sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Bravura do Chirico

Lula perdeu dedo, Dilma venceu câncer,
Serra leva uma bolinha de papel e
pede tomografia
... http://twitter.com/@maudiz

O candidato José Serra, o Zé Chirico, nosso defuncto governador, é uma personagem surpreendente.
Primeiro, ele deixou que sua filha quebrasse o sigilo fiscal de milhões de brasileiros – expondo os dados dos mesmos – e depois reclamou quando fizeram o mesmo com a dita cuja – sendo que as informações sobre ela não foram publicadas.
Mais tarde, sua ignorância permitiu uma série de e-mails, correntes e panfletos atacando sua opositora por ser ela defensora da união civil entre pessoas do mesmo gênero. E posou em Aparecida, comungando – será que se confessou? Duvide-o-dó... – rodeado de padres e devotos, com uma cara que nunca fez mais jus à expressão “rã-de-água-benta”. Com todos aqueles gestos, ao que tudo indicava, refutava a citada união, para o gozo nada misterioso do clero. Porém, pouco depois, saiu abraçando e beijando a causa, como se nada houvesse. Disse, no que está certo, que a questão é de natureza jurídica, e não religiosa: casamento, como todos sabemos, é outra coisa. Mas por que não disse em meio à padraria, às beatas e às carolas? Aliás, desde quando ele frequenta tal meio, e de maneira tão assídua? Como bem disse o colunista José Simão, da Folha de São Paulo, “Ele tá parecendo o Salazar. Aquele ditador português carola que vivia cercado de beatas!” E que era tão preparado quanto ele. Só que levou Portugal a uma viagem “de volta para o passado” que durou 36 anos, rodeado por assessores tão preparados quanto ele: dá o que pensar. Aliás, a beatice dele dá no que pensar. Acostumado a pular de poleiro em poleiro, rezemos para que o Papa não morra tão cedo: pois o eterno candidato pode se achar no direito de pleitear a vaga...
Continuando sua trôpega trilha de anedotas sem graça, Zé Chirico negou que conhecesse o tal Paulo Preto. Depois, viu-se que ele não somente conhecia “a Erenice do PSDB paulista”, como à sua filha. E tergiversou – expressão querida por ele – como sempre: “E Paulo Preto é um apelido que se dá preconceituoso e racista” (sic). Ao mesmo tempo, questionou o Portal Terra por notícias desabonadoras à sua pessoa, e alegou que a imprensa nacional segue uma pauta petista e contrária a ele. Pauta petista? Onde, cara-pálida? Ou melhor, cara-lívida? Pois é público e notório que todos os grandes jornais e grandes revistas do país – salvo Carta Capital e Istoé – adotaram massiçamente sua defesa. Mas, ainda assim, ele criticou a imprensa. Curioso é que a mesma, nesta ocasião, não manifestou seu temor de que tais palavras do Chirico fossem uma ameaça à liberdade de Imprensa e à democracia. Muito curioso...
Mas a piada da vez foi o suposto atentado sofrido por ele, e sua reação. Falou-se, a princípio, que o bólido lançado contra ele era “bobina de fita crepe” (Rede Globo), “bobina de rolo de papelão” (Agência Estado) e até “bandeira de petista” (segundo a assessoria do PSDB). Todavia, o que se verificou – vejam em http://br.eleicoes.yahoo.net/blog/post/221/serra-piada-no-twitter – foi que o projétil não passou de uma bolinha de papel, da qual o alvo – atingido em plena calva acaciana (no conteúdo: quanto à formosura, Dona Felicidade, d'O Primo Basílio, discordaria) – sequer se deu conta, como mostram as imagens. E qual foi sua reação, posterior? Procurou um hospital para fazer um exame de ressonância magnética, onde obteve a recomendação de um repouso de 24 horas! Ressonância magnética e repouso de 24 horas por um choque de uma bolinha de papel?! Isto é motivo para tal estardalhaço? O finado Mário Covas, já doente, recebeu uma pedrada na cabeça e se portou com galhardia. A atitude do Chirico chega a ser uma afronta a todos aqueles que precisam, por razões reais, de tal exame!
Agora, a propaganda serrista na televisão tem dito a respeito da candidata Dilma que “ela não vai dar conta”. E ele, vai? Se uma bobagem como uma bolinha de papel lançada em sua vasta calva o leva a tais excessos de preservação de sua pessoa, a ponto de criar tanta celeuma, como se comportará diante de uma verdadeira crise? Ou capitulará frente ao mais tênue episódio? Diante de um ataque de perdigotos, convocará a Vigilância Epidemiológica? Ou o SIVAM e o Comando-geral de Operações Aéreas? Irá considerar as gotas de saliva de um interlocutor como um “deliberado ataque com armas bacteriológicas” contra a sua augusta pessoa? Convenhamos que, até hoje, o aspecto físico do candidato sempre sugeriu que ele não seria capaz de enfrentar uma brisa sequer. Mas nem uma bolota de papel?
Os fatos parecem indicar que lhe falta bravura, e abunda-lhe braveza. E fica a pergunta: será que quem se cobre, voluntariamente, com o manto do escárnio, pode envergar a faixa presidencial?
Que papelão, Zé Chirico...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 23 de outubro de 2010].

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