maioria trabalhadores urbanos, ou pequenos proprietários de terra, sem falar nos membros da pequena fidalguia dos samurais, muitos foram convertidos, quase que à força, em peões das lavouras de café. Numa época em que o racismo tinha foros (falsos) de ciência, eram quase tão execrados quanto os negros, estes, inconvenientes testemunhas de um passado brutal. Muitos estados do Nordeste, e, em especial, a Paraíba, manifestaram seu interesse em acolherem imigrantes japoneses, em razão de sua notória objetividade no trabalho, dedicação a ele, e hábitos regrados. No Sudeste, todavia, eram vistos como algo pouco acima do gado indiano que então se importava à larga. E até mais exóticos que os nelores, gires e zebus: estes, mudos; os outros, falantes de uma língua incompreensível. Durante a Segunda Guerra (1939-1945), foram alvos das maiores violências e covardias, desde o fechamento de seus jornais até a perseguição política, sem falar na vigilância constante a que foram submetidos. Conquanto não se tenha notícias de atos de sabotagem ou de espionagem levados a cabo pelos japoneses — ao contrário do que ocorria entre os membros de muitas colônias alemãs e italianas — foram, os primeiros, especialmente visados como possíveis agitadores. E aviltados, humilhados, pelo Estado e pela sociedade tacanha de então. Mas não só de então. Ainda hoje, inúmeros estudantes relapsos atribuem a sua reprovação nos exames vestibulares da vida, não às suas preguiças, descasos, impropriedades, e, sim, à concorrência dos japoneses...
Fazemos bem em reverenciar este centenário da imigração nipônica, este povo estóico, honrado, e que tanto vem contribuindo para o nosso país. Portanto, banzai! Dez mil anos junto a nós, integrando-se a nós, tornando-nos uma coisa só, um todo, mas com suas ótimas peculiaridades, das quais não abriremos mão, e que é o que dá sabor e graça à vida de uma nação.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de junho de 2008].

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