quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Gramática para além da gramática

Não sou um gramatiqueiro, longe disto. E se, nos meus tempos de escola, estive sempre entre os cinco melhores alunos de Português da sala, confesso que não ascendi ao panteão em que habitavam aqueles três com as maiores notas. Fui, sem falsa modéstia, e tenho testemunhas em meu favor, sempre ótimo em Redação e Literatura. Mas a análise sintática, qual uma grossa cadeia, me acorrentava, eternamente, no mesmo patamar. Também confesso que penei muito tempo com algumas questões ortográficas, sobretudo quando ampliei meu campo de leituras. O que, à primeira vista, se assemelha a um paradoxo – todo mundo sabe que quanto mais se lê, melhor se apura a escrita, o vocabulário, etc – no meu caso, se justifica por uma razão bem peculiar: como lia muitos livros publicados antes da reforma de 1971, virava-e-mexia escapava-me um erro. Nunca cheguei a escrever pharmácia, nem assumpto ou egreja, por exemplo. Mas, não raro, saíam do meu lápis uma ingleza, uma côr, e coisas assim.
Minha situação melhorou, e muito, quando passei a estudar aquilo que, para muitos, é um terror: os prefixos e sufixos, os radicais gregos e latinos. Teve sobre mim um efeito quase tão gratificante quanto o próprio ato de aprender a ler o fora um dia em minha vida. O primeiro, no tempo, porque me permitiu começar a entender o mundo através das palavras, suas principais mediadoras. O segundo, mais recente, por me fornecer a chave para compreender as próprias palavras, molas que acionam a inteligência, a sociedade com suas leis, as relações amorosas, a Fé, o riso: tudo, em suma. Guardo, portanto, um grande apreço a certos campos da gramática ainda hoje. E acho uma pena que ela não seja ensinada como o fora noutros tempos.
No estudo da História, não é de hoje que muitos autores se dedicam à etimologia, à análise da origem e da evolução das palavras, ou seja, uma das searas da Gramática. Heródoto (c. 484 a.C.-c.425 a.C.), considerado o “pai da História”, já se fazia auxiliar desta ferramenta. Na Idade Média, quando ainda se via uma divindade por trás de tudo, e não existia uma distinção clara entre a História Sacra (da Criação, das Tribos de Israel, da Igreja e da expansão da Fé) e a História Profana (dos homens, dos povos, das instituições e práticas), sendo a primeira uma causa da segunda, esta filtrada, portanto, pela Teologia, nutria-se um imenso interesse pela etimologia. Santo Isidoro de Sevilha (560-636), aliás, escreveu toda uma enciclopédia com este título e voltada a este tema: ou seja, conhecer a origem das palavras era conhecer a própria essência do que elas nomeavam. E muitos lhe seguiram o exemplo, ao longo dos séculos, como Marsílio Ficino (1433-1499), Pico della Mirandola (1463-1494), no Renascimento, e, no século XVII, Athanasius Kircher (1601-1680) e, sobretudo, Giambattista Vico (1668-1744) fundamentavam suas pesquisas dos fatos lastreados na análise das palavras que os nomeavam. Voltaire (1694-1778) e os filósofos do século XVIII fariam o mesmo. No século XIX, o interesse decaiu um pouco. Nietzsche (1844-1900), filólogo de formação, é uma das poucas vozes a defender tal procedimento. Mas os estudos sobre o folclore, embrião da moderna Antropologia, adotam-no em sua integridade. E se no XX o viés etimológico demora um pouco a dar as caras, com Foucault (1926-1984), nos anos 70, hoje ele é seguido pela mais variada gama de autores, num ou noutro estudo de caso, como Peter Burke (1937- ...), como o foi por Roy Porter (1946-2000). E dado curioso, nem todos eles eram historiadores plenamente falando. Alguns dos nomes citados empregaram a etimologia na elucidação da geografia, da botânica, da zoologia, da mineralogia, da filosofia, etc.
Por todos esses motivos, creio ter justificado meu gosto pela questão. E ainda hoje, sempre que posso, leio sempre algum livro que trate de algum aspecto controverso da língua, ou de seu emprego. Evito um pouco os mais novos, que pouco contribuem, muito porque a maneira que nos exprimimos hoje é muito pobre. Não prego, aqui, que falemos e escrevamos como nos tempos de Camões, Bocage, Camilo Castelo Branco ou Euclides da Cunha, tomando-os como nossos juízes. Diante de um tal “tribunal de fé”, eu seria um dos primeiros condenados à fogueira, e tomariam como prova o eco logo acima cometido: tal tribunal, isto é construção que se faça? Não, não é disto que se trata. É só um pouco mais de cuidado com a língua, é só disso que precisamos.
Li, recentemente, um curiosíssimo livro intitulado Vícios da linguagem médica, de Cândido de Figueiredo (1846-1925), o Papa da língua portuguesa no início do século XX. Nesta obra, o autor se propõe a responder as dúvidas de médicos daquela época interessados em corrigirem suas maneiras de falar e de escrever. Falando assim, parece que o volume (na verdade são dois) não passa de um destes manuais ou tabelas de homônimos homógrafos e homófonos que se encontram em qualquer papelaria. Mas, nada disso! Os médicos de então apresentam suas colocações com base num estudo profundo das gramáticas grega, latina e portuguesa. Fazem proposições, antecipam críticas, cotejam certas palavras com as suas equivalentes em francês e italiano, revelando grande erudição.
Não descerei a pormenores, com exemplos, porque não é este o objetivo da crônica. Deixo-os, se houver interesse, para uma outra ocasião. O fato é que mesmo este livro citado, que nada tem a ver, a princípio, com a História, acaba por se revelar um interessante documento histórico: um retrato de uma época em que até mesmo os médicos – aos quais hoje permitimos tudo, da gestão econômica à política, dos esportes radicais aos programas de televisão – dedicavam-se a outras paixões intelectuais que não as de sua área. E, ao que parece, com igual afinco. Que os advogados e bacharéis em Direito o faziam, então, não era segredo, até pela própria natureza de suas atuações e, portanto, não é necessário invocar Rui Barbosa como exemplo. Mas também os médicos? É coisa de se surpreender. E de se invejar, mais uma vez, aquela época, em que o estudo e o correto escrever impunham-se como uma verdadeira necessidade, não só intelectual, como, ao que tudo indica, pessoal. Bons tempos! Sigamos tais exemplos!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de junho de 2008].

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