No sábado passado correu a notícia de que um terrível incêndio teria destruído o Instituto Butantã. Foi dito que mais de cem anos de pesquisa científica foram perdidos graças às chamas. Além de milhares de répteis e insetos vivos, mortos pelo fogo.
Pois é, nada como um dia após o outro: nesta sexta-feira as informações já eram bem diferentes. Sabe-se que pelo menos 42 livros que contêm o registro de coleção de serpentes foram recuperados, além de animais mortos conservados em formol, além de aparelhos e objetos vários. Quanto aos animais vivos, foram todos salvos pelos pesquisadores, que merecem nossos parabéns pela coragem: por mais que estejam acostumados a lidar com simpáticos bichos quais serpentes, lagartos, escorpiões e aranhas, enfrentar um incêndio para salvá-los, dão provas de sua grande abnegação e valor.
Mas o saldo da destruição, ainda assim, não foi pequeno: mais de 70 mil espécimes foram destruídos – e combalida, também, ficou à nossa língua, graças às matérias que transformaram espécimes em substantivo feminino (confusão motivada pela palavra espécie), à qual adicionaram o adjetivo conservadas (que proporciona um inequívoco pleonasmo, pois espécime é sempre algo já conservado). Tudo isto enquanto o prédio ainda fumegava... Aliás, o fogo deu-se justamente na ala do Instituto que abrigava a coleção relacionada à ecologia e à evolução das espécies. É de se imaginar que os Criacionistas devem estar dando graças à Javé por isto: “as chamas do Senhor queimaram as crias de Satã”, devem estar bradando, regozijados, em seu templos...
Voltando ao campo da razão, é realmente lastimável o que ocorreu. O Butantã sempre foi um centro de excelência na pesquisa científica e, nos últimos anos, tornou-se o maior fornecedor de vacinas e soro antiofídico do país. Ao mesmo tempo em que convivia com uma biblioteca repleta de goteiras, infiltrações e cupins, e até de uma sala, sem teto, que precisou ser interditada no início do ano por conta de um deslocamento de vigas. Sem falar nas instalações elétricas do complexo, improvisadas e abaixo das necessidades, as quais acabaram por dar causa ao incêndio. Como se vê, seus pesquisadores são, de fato, heróis: lidam com bichos pelos quais todo mundo tem horror, enfrentam o fogo para salvá-los e, ao mesmo tempo, trabalham, produzem, em condições precaríssimas.
A Secretaria estadual – está explicado! – de Saúde, à qual está subordinado o Instituto, procurou defender-se alegando ter investido R$ 2,6 milhões na infraestrutura nos últimos quatro anos. È de se perguntar onde foi parar tanto dinheiro visto que, por exemplo, a coleção de obras raras, que abriga publicações dos séculos XVIII e XIX, encapadas com pele de cobra, “está espremida em um armário de ferro comum, cheirando à naftalina”, segundo a bibliotecária responsável. E, acrescentou, para a reportagem de um grande jornal: “Faz dez anos que cheguei aqui e faz dez anos que peço para comprarem um armário novo”, para guardar as raridades. Façam os cálculos: já sabem que partido, e que pessoas, estavam no comando do estado de São Paulo há dez anos...
Que azar ronda o nosso estado! Que urucubaca! Por que tanta penúria? Por que tanta incúria? Que sombra negra é esta que paira sobre nós? Até a ciência padece nesta terra desolada, entregue às cobras e aos lagartos. E nem mesmo estes, como se vê, estão livres do perigo...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de maio de 2010].
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