quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Fugindo do Carnaval

E o Carnaval chega novamente...Lembro-me de ter lido uma matéria no ano passado, lá por estes dias que antecedem a “Folia de Momo” (será que alguém ainda usa tal expressão hoje em dia? Duvido). Pois bem, a referida reportagem contava das pessoas que amam o “tríduo momesco” (outro termo caído em desuso e que só se justifica historicamente: hoje a farra vai de sexta-feira até a madrugada da quarta, cinco dias, portanto) em contraposição àquelas que, não propriamente o odeiam, mas preferem ficar a distância dele. E trazia casos e mais casos de quem percorre o país em busca das festas mais animadas (alguns poucos davam-se ao luxo de viver um quase que eterno carnaval, atrás de micaretas e que tais sobretudo no Norte e Nordeste, ao longo do ano) como, também, dos que se internavam nalgum lugar no qual, acreditavam, estariam longe da fuzarca. Estariam longe, pensavam, porque isto nunca é garantido, como veremos.
Tenho um amigo que odeia Carnaval. Anarquista convicto, um dos últimos que conheço, diz ele que uma festa criada pela Igreja, sancionada pelo governo, e permitida pela polícia, não é festa, mas, sim, um tipo diferente de desfile, parada ou procissão. E nos quatro últimos anos vem tentando fugir ainda da mais simples referência, vaga que seja, ao evento, das mais variadas formas. No primeiro ano, ele e a mulher hospedaram-se no sítio do cunhado (irmão dela), lá para os lados de Atibaia. No primeiro dia, tudo correu bem, ouvindo os passarinhos, descansando. No segundo, o caseiro recebeu uns amigos, improvisaram uma festinha ao som de Axé e que tais tocados em altíssimo volume pelo rádio e lá se foi a sua paz. E, por pouco não se foi também a sua “solidariedade com as classes trabalhadoras”. Fez as malas no mesmo instante e voltou para a Capital.
Chegou o ano seguinte e meu amigo tentou algo diferente. Alugou uma casinha numa praia isolada do Sul, muito bonita, por sinal. Lugar meio remoto, fora do circuito da folia. No lugar, contavam-se somente mais três casas e, ele pensou, nenhum folião procuraria aquele ponto tão pacífico. Ledo engano! As casas também foram alugadas para gente de fora que, claro, improvisou seu próprio Carnaval ali, no meio do nada. Como o aluguel já estava pago, teve que aguentar cinco dias embalado pela voz de Dª. Daniela Mercury.
No terceiro ano de “exílio momesco” (a expressão é dele), tentou algo parecido ao que fizera no ano anterior, acreditando que o raio nunca cai por duas vezes no mesmo lugar. Ou melhor, julgando que a experiência não poderia se repetir, estatisticamente, em semelhantes condições. Foram então para uma outra praia, desta vez deserta mesmo, no litoral Sul do Rio de Janeiro, perto de Paraty. Lá nem casa havia e o plano deles era dormir numa barraca. E apresentava uma garantia extra: o acesso até ali só se dava por barco, logo, a possibilidade de uma invasão seria muito mais remota. Primeiro dia: um paraíso! Segundo dia: um barco é avistado na linha do horizonte, pela manhã. A tarde vão surgindo mais outros. E outros. E outros. E se aproximam da praia. E fazem um Carnaval marítimo bem defronte à sua barraca. Tudo ao som da voz de Dª. Ivete Sangalo (mais onipresente, segundo ele, que os antigos ditadores comunistas: está toda semana em cartazes, capas de revistas, programas de televisão e rádio, anúncios disto e daquilo). E o pior, dali ele não tinha para onde ir.
No ano passado, ele radicalizou. Decidiu acampar com a mulher numa reserva natural, num parque no Sul de Minas Gerais que não permite o acesso a muita gente. Ali, garantiu-me, estaria seguro. Qual o quê! Bastou um único outro casal, numa barraca a uns quinhentos metros da sua, para estragar seu idílio. Ali, no meio do nada, um rádio berrava os inesquecíveis e altamente elaborados sucessos musicais do grupo Chiclete com Banana...
Já meio desesperado, não sabia o que fazer este ano. Sugeri, e ele aceitou, o melhor lugar para se sentir longe do Carnaval: o interior de São Paulo, de preferência uma cidade entre média e grande. Nelas só percebemos a época do ano em que estamos quando ligamos a televisão, tão animadas são no quesito folia. Disse-me ele que vai experimentar...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de fevereiro de 2009].

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