Confesso que um dos episódios mais frustrantes a que assisti em toda minha vida, não só como cidadão, mas como observrador da política instaurada em nosso país, foi o último debate dos candidatos à Presidência exibido pela Rede Globo. Sobretudo em razão do apresentador e de um ou outro participante terem feitos comentários ao caráter democrático da iniciativa. Democrático uma ova! Iniciar um programas às dez e tanta da noite e encerrá-lo mais de meia-noite passada, não tem nada de democrático. O povo, que acorda cedo para o trabalho, jamais teria oportunidade de assisti-lo a contento. Democrático seria o debate se invadisse o sacrossanto espaço da telenovela das nove horas, da mesma maneira como um pífio jogo entre São Paulo e Grêmio o fez na véspera. Pois aos milhões de eleitores do país interessa muito mais ouvir as idéias dos postulantes ao cargo máximo de nossa República, do que o desempenho futebolístico de uma equipe do Sudeste e de outra do Sul.
Igualmente frustrante foi observar, no nefando debate, um venerando e honrado homem público paulista, da melhor grei, bater-se não por causas perdidas, mas, sim, por questões equivocadas, procurando abater seus aliados de outrora, e preservando de seus ataques seus inimigos de sempre.
Tristíssimo foi também observar que a nova oposição, dogmática, pouco tem a apresentar que não uma verdejante utopia mal sustentada pelas nuvens de sonho que a embalam em seus devaneios, justos, mas ainda assim devaneios.
E foi também de se lamentar o comportamento da candidata do governo. Suas palavras não inspiravam confiança, nem no tom, nem na dicção, nem nas propostas. Até o cachorro morto que é seu principal concorrente pareceu sobressair-se com uma ligeira vantagem.
Faltou à candidata oficial do poder ora em exercício ter explicitado certas pujantes questões não mencionadas pela grande imprensa, esta mesma que afirma que seu padrinho quer cassar-lhes os direitos de pública manifestação. Se o “líder” da candidata falou de um “partido da grande imprensa”, não estava totalmente equivocado. Vejam-se as análises de campanha da grossa media, os malabarismos que esta faz com os números das pesquisas, e sua tentativa de inocentar, ou tomar como mártir, uma jovem senhora cujo sigilo bancário teria sido violado, ao passo que a mesma, quando proprietária de uma empresa de inquietantes relações com o poder público, escancarou os dados financeiros de mais de quarenta milhões de contribuintes! Por que o silêncio, da grande imprensa ante a tal fato, divulgado pela revista Carta Capital? Acaso ninguém a lê? Duvido. Os homens de grosso cabedal, os ricos, de fato, do país, a lêem. E saltaram da campanha do azarão tristonho. Ah! Mas ele, como já dissemos, é só um defuncto governador. Ainda que bem relacionado, diga-se, Pois conseguiu sustar por um dia, ao menos, junto a um seu contato no STF, e por telefone, o pleno acesso ao voto: o quase derrotado candidato queria impedir que os eleitores votassem com apenas com a universal célula de identidade, insistindo que todos comparecessem com ela e o título de eleitor, aquele documento que, junto com o certificado de alistamento, sempre perdemos em mudança de uma casa para outra, ou do armário para a cômoda.
O que tinha a dizer quanto aos candidatos em nível federal, já disse. No âmbito estadual, vale o mesmo raciocínio. Vejam quem está lá, ou procurando chegar lá, e quem está aqui, ou tentando chegar aqui, ou não querendo largar o osso que aqui rói. Aliás, é patético verificar que um partido, ajudado por umas tantas ou quantas instituições da dita sociedade civil, prega mudanças e alternância do poder e, ao mesmo tempo, não quer largar a carcaça, da qual sugou o tutano e mais além, perpetuando-se como se fossem eternos donos desta presa.
Opa! Agora me dei conta de que devo parar por aqui! Estas linhas sairão na véspera do pleito! E algum zelota, fariseu, sicário ou militante partidário poderia entender estas linhas como propaganda política fora de hora, além do prazo determinado por lei. Então, me calo. Ou melhor, irei sugerir apenas alguns pontos que não hão de ferir nenhum saduceu ou fiscal partidário. Nem, tampouco, aos soberanos, augustos, infalíveis e magníficos magistrados que nos regem.
Se minhas palavras, que os leitores estão acostumados a ler neste espaço, têm algum valor, que as valham nesta eleição. Portanto, sugiro que não votemos em palhaços, esportistas aposentados e sem futuro, tipos folclóricos, coroneizinhos de meia-pataca ou coroneizões de alto coturno, missionários, pastores e apóstolos. A democracia é muito maior que isto: não cabe num circo, num curral, nem em um templo de meia dúzia de sectários. Política é para a maioria, não para a minoria: a qual deve ser respeitada, sem dúvida. E quem nega tal princípio, não é somente um safado eleitoreiro: é alguém que procurará, de fato, atentar contra a liberdade. De todos. E de cada um.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de outubro de 2010].
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