sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Halloween 2010: entre a bruxa e o vampiro, quem ganha?

Graças a uma ironia do calendário, a votação do segundo turno para a Presidência – e para alguns governadores, em vários estados (infelizmente, não no nosso) – coincidirá com a festa neopagã do Halloween, ou Dia das Bruxas.
Já manifestei publicamente, inclusive neste espaço, minha implicância com a dita festa, ao que parece introduzida no Brasil pelas escolas de inglês, com supostos fins didáticos, e que, na verdade, se converteu – se não era esta intenção desde o início – num daqueles claros exemplos de colonização cultural, por meio do qual a classe-média brasileira finge que é norte-americana. Louve-se, portanto, o esforço de alguns patriotas que querem transformar a data em Dia do Saci. Uma iniciativa divertida e curiosa, mas com pouco apelo mercadológico, visto que o Saci é fumante, não usa roupas e tem uma perna só: ou seja, não pode ser garoto propaganda de roupas, nem de sapatos, nem de tabaco, ou cachimbo, proibida por lei.
De minha parte, sou muito mais favorável – exotismo por exotismo, globalização por globalização – a que importemos algo como o Dia dos Mortos mexicano, mais carnavalizado, menos sombrio, colorido, alegre, que ri da Morte, convertendo seus símbolos – a caveira e o esqueleto – em doces de açúcar, caricaturas das classes sociais e profissões, e numa festa não para meninos e meninas, mas para toda a gente. Não digo o mesmo para o Holi, o festival das cores indianos, realizado entre fevereiro e março de cada ano, porque coincide com o nosso Carnaval. Se é que não é o próprio Carnaval deles. Tem, aliás, muitas semelhanças com o antigo entrudo português e é de se perguntar se este não deve o seu tanto àquele.
Porque em matéria de cópias de festas, em grande parte alheias à nossa cultura, creio que somos os campeões da imitação sem juízo. E, assim, por que não copiar mais algumas? Já que introduzimos o rodeio de feição norte-americana, por que não outros eventos de igual natureza? Algo como a corrida do Palio, que ocorre em Siena, Itália, muito melhor que estes enduros e rallys bestas que ocorrem em nossas estradas rurais, e que matam um sem número de galinhas, cabras e vacas pelo país afora: no Palio quem quebra o pescoço não é o cavalo, mas a besta que o monta. Ou, por outro lado, a Corrida de Touros à portuguesa, mas sem os cavaleiros e bandarilheiros, só com os forcados tentando imobilizar o touro? Tal espetáculo, mais que lusitano, beira as proezas minóicas, as famosas competições dos antigos cretenses sobre touros: mais que venerando, seria um clássico espetáculo. E me incomoda verificar, também, já que raramente copiamos algo bom, e na maioria das vezes impedimos seu igual de aqui florescer, porque temos tão poucas comemorações nacionais relacionadas ao Candomblé. Com exceção da Festa de Iemanjá, em 2 de fevereiro, forte em cidades litorâneas, mas inexistentes em todo o resto, assim como umas tantas celebrações que se veem na Bahia, e restritas ali, nada mais se verifica. É chegada a hora dos adeptos das religiões afrodescentes, dos espíritas, maometanos, budistas e quem mais se sentir negligenciado, reivindicar suas datas santas, com peso de feriado nacional. Ou este, afinal de contas, não é um país de todos?! E até àquele Deus desconhecido, reverenciado em Atenas, e que São Paulo disse se tratar do próprio Javé: pois se o Deus Desconhecido é igual a Javé, este também é igual àquele. E celebremos o Deus desconhecido!
Retornando às plagas sublunares, às mundanidades, lembremos que o nosso Halloween de 2010 será assinalado pela eleição presidencial em segundo turno. De um lado temos uma candidata que alguns consideram uma bruxa. De outro, um sujeito cujo apelido, de longa data, é vampiro. Um velho ditado espanhol sempre asseverou que ainda que não acreditemos nas bruxas, elas existem, mesmo assim. Já os vampiros, também não pertencem ao campo meramente da ficção: lembremos da Máfia dos vampiros, ou dos sanguessugas, que cometeu barbaridades contra a Saúde no Brasil, através do Ministério responsável por aquela pasta, entre os anos de 1998-2002 – justamente o período de gestão de um certo candidato: dizem por aí que o apelido não se refere apenas à sua encantadora figura pessoal.
Pois bem, que os eleitores avaliem se preferem uma bruxa ou um vampiro, como se tem falado por todos os cantos. Somente gostaria de lembrar que as bruxas são capazes de bons feitiços e, não por acaso, o maior escritor brasileiro, Machado de Assis, foi apelidado de “Bruxo do Cosme Velho”, por ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade, graças ao poder encantatório de sua pena. Já os vampiros – não os da versão água-com-açúcar de certos pífios romances infanto-juvenis, mas os canônicos – são notórios por sua teimosia, arrogância, sede de vingança e de perseguição: nada esquecem, no interior de seus sepulcros, como, também, nada aprendem, repetindo, até a exaustão, seus erros, seus despotismos, presos à sua empáfia e revanchismo, e cegos à luz da razão. Então: quem vocês acham que deva ganhar?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de outubro de 2010].

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