sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O Capitão de Köpenick, o Capitão de Tatuí e o micropoder

Friedrich Wilhelm Voigt (1849-1922) foi um sapateiro alemão que se tornou uma celebridade mundial não graças à sua profissão, mas por uma grande trapaça que perpetrou na cidade de Köpenick, Prússia, Alemanha, no dia 16 de outubro de 1906.
Voigt era um ladrão e um falsário que passou cerca de 42 anos de sua vida na prisão – entre 1864 e 1891, e, após alguns meses livres, voltou ao cárcere e lá ficou até 1906. Ou seja, esteve preso dos quinze aos cinquenta e sete anos de idade, tempo demais para um simples punguista. É de se imaginar os horrores que passou por lá: um adolescente na entrada, um velho na saída. Finalmente, posto em liberdade, teve uma brilhante ideia, inspirada pela sociedade de seu tempo. Voigt percebeu que a Prússia onde vivia era extremamente disciplinada e obediente, sobretudo às autoridades fardadas. E o que fez ele então? Comprou, em diversas lojas, peças usadas de um uniforme de capitão, vestiu-se com elas, e fingiu ser um oficial do exército. Tornado capitão por sua própria vontade, dirigiu-se a um quartel de Hamburgo, onde vivia, e convocou quatro soldados e um sargento para segui-lo, o que fizeram, acostumados que eram a obedecer a seus superiores sem questionamentos. Depois, arrumou mais outros seis praças, embarcou com o grupo num trem para a cidade de Köpenick, e lá ocuparam a prefeitura local. Voigt deu ordem para que sua tropa vigiasse todas as saídas do prédio, e, à polícia da cidade – que também o obedeceu – de que cuidasse da lei e da ordem e que não permitisse que fosse enviado, da agência de correios dali, nenhum telegrama para a capital, Berlim. Então, deu voz de prisão ao prefeito e ao tesoureiro municipal, supostamente por fraude na arrecadação, e confiscou a soma de 4.002 marcos e 37 pfennigs (centavos de marco). Por fim, ordenou a alguns soldados que levassem as autoridades presas para serem interrogadas em Berlim, e aos outros que mantivessem a guarda do prédio por meia hora, ao fim da qual deveriam regressar a Hamburgo. Por sua vez, Voigt, ou melhor, o Capitão de Köpenick, livrou-se da farda e fugiu.
Descoberto o episódio pelas autoridades e pela imprensa, tudo se converteu num escândalo. Caçaram o homem e o prenderam, mas a opinião pública já estava do seu lado. E até mesmo o monarca alemão, o Kaiser Guilherme II, que o perdoou e o libertou dois anos depois. Para o próprio imperador, tudo não passara de uma divertida aventura. E assim Voigt se transformou numa celebridade mundial, a ponto de vender fotografias suas autografadas, apresentar-se em espetáculos e dar palestras, até mesmo na Canadá, nas quais contava sua pilhéria pregada contra o excesso de obediência às autoridades que permeava o seu país. E chegou a publicar um livro a este respeito. Morreu pobre, por conta da inflação que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, e distante de seu lar, se é que teve algum: seus olhos se fecharam, definitivamente, no Grão-Ducado de Luxemburgo. Mas sua fama perduraria. Tornou-se o tema de uma peça teatral em 1931, e de vários filmes. Não é preciso dizer que a imprensa britânica da época – Grã-Bretanha e Alemanha viviam uma espécie de Guerra Fria à época da peripécia de Voigt – exultou com todo o episódio. Ele nada mais era do que um exemplo cabal do que o excesso de obediência, combinado ao militarismo, poderia causar. Uma situação que, em termos mais recentes, poderíamos chamar de o efeito de um micropoder (termo cunhado pelo filósofo francês Michel Foucault) numa sociedade reverente e muda frente ao poder real: o mesmo fenômeno que faz com que um guarda de trânsito se comporte como um general de brigada frente a um cidadão que, digamos, estacionou seu carro na faixa amarela da calçada.
Mas deixemos a Prússia e voltemos às nossas terras. Mais especificamente a Tatuí, SP, onde o comandante do Corpo de Bombeiros local, Capitão José Natalino de Camargo, mandou retirar todos os crucifixos e imagens de santos católicos das unidades sob seu comando, visto que para ele imagens e crucifixos fazem “apologia” da religião católica e contribuem para a “manutenção da falsa crença de que aquela religião seria a única detentora da benesse estatal [sic]”. E, para tal, invocou ainda a Constituição Federal que, de fato, dispõe que Estado brasileiro é laico, mas, segundo seu entendimento, a exibição dos símbolos religiosos seria, portanto, ilegal e inconstitucional. E a comunicação foi repassada às unidades e postos dos bombeiros sob o comando do Grupamento de Tatuí, com ordem para cumprimento imediato.
Frise-se que a Câmara Municipal tatuiense, em moção aprovada por unanimidade, considerou que o militar usou termos desrespeitosos ao se referir aos símbolos católicos. “O ato é arbitrário, com expressões equivocadas, desrespeitosas e imprudentes sobre a religião católica, refletindo total falta de sensibilidade” e que a ordem de serviço fere o livre direito de professar a fé, também defendido pela Constituição”, diz a nota oficial daquela casa legislativa, que repudia a ação do Capitão de Köpenick, perdão, do Capitão de Tatuí. Este, ao que parece, é menos um defensor de um Estado laico, na forma da lei, e mais, é de se supor, um aguerrido militante de alguma igreja ou seita daquelas que combatem os crucifixos e imagens que os quinhentos anos de costume católico no país permitiram que fossem aceitos e reverenciados pela população e pela cultura pátria.
Em suma, trata-se de um puro exercício de seu micropoder que, para o Capitão de Köpenick, perdão, de Tatuí (que, acreditamos, está a léguas de distância, do ponto de vista moral, de Friedrich Voigt: pois este, é um tratante divertido; aquele, um militante empedernido, mas, acreditamos, honestíssimo servidor público) – é maior do que o do Executivo, Legislativo e Judiciário juntos, e comparável somente aos dos chefes de Estado que baniram símbolos religiosos de prédios públicos ao longo do mundo. Maior que Sarkozy é o Capitão de Tatuí!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de novembro de 2010].

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