O humorismo, espontâneo, em nosso país não poupa nada. Digo espontâneo, porque o profissional anda cada vez mais chapa-branca, quando não infantilóide, reciclando pretensos sucessos de vinte anos atrás: Marcelo Tas, do CQC, por exemplo, não faz outra coisa que não repetir o seu personagem, Ernesto Varela, dos anos 1980. E, depois, datado seria o Chico Anysio... Mas, voltando ao tema inicial, o fato é que nem o episódio ocorrido recentemente no Chile escapou das piadas. Uma das boas que ouvi afirmava que tudo correu bem entre os 33 homens debaixo da terra porque eles eram mineiros: se fossem cariocas, teriam se dividido em facções pelo controle dos cigarros. Outra garantia que todos sobreviveram porque não eram gaúchos: se fossem, pelo menos um teria virado churrasco. Piada, aliás, que valeria para argentinos, também. Mas um comentário geral que ouvi foi que tudo até que pareceu bem lucrativo para eles, afinal, tornaram-se heróis nacionais, ganharam ingressos para disputadíssimos jogos europeus, cruzeiros para as ilhas gregas e muito, muito dinheiro. Houve gente que até disse que gostaria de ter passado o mesmo que eles passaram, só pelo prêmio, chamando o episódio de “um Big Brother com uma câmera só”.
E que circo foi aquele armado pela imprensa! Muitas vezes eu acho que, diante de tais espetáculos, sobretudo porque são involuntários, seus participantes deveriam ser regiamente pagos. Desastres como este, por exemplo. Aliás, todos eles. Pois vejamos bem alguns pontos. As únicas pessoas que deveriam realmente assistir, dia e noite, à cobertura do resgate, seriam os familiares, amigos, patrões e colegas daqueles mineiros. Os demais, vidrados nas telas de televisão, nada mais procuram nelas que, em tais casos, uma espécie de divertimento macabro (muitas vezes torcendo para que alguém morresse), ou voyerismo da desgraça alheia. Estes, de um lado. De outro, temos as emissoras de TV, rádio, jornais, etc., que percebem estes gostos mórbidos de sua clientela e apressam-se em satisfazê-lo da maneira mais ininterrupta possível – salvo para os comerciais, evidentemente. Fico imaginando a fortuna que deve render àquelas empresas... E aos atores do drama, nada. Ou quase nada...
Outra coisa que dá o que pensar é o tratamento de heróis dados às vítimas daquele infortúnio. Heróis não seria um pouco de exagero? Está certo, padeceram horrores ali, longe de suas famílias, sem conforto algum, etc. Por outro lado, o que poderíamos esperar deles? Que matassem uns aos outros? Que se alimentassem dos mais fracos quando a comida estivesse acabando? Que regredissem a uma condição inferior à selvageria? Que se tornassem algo abaixo do humano? É por que não sucumbiram a descalabros que se tornaram heróis? Convenhamos, é esperar muito pouco do gênero humano e de profissionais cujo interior de uma mina é o seu dia a dia ou sua noite sem fim. Acredito sinceramente que o termo correto seria vítimas, ao qual se poderia somar a expressão que se comportaram bravamente. Pois heroísmo, de fato, vi na equipe de socorro que desceu por aquele tubo numa engenhoca que ninguém sabia se daria certo. E voluntariamente, para salvar seu próximo. Estes sim, em minha opinião, foram os verdadeiros heróis.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de outubro de 2010].
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