Considero, em geral, os publicitários pátrios de uma falta de sensibilidade, de gentileza e de cultura atrozes. Esses vendedores de cerveja – porque a grande comenda que gostam de exibir no peito é a de terem feito a campanha de tal ou qual marca de cerveja –, por mais que se digam ligados ao mundo, parecem que, com ele, nada aprendem. Vejamos alguns exemplos, no campo, justamente, das cervejas.
Uma cervejaria holandesa, cujo produto vem numa garrafa verde – sabem muito bem da qual se trata – fez um anúncio divertidíssimo. Nele, um grupo de mulheres, recebido na casa de uma amiga, é acolhido pela anfitriã em seu closet. Dado o espaço do mesmo, perfeito para se acomodarem roupas, sapatos, e tudo o mais, as visitas irrompem em gritos de felicidade, pasmo, êxtase, se não quase histeria, quer por inveja, quer por reconhecimento à amiga que fez por merecer tais dependências, e a qual, é de se supor, emprestaria às outras o que se conservava ali. Mas no meio de seus gritos, são interrompidas por outros, os de seus maridos ou namorados, que ecoam de um outro canto da casa – que, em sua natureza e diapasão, são idênticos aos primeiros – pelo fato do anfitrião mostrar uma câmara frigorífica, do mesmo tamanho do closet de sua senhora, mas abarrotado de garrafas da dita cerveja. Uma peça publicitária concisa, sutil, que prescinde de qualquer palavra e se torna praticamente universal. E justa: homens e mulheres são tratados da mesma maneira.
Já uma outra cervejaria belga põe a cena num vagão-bar de um trem onde um garçom esforça-se por tirar um chope perfeito, mas é impedido graças aos solavancos da composição. Tomando-se de brios, deixa o vagão e volta um pouco depois, conseguindo, finalmente, servir a bebida como deveria. E no fim vemos como ele se livrou do movimento do trem: soltando o vagão. Qual a mensagem? A cerveja é tão boa que deve ser apreciada da maneira correta: ela vale mais do que todo o resto.
E nós, somos brindados com o quê, por aqui? É curioso notar que nenhuma, absolutamente nenhuma, grande cervejaria nacional faz propaganda de seus produtos enaltecendo o sabor dos mesmos. Ou a qualidade. A ênfase recai sobre o fato da cerveja estar gelada, mas o gelo, convenhamos, não vem de fábrica. E estupidamente gelada, bebe-se, de fato, qualquer uma. No máximo fala-se que uma “desce redondo”, o que não quer dizer que é boa, só, talvez, mais bebível do que as da concorrência. Outra alega a sua tradição, feita desde fins do século XIX. Mas quem se lembra do gosto da mesma antes de ser comprada pela atual proprietária, há de concordar que, da origem, só conservou o nome. E de uma outra ainda, confesso que não compreendi a verdadeira intenção dos anúncios: querem vender cerveja ou uma loura norte-americana?
Mas a campeã de mau-gosto é a dos guerreiros. Aquela que colou, qual sanguessuga, à pífia seleção patrícia de futebol do último mundial: os tais guerreiros, que se mostraram muito mais cervejeiros e cascateiros do que tudo mais. Agora veio com uma peça em que um bando de homens sem camisa e pintados como torcedores europeus trazem letras no corpo para se transformarem numa espécie de cartaz humano. Da televisão, suas noivas, mulheres ou o que forem, interpretam a palavra como “amar”, como se a mesma fosse dita simplesmente assim, como se no modo infinitivo, e solto esse verbo significasse alguma coisa. Porém, logo depois, chega o resto do bando de homens e forma o nome da cervejaria – o que é uma tremenda bobagem, convenhamos: cores do time ou mesmo o nome dele, até que vai, mas torcedor fazendo propaganda de cerveja? Só se for paga. E o anúncio conclui com a vingança das moças frente à baldada declaração de amor: beberão toda a cerveja deles. Que pobreza de concepção! Que machismo chulo e ultrapassado! Que diferença do exemplo da cervejaria holandesa!
Com publicitários destes podemos entender o estado de mendicância das idéias neste país. E por que bebemos cervejas tão ruins.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de novembro de 2010].
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