A Quaresma vem chegando ao fim e, ao longo dela, pude notar as práticas mais estranhas de jejuns de que tinha até então notícia. Sei de casos de pessoas que, durante este período de reflexão, prática da caridade e conversão, deixam de lado certos hábitos cotidianos por motivos que me parecem bem outros, que não um testemunho de fé.
Há quem, por exemplo, promete se abster de alimentos gordurosos ou de consumo de açúcares. Foram advertidos por suas consciências? Não, mas por seus médicos, alertados por seus preocupantes estados de saúde. Vai então o penitente à marra, levantando em falso o nome do jejum, tentar reverter, em quarenta dias, e só enquanto estes durarem, tudo de errado que faz ao longo do ano. Ora, dieta é dieta, jejum é jejum.
Assim há aqueles que, por outro lado, abrem mão de certos alimentos, por assim dizer, durante a quadragésima, para literalmente se entupirem de outros durante o mesmo período. Tenho um conhecido que não bebe uma gota de bebida alcoólica ao longo deste tempo. Nada, nem uma reles cervejinha, nem um bombom com licor, absolutamente nada. Entretanto, quando se senta à mesa, come tanto, mas tanto, que ao fim de uma refeição, pensamos que ele está à beira de um ataque apoplético! E não se trata só da quantidade. Ele – que em geral se serve de qualquer coisa que se lhe ponha no prato – refina-se nesta ocasião. Faz questão de leitoas, cabritos, carnes de caça. Isto é que penitência! E, é claro, coroa o Sábado de Aleluia com uma bebedeira monumental.
Sei do caso de uma pessoa, fanática por chocolates, que não os toca durante esta época. Ela simplesmente os substitui pela mais variada gama possíveis de doces, em profusão. Abri, certa vez, sua geladeira, e esta em nada ficava devendo a um balcão de doçaria. Outra, que padece do mesmo vício, por sua vez, ataca sorvetes, baldes de sorvetes. Inclusive de chocolate, pois, segundo ela, “tecnicamente, um sorvete de chocolate, não seria, na verdade, chocolate”...
E os fumantes inveterados, jogadores compulsivos, viciados em sexo, que contêm ao máximo seus impulsos nestes dias, para irromperem em desbragadas orgias ao fim da “penitência”? O mesmo vale também para alguns desvairados amantes de churrascos, que parecem querer compensar suas “dolorosas privações” todas num dia só. Sei de um que fez uma farra de carnes tão grande, na véspera do Domingo de Páscoa, na qual havia entrado até carneiro e coelho. Coelho, na véspera da Páscoa? Carneiro, que remete simbólica e visualmente ao Cordeiro de Deus, o Agnus Dei, um dia antes da festa que celebra Sua Ressurreição? Não é, no mínimo, de muito mau-gosto? Para não dizer mórbido, e muito próximo de uma blasfêmia. Mas parece que isto nunca lhe passou pela cabeça.
Por um lado, parece que muita gente acredita que teríamos, na verdade, dois Carnavais, duas “festas da carne”, limitadas pelo início e pelo fim da Quaresma: uma de três dias, para os abusos da própria carne, e outra de um dia só, para os abusos das carnes alheias – se não há também quem usufrua de ambas, nas mesmas datas. Certamente há também os que se satisfazem com estes “dois Carnavais”, e pratiquem abusos pelo resto do ano, ainda que resguardem, com a cara mais lavada do mundo, os já citados quarenta dias de “interdição”.
Por outro lado, pareceu-me, neste ano, que as práticas mais convencionais de jejum, oração, reflexão, decresceram um pouco. O consumo de peixe, por exemplo, soube que caiu em relação ao ano passado. E o culpado, dizem as fontes, não foi tanto o preço, já que, a cada dia, mais variedades, e mais baratas, são postas no mercado: foi-se o tempo em que só havia bacalhau ou sardinha. A própria freqüência às igrejas pareceu-me também diminuir. Estive em diferentes cidades, no último mês, e gosto de visitar pelos menos suas matrizes ou catedrais. E tudo o que vi foram templos quase desertos. E nas próprias missas, a afluência era bem pequena. Podíamos pensar, então, que a meditação, a reflexão, em casa, certamente aumentaram, certo? Duvido. No último mês, vendeu-se, como nunca, celulares e planos de tv por assinatura. E quem consegue meditar, entregar-se à contemplação, “no aconchego do lar”, com tais estímulos ininterruptos?
Na verdade, tudo o que se quer, nestes dias, não são privações para além da natureza. Ninguém está falando em passar dias e dias a pão e água, nalguns dias nada, flagelação, o emprego do cilício, horas e horas de joelho ao pé do altar entoando intermináveis ladainhas. O que se quer é um pouco de moderação, de reflexão, de caridade, de abstinência, sim, mas parcial, das coisas mundanas como um todo. Ao mesmo tempo, um certo desconforto, para lembrarmos os tantos desconfortos dos quais padecem muitos. E que chegamos a um ponto em que possamos compreender que as coisas terrenas, por mais deliciosas que possam ser, não são tudo na vida. Aliás, Aquele cuja Ressurreição celebramos neste Domingo, justamente não dizia que Seu Reino “não era deste mundo”?
O que parece, todavia, é que, na corrida entre a abstinência e o absurdo, e com eles os abusos, de toda a natureza, vem ganhando espaço o segundo, acompanhado de seu séquito.O que será que ganharemos com tal vencedor?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de março de 2008].
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