quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Nem sempre o tempo é um bom conselheiro


A imagem acima é do Grande Hotel de Ouro Preto, projetado por Oscar Niemeyer no final dos anos 1930, e erguido no princípio dos 1940. Conta-se que na planta original todas as janelas seriam como a que se vê no canto esquerdo, octogonais, e a cobertura seria uma laje com um espécie de jardim-suspenso – só quem conhece muito pouco a cidade pensaria em algo assim, com pouca ventilação e com risco certo de infiltração (chove uma barbaridade, o ano todo). Coube ao arquiteto e urbanista Lúcio Costa (1902-1998), um modernista que entendia muito de patrimônio histórico, demover seu confrade daqueles planos, sugerindo o emprego das varandas de madeira e da cobertura de telhas, como se vê em toda a cidade. E, felizmente, logrou seu intento. Se, para muitos, ainda hoje, é um susto vê-lo em meio ao casario colonial, com o tempo acostuma-se com ele. Percebe-se que não é tão discrepante assim: o original seria muito pior. Mas Niemeyer nunca ficou satisfeito com isto. Tanto que bastou seu companheiro de ofício morrer, e ele voltou à carga, conseguindo que pelo menos uma das varandas fosse alterada, convertendo-a na janela mencionada. E teria prosseguido, não fosse o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ter embargado a continuação da obra.
Em São Paulo, recentemente, quiseram reformar o prédio do Detran, em frente ao Parque do Ibirapuera, para transformá-lo num museu. Como a construção também é um projeto de Niemeyer, chamaram-no para que propusesse as alterações. E, de imediato, o que ele planejou: que se fechassem todas as vidraças, substituindo-as por uma imensa superfície branca, sem janelas. Até o governador José Serra de Chirico viu que não tinha cabimento ter-se uma construção em frente a um parque fechada para este. E tiraram o velho “guia genial da arquitetura dos povos” da frente dos trabalhos.
A última do grande arquiteto – não confundam com “o Grande Arquiteto” – deu-se em Brasília, na qual a lei determina que Oscar Niemeyer, e só ele, pode mexer na arquitetura pública da capital, “do toldo do Itamaraty à churrasqueira do Alvorada”, como se brinca. Ali intentou construir uma Praça da Soberania em plena Esplanada dos Ministérios. E na tal praça, ergueria um prédio, chamado de Memorial dos Presidentes, com um obelisco de cento e cinquenta metros de altura, e um estacionamento para três mil automóveis. Com exceção das empreiteiras e dos fabricantes de cimento, ninguém gostou da idéia. A geringonça, disseram, acabaria servindo como uma espécie de tapume, obstruindo a visão do prédio do Congresso Nacional. Houve até quem arriscasse que muitos congressistas apreciaram a idéia: nada como um tapume na frente para que ninguém veja o que se faz atrás...Outro aspecto levantado seria uma certa impropriedade na homenagem aos presidentes, como um todo. Houve gente de bem, primeiro no Palácio do Catete e até no Alvorada, como, também, um povinho que passou por lá que melhor seria se não tivéssemos de recordá-lo, e que não merece, certamente, um monumento. Mas a pá de cal na coisa toda foi dar o nome de Praça da Soberania a um estacionamento para milhares de automóveis. Começa-se assim. Depois, abole-se a palavra “cidadãos” e institui-se, em seu lugar “motoristas”. Termina-se por se chamar o Presidente da República em “Excelentíssimo Senhor Guardador de Carros”...
Niemeyer tem um legado arquitetônico tão vasto quanto os seus anos de vida. Não deveria maculá-lo com arroubos juvenis estando já mais do que centenário. Que desenhe. Que projete. Mas que não queira que aceitemos tudo que vem de seu lápis como a verdade transposta em linhas. Há mais gente na área que produz muita coisa boa e com mais sentido. É necessário que as velhas e imensas árvores tombem para que as mais jovens, à sua sombra, possam crescer.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de fevereiro de 2009].

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