Há poucos dias, em Ouro Preto, conversava com um amigo que morou por muitos anos numa das repúblicas de estudantes mais antigas da cidade. Discutíamos o trote universitário e suas várias modalidades na cidade e no país. Ali, como é sabido, a coisa funciona mais ou menos como uma brincadeira. Obriga-se o calouro a vestir uma roupa ridícula e a pendurar no pescoço uma placa com o seu apelido e a informação “batalho uma vaga na República X”, ou Y, ou Z. Com esta indumentária e adereço, ele tem de circular pelas ruas durante um mês, pouco mais ou pouco menos. E enquanto o novato ou novatos não forem substituídos por um outro recém-chegado, são eles uma espécie de garçom, office-boy e lavador de pratos de todos os veteranos. Pode parecer meio pesado, à primeira vista, mas como dizia meu amigo, tais práticas não só socializam o calouro junto à comunidade, como também o ensinam a viver numa moradia coletiva. “Menino mimado aprende, rapidinho, a se virar aqui”, completou meu confrade.
Parece tudo muito idílico, falando assim. Todavia, às vezes, as punições podem ser pesadas, como no caso de um novato cometer alguma infração (o não cumprimento de uma tarefa na casa). Aí, ele tem de pagar. Quer seja “levando um vento” (quando os veteranos invadem o seu quarto e deixam tudo, literalmente, de pernas para o ar), quer tomando pinga para além do que ele agüenta, servida por todos na república – isto, sim, é violento e perigoso, mas sei de muita gente que adorou, apesar da ressaca.
Os trotes são uma modalidade de aceitação de um indivíduo num grupo. Uma espécie de ritual de passagem. Podem ser divertidos, até mesmo para quem o sofre, é claro, mas traz em si um componente inequívoco de humilhação e violência que, com freqüência, extrapola seus limites. São notórios os casos ocorridos em tradicionais instituições de ensino, civis e militares, nas quais a selvageria prevaleceu sobre o aspecto lúdico ou ritualístico de tais episódios. E nada justifica tais procedimentos: nem a longa tradição das escolas, nem o fato de serem disputadíssimas pelos alunos, por sua notável qualidade de ensino. Seja numa ESALQ, seja numa faculdade de beira de estrada, seja numa POLI ou numa universidade onde é maior o número de vagas do que o de inscritos, tais fatos não devem, jamais, ocorrer.
Nesta semana acompanhamos dois lastimáveis episódios desta natureza. O primeiro em Leme, vitimando um jovem estudante de Iracemápolis. Forçado a beber para além do que toleraria, a se arrastar por uma mistura de urina e excrementos animais, foi ainda espancado e arremessado na sarjeta por um psicopata – é este o termo, e não outro – quando chegou a bater a cabeça e perder os sentidos. Depois disto, foi internado como indigente. O segundo, mais recente, deu-se em Santa Fé do Sul. Lá uma moça, grávida, foi queimada com tíner e creolina, por uma veterana de Pedagogia (anotem: pedagogia! Que bela profissional será esta senhorita no futuro!). E paremos por aqui. A semana ainda não terminou, mas, com certeza, novas violências serão cometidas.
O curioso nisto tudo é que, ano após ano, tais violências ocorrem sem que ninguém faça nada para coibi-las. Muitas, nas próprias instalações universitárias. Outras, a poucos metros das mesmas. Todas, às vistas de qualquer passante, em locais bem conhecidos. Se a polícia, tão ocupada noutros casos, não quer intervir, até compreendo. Mas o que custa para as direções das faculdades destacarem um ou mais funcionários para, pelo menos, espiarem o que ocorre? Intimidarem, com suas presenças, os excessos? Identificarem, com mais prontidão, os agressores? Creio que todos os bons alunos e professores destas instituições agradeceriam qualquer esforço feito para que suas faculdades e universidades não tivessem seus nomes lançados à lama por meia dúzia de degenerados.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de fevereiro de 2009].
A vaca estradeira
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