sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Luz e sombra no Rio de Janeiro

Os últimos episódios ocorridos no Rio de Janeiro, ainda que saudados com entusiasmo pela imprensa, e necessários, frisemos, acabam por expor uma série de mitos à luz da verdade e, quais figuras de cera, não resistiram ao calor dos acontecimentos.
A primeira certeza que se dissipou do manto de escuridão que a envolvia foi a da pretensa organização do crime organizado. Não ponho em questão o quanto aquele se mostra bem preparado na corrupção de autoridades civis e militares em prol de seus negócios. Nem da ampla capacidade de suprir o seu mercado, graças a um preciso gerenciamento baseado na fidelidade de seus quadros à empresa, na eficiência da logística, no aparato de segurança que protege suas transações (da chegada do produto até sua entrega) e na maneira como sabem agradar a um público sempre em expansão. Alem disso, sabem lidar muito bem com seus ativos (capitalizam seus lucros através do investimento em mercadoria e maquinário de controle, boa parte dele importado – Browning.50., Desert Eagle e AK-47), têm um persuasivo modelo de cobrança que desestimula a insolvência, quase eliminando o passivo proveniente da inadimplência e, no que diz respeito às retiradas, são bastante modestos: um barraco com banheira de hidromassagem e cama de motel longe está de um iate, de um castelo, de uma ilha particular, de uma luxuosa casa de praia ou de um apartamento de cobertura. Refiro-me à falta de organização do crime organizado na medida em que seus membros se comportaram quais baratas surpreendidas num cômodo escuro tão logo se acende a luz: correm, tresloucadas, para todos os lados, fugindo em pânico, sem esboçar qualquer comportamento de defesa ou contra-ataque.
A segunda, que emergiu da cortina de sombras que impedia sua perfeita visão, foi a de que o crime organizado não declarou guerra ao Estado do Rio de Janeiro. Comparar a ação das quadrilhas de traficantes cariocas com as da FARC (que é criminosa, mas ideologizada e com organização militar) e outras guerrilhas que tais é absurdo e mentiroso. A prova encontra-se, do ponto de vista estratégico, no fato de não terem um plano conjunto de defesa e reação, de contra-inteligência capaz de se antecipar ao ataque nem, tampouco, terem conservado uma certa parcela de apoio popular suficiente para endossar suas atitudes – o que, todavia, tiveram no passado. E do ponto de vista tático, verificou-se uma completa fragilidade em suas cadeias de comando – foi um salve-se quem puder – além da inexistência de planos de fuga ou retirada, controle do território, etc. Os traficantes do Rio não são talebãs ou terroristas iraquianos, e uma prova é que, felizmente, não se registraram baixas nas forças governamentais em razão dos tiroteios. Como, também, não há sentido algum em chamar o conjunto de operações de Guerra ao Tráfico, nem como licença poética – visto que não há poesia nenhuma em toda a coisa. Pois não se trata de uma guerra civil, a menos que interpretemos o episódio como uma guerra do Estado contra uma parcela de cidadãos – criminosos, é verdade, mas cidadãos – o que causa uma confusão infernal com cheiros de Vendéia, Contestado e Canudos.
A terceira, subtraída às trevas que a obliteravam, diz respeito à confiança que podemos ter nos órgãos públicos de segurança, estaduais e federais. Pois já se fala em descaminhos de drogas de armas por parte de policiais e militares, e de possível cooptação de membros das tropas do Exército pelo tráfico. A isto chamam “contaminação”, que querem evitar através do rodízio de oficiais e soldados nas operações. Vá lá que os mal-pagos e humilhados praças do Exército, muitos deles moradores de favelas, capitulem diante de promessas de dinheiro e de proteção (ou não agressão) às suas famílias. Mas oficiais também? Que tipo de quadros o Exército está formando hoje em dia? Aí está uma coisa para realmente ficarmos preocupados.
A quarta e última, acossada do tugúrio onde vivia, fundamenta-se num, e apenas num fato: a ocupação dos morros pelo governo do Rio de Janeiro – uma medida esperada, desejada, implorada pelo grosso da população, não digo carioca, mas nacional – só se deu em razão da proximidade de uma Olimpíada e de uma Copa do Mundo. Percebeu-se que era preciso “mostrar serviço”, passar a imagem de que o Rio é uma cidade tranquila para os turistas, e atrair capital. Só e somente só isto.
De minha parte, sempre fui favorável à recuperação, pelo Estado, de áreas carentes que se encontravam à mercê dos criminosos. Minha objeção à certa glamourização das favelas, bem como a certas intervenções urbanísticas cosméticas, criticadas por certos grupos, baseava-se num ponto bem concreto: urbanizá-las não seria sinônimo de abrir ruas para a passagem de camburões e caveirões, mas de ambulâncias, entregadores de serviços, vans e ônibus escolares, e, também, veículos de patrulha comunitária, como se tem nos bairros melhores. Endosso ainda que manifesto o meu mais profundo respeito e solidariedade aos policiais e tropas militares envolvidas nestas operações. Estes, sim, são verdadeiros heróis. E é meu desejo que se desincumbam de tal tarefa da melhor maneira possível para eles e para a sociedade. Mas é lastimável que um clamor popular e nacional de décadas – a presença do Estado nos morros cariocas – só seja possível quando se quer fazer alguma coisa para turista ver. E vir.
A luz que banha a Baía da Guanabara é muito intensa. E parece brilhar um pouco mais nestes dias. Parece. Pois é a luz que projeta a sombra. Veremos o que delas, e graças a elas, surgirão.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de dezembro de 2010].

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