Fetiche é uma palavra que confunde muitas pessoas. A maioria delas, hoje em dia, só consegue relacioná-la a acessórios que poderiam incrementar seus momentos de prazer lúbrico. Para uns são botas, para outros lingeries de seda desta ou daquela cor, e coisas que tais: a imaginação, neste campo, é vastíssima... Todavia, o termo, em sua origem, nasceu no âmbito do sagrado. Ele remete ao português feitiço, que foi o nome dado pelos portugueses do século XVI aos objetos utilizados pelos africanos em seus cultos religiosos (o termo então empregado para o que hoje chamamos de feitiço era então bruxedo: “algo feito por bruxas”). Porque empregamos o galicismo fetiche – transliteração integral do idioma francês – é uma longa história que não cabe aqui. Mas sua significação primordial seria, de fato, um objeto concreto ao qual se atribuem poderes mágicos ou sobrenaturais, sejam eles positivos ou negativos. Nesta categoria incluem-se os talismãs e as imagens sacras ditas miraculosas – desde que reverenciadas somente enquanto objeto e não por sua referência à divindade ou santo que procura representar. Quando um católico, julgando não ter recebido uma graça de seu santo de devoção, volta sua imagem contra a parede, “de castigo”, ele está sendo fetichista. Quando um neopentecostal condena todas as imagens de santos como símbolos do demônio, também está sendo fetichista: mais razoável seria se dissesse que elas são inúteis ou desnecessárias. Mas não é da precariedade teológia de certos indivíduos que tratamos aqui.
O conceito moderno de fetiche foi criado pelo pensador alemão Karl Marx (1818-1883), um sujeito notável sob muitos aspectos, mas considerado uma besta fera por muitos ignorantes. Não quero dizer com isto que ele era infalível, como, de Moscou a Cuba, foi dito por muito tempo. Que ele cometeu erros, é fato. E mais ainda os cometeram seus pretensos seguidores. Todavia uma série de argumentos dele continuam inabaláveis, e, dentre eles, o conceito da fetichização da mercadoria.
Em linhas gerais, Marx procurou dizer o seguinte: diversas mercadorias extrapolam o seu valor de uso – a sua utilidade – e acabam sendo revestidas (pelos produtores e pelos meios de comunicação de massa) de atributos superiores ao que eles possuem. Ao mesmo tempo, ele parece ser acessível a todos, mesmo que, na verdade, somente o seja a alguns poucos. E, por isso, ele se torna um símbolo de uma certa posição social, e sua acessibilidade, supostamente intrínseca, acaba se tornando uma exclusividade de fato, negada ao grosso das pessoas. Em suma: aparentemente, todos podem tê-la, isto é fundamental para a propaganda, mas somente uns poucos e bons podem adquirí-la, e, assim, estes se tornam melhores, tão somente por tê-las, do que os outros que não as possuem.
Exemplificando melhor, aproveitemos o caso recente do assalto de uma relojoaria num shopping center paulistano. Foi dito que alguns dos relógios ascendiam aos cinquenta mil reais, o preço de um bom automóvel que leva uma pessoa trabalhadora aos seus compromissos e ao seu lazer. Ora, qual a razão de um valor tal para um simples ornato de pulso produzindo em escala industrial? Acaso os engenheiros e desenhistas da indústria automobilística são menos capazes do que aqueles empregados na produção de um relógio? Seria o ato de consultar as horas (disponível em qualquer painel de carro, telefone celular, ou relógio de torre de igreja) uma função de tal crucial que justificaria o preço absurdo cobrado pelo instrumento que o propiciona? É claro que não. Trata-se de um puro fetiche. “Sou melhor porque tenho, nesta terra de desdentados, um relógio cujo preço, convertido em dinheiro, consertaria a boca de vinte famílias. Não importa que da minha avis rara exista centenas de similares na América do Norte, Europa e Ásia: nesta terra de bugres só poucos têm o que tenho”.
É triste saber que gente que ganha muito dinheiro não tem mais onde empregá-lo se não em adornos pessoais, para deleite exclusivo de seus prazeres. Leva-nos mesmo a pensar se, com tais fetiches, não procuram compensar uma série de fraquezas que enxergam nelas mesmas, de origem física e, até, eróticas, também, por que não? Pois quantos não devem pensar (não nos termos em que apresento, porque este tipo de gente costuma ser rala em termos de vocabulário): “Substituirei minha potência sexual, combalida, pela do motor do carro que comprarei”; ou “minha obesidade e calva avantajada afastam-me das mulheres [ou dos jovens: a quantidade de machões empedernidos que têm se aventurado em busca de novas experiências, saciados e cansados das tradicionais, aumenta a cada dia: que o diga um certo Fênomeno]: então está resolvido: desfilarei com um relógio caro”.
É lamentável que tantos ricos brasileiros se comportem assim, macaqueando os norte-americanos somente no seu consumo voraz. Não aprendem com eles que financiar a cultua, o estudo, a saúde e tantas outras causas sociais, além de sua utilidade, para o grosso do país, também poderia ser uma forma de divertimento para suas vidas tão ocupadas. Infelizmente, em lugar disso, prestam eles cultos a qualquer excentricidade vinda de fora que os faça sentir superiores aos outros: tal e qual os feiticeiros vodus do Caribe que, por usarem cartolas na cabeça, julgavam-se acima de todos. E tal comportamento, ao menos para mim, me recorda uma velha frase, não lembro dita por quem, que diz que no Brasil não existe luta de classes. Existiria, isto sim, uma gente sem classe alguma, no centro do poder político e econômico (cada vez mais irmanados), tentando se impor sobre um bando de desclassificados: cujo resultado é esta mixórdia geral que assistimos, quotidianamente, em todas as esferas, em todos os setores.
Até quando, meu Deus! Até quando, Júpiter e Olorum?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de junho de 2010].
Uma mulher de negócios em Chaves no século XIX
Há 3 semanas
Nenhum comentário:
Postar um comentário