sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A Mais delicada pessoa que conheci

Voialtri pochi che drizzaste il collo
per tempo al pan de li angeli, del quale
vivesi qui ma non sen vien satollo
...”.
Dante. Div.Com., Par., Canto II, vv. 10-12.

Peço a compreensão dos leitores para tratar de um assunto muito particular. Bem como por minha demora nele. Mas a pessoa que é o tema destas linhas, e que desde o último sábado se encontra junto ao Senhor – seja Ele qual for, seja o Seu nome conhecido ou não, mas, certamente, O verdadeiro – faz jus a todas as loas possíveis, visto que suas qualidades sempre foram muito superiores a estes meus parcos talentos de escriba. E, para prestar-lhe a justa homenagem – vã pretensão: páginas e páginas poderiam ser escritas para este preito –, escolho não o Encômio, ou louvação – pois qualquer nulidade, por mão mais hábil, pode ser sagrada como uma heroína ou uma santa em texto impresso –, nem a Elegia – pois a ternura que sentia, e sinto, por quem ora descrevo, e a tristeza que traz sua partida, cabem a mim e a alguns poucos, bem poucos. De modo que não necessito comover os leitores quanto à minha dor. Mas, sim, convencê-los do valor real de tal perda. De modo que nada melhor para tal do que proceder a uma descrição, analítica e objetiva, do admirável ser, que me foi tão próximo, e que por fim livrou-se, e digo felizmente, desta nossa terra tão inculta, tão grosseira, tão desprovida de qualquer sutileza.
Minha avó foi a pessoa mais culta, mais talentosa, mais delicada, mais sutil e, sob vários aspectos, mais sábia que conheci. Sempre foi uma ótima leitora e do melhor que havia. Em sua casa existiu uma biblioteca – não sei que fim foi dado ou planejado aos seus livros – que, se não era vasta (por volta de mil volumes), abrigava o que de melhor havia da cultura humana. Com ela aprendi a amar e reconhecer a vida e os dons literários de São Francisco de Assis (sua célebre Oração, emoldurada, esteve por muitos anos na parede do quarto, senão onde nasci, o que foi o primeiro em que estive depois de meu nascimento, e no qual, morei por quase dois anos, dos quais tenho as mais fortes e gratas lembranças). Com minha avó conheci Dante – o qual ela citava de cor, em italiano e português, e César, que para além do general romano, tornou-se para meus olhos de menino o escritor do Comentário da Guerra das Gálias, cujo primeiro livro, que começava por “Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli appellantur...”, ouvi de sua voz, tal qual transcrevo aqui, em puro e fluente latim, que ela tão bem conhecia.
Graças a ela tive acesso, na origem, às fábulas de La Fontaine. E que francês impecável o de minha avó! Lembro-me que há não muitos anos, quando uma doença insidiosa já se manifestara-lhe, roubando aos poucos sua memória e, por fim, as forças, submeti a ela uma dúvida quanta à pronúncia de uma antiga palavra naquele idioma, a qual vinha desconcertando até mesmo uma professora (doutora) francesa com quem tive aulas. E sua resposta veio límpida, direta e precisa. Era aquela a pronúncia correta e nenhuma outra como logo verificamos. Tais eram os prodígios daquela mente.
E quantos clássicos foram-me apresentados por ela! Juntos conversamos, e nos empolgamos, com Shakespeare e Dickens, Alexandre Dumas, a Baronesa de Orczy e Robert Louis Stevenson, Guy de Maupassant, Somerset Maughan, Ernest Hemingway, John Steinbeck. E Tolstoi, Dostoiévsky, Thomas Hardy, Suetônio, o Cardeal de Richelieu e Tomás Morus. Até uma versão resumida d’O Capital, de Karl Marx, este um presente de minha mãe, lemos num distante verão de 1984, meio escondidos de meu avô, que não apreciava tal literatura. Como esquecer de nossos debates sobre a Mitologia Grega, à luz de uma coletânea, e comparando-a a’O Minotauro, de Monteiro Lobato? E é uma pena que alguns de seus herdeiros tenham aberto mão de tais conhecimentos. Mas quantas vezes a boa semente não cai em campo estéril?
Foi ela a mais talentosa, das pessoas que conheci, porque, poucos o sabem, ou lembram, foi também uma dedicada estudiosa de muitas outras artes e saberes. Uma boa desenhista na infância e uma excelente pianista na juventude (não de ouvido, mas de ler partituras: teve aulas com ninguém menos do que a célebre Magdalena Tagliaferro, em São Paulo, nos anos 1940). Foi aluna da Universidade de São Paulo (onde estudou com o célebre poeta italiano Giuseppe Ungaretti, seu mestre) numa época em que poucas mulheres frequentavam cursos superiores. E, ainda assim, foi uma impecável dona de casa e mestra em trabalhos manuais.
Que tapetes elegantes era capaz de bordar! Lembro-me de cada um deles, estejam onde estiverem. E que gosto natural, mas também lapidado, à precisão, por suas leituras, ela manifestava e dedicava para a beleza como um todo! De minha parte, poderia escrever um sem fim de laudas quanto ao seu talento na decoração de sua casa, ditada sempre pela mais fina elegância: a qual é econômica, e nunca peca pela ostentação desenfreada, sem personalidade, que se adquire, a soldo, por meio de decoradores, ou se copia das revistas de sucesso. E que dizer de seus talentos paisagísticos, que, segundo uma lenda familiar, a qual não desabono, foram louvados pelo próprio Burle Marx? E quanto ao cuidado com seu jardim e pomar, hoje, infelizmente, arruinados...
Não posso exagerar os talentos culinários de minha avó. Não seria justo com sua memória, visto que ela mesma reconhecia que não cozinhava bem – o que se tratava, evidentemente, de uma extrema modéstia neste campo, porque ela era capaz de produzir iguarias que só muito poucos, pouquíssimos, aliás, conheceram. Pois o melhor doce de fios-de-ovos que jamais provei ou hei de provar em minha vida foi feito por ela. E tive a graça de estar junto a ela, inúmeras vezes, enquanto preparava tal acepipe, geralmente na antevéspera do Natal, quando ficávamos juntos na cozinha e, esperando o ponto da gema, conversávamos sobre o mundo e nos tornávamos confidentes. Uma confidência mútua que perpassou os anos e que ajudou a construir o melhor de mim, frente ao mundo, e a todo o resto que orbitava ao nosso redor.
Quanto à sua delicadeza, poderia dizer que minha avó foi a pessoa mais bem educada que conheci em toda a vida. Mas a expressão “bem educada”, de tão gasta, não daria conta de como, nela, tal qualidade expressava a sua verdadeira natureza. Pois seu comportamento excedia todos os parâmetros hoje reconhecíveis quanto a tal matéria. Nunca ouvi, por sua voz, palavras baixas, vazias, inúteis. Sempre teve a medida celeste do dom divino do Verbo, que prodigalizava em sentenças precisas. Nunca uma ameaça, um alteamento imerecido de voz que não pela defesa de um valor, de seus princípios. E seus modos à mesa, em sociedade, fosse tratando com o rico e com o pobre, seu dom de conversação e decoro, sempre impecáveis. Em tudo.
E no que diz respeito à sua sutileza e sabedoria, foi ela a mais discreta e mais douta pessoa que jamais vislumbrei quanto a certos arcanos que desafiavam a fé mais rasa, a crendice mais rasteira, a ignorância transformada em fanatismo, a superstição travestida em norma de conduta ou ponto de doutrina. Minha avó, desde que tive idade suficiente para compreender o que ela dizia quanto a estes temas, foi uma plena defensora da liberdade religiosa e do conhecimento, fosse ele deste mundo ou ainda de outros mais além de alguma vulgar teologia. Católica? Até o fim. E rosacruz. Pois as mentes abertas não se encastelam numa fortaleza: voam, livremente, na defesa da tolerância e da não exclusão, combatendo o fanatismo e as trevas da intolerância.
Antes de morrer, minha avó já tinha se desprendido deste mundo avaro, mesquinho, exibicionista, chão, ignorante e estúpido. Seu Espírito, há tempos, já vivia no Paraíso. A ele foi se juntar, agora, sua Alma. Ótimas, excelentes companhias uma ao outro. Às quais, certamente, alguns poucos dentre nós hão de se juntar.
De modo que não choro por ela. Ou melhor, até choro, de felicidade, porque, etérea, diáfana, olímpica, celeste, como sempre ela foi, finalmente juntou-se, em plenitude, ao seu justo e merecido Elemento, Primordial e Eterno.
E se lá “no assento etéreo, onde subiste”, minha avó, minha querida amiga e mestra Dª. Vera Villa de Queiroz, “memória” ou notícia “desta vida se consente”, escute o meu eterno obrigado, meu muitíssimo obrigado, por sua existência, por seu amor, por sua amizade, e pelo Universo que me revelou!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de dezembro de 2010].

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